Pode não parecer, sabe guri, mas eu já fui moleque um dia, e um roqueiro radical e inveterado!
Tudo, tudinho, nessa vida passa né meu amor... ? Passa? Passa mesmo? Nem tudo cara. Aliás, muitas coisas
não passam nunca... A minha semelhança com o Lobão não passou. Se modificou, mas não passou.
Meu apelido aos 14 anos também era Lobão, mas não que eu usasse um daqueles macacões Jeans o tempo todo, não.
As pessoas me achavam muito parecido com o Lobão. Pelo amor de Deus, eu estou falando do Lobão, o baterista, o compositor, não tô falando do
"politico", não! Pelamodedeus!!! Mas tenho que admitir que havia mesmo uma semelhança física. O cabelo era igual, a barriga também, (risos).
Mentira, nessa época eu não tinha barriga... Mas as sobrancelhas grossas e o jeito meio malucado, a jaqueta de couro, o Jeans surrado, as botas
e etc. Antes de eu ser o "Lobão" eu já era muito fã do cara...
O Glauber, o maior "badboy" lá do colégio me obrigava a ir para frente da sala de aula e cantar as músicas do Lobão...
Ele dizia: _Canta "Vida Bandida" agora que eu to mandando! Agora canta "Revanche"! Anda, canta essa porra logo se não apanha, moleque!
Eu acompanhei tudo sobre o roque nacional, desde as fitas demos na Rádio Fluminense FM, aos shows do Circo voador e etc, etc e etc.
Tá certo que eu ficava mais no portão, do lado de fora, do que dentro dos shows, mas eu sempre estava lá.
Bem, quase sempre... As vezes ganhava um ingresso ou outro nos sorteios da rádio e entrava, as vezes entrava com o meu tio maluco, o Siri, que dava carteirada de "Imprensa" e eu ia atrás.
Mas fora isso, eu e a turma lá da rua onde morava, vivíamos muito intensamente esse momento musical do Brasil.
A gente se reunia na esquina e sempre apareciam mais de dois violões. Nós não queríamos só tocar as músicas dos caras não, a gente já queria compor
e sobre tudo, aquilo era um suspiro de esperança para mudanças realmente expressivas na minha geração e no País todo, de modo geral.
Foi na mesma época da abertura e o Brasil meio que ainda estava fervendo "de baixo das cobertas" e sofrendo a lambança da ditadura.
Nós queríamos todos, ser astros do roque, "guitar-heros" e coisas desse gênero como os caras do Iron Maiden, do Led Zeppelin ou Hendrix, dos Beatles, e ao mesmo tempo,
isso tudo era muito distante, coisa de sonho que não acontece nunca... Mas eis que surgem os caras que falavam muito bem a nossa língua... O Renato Russo foi de cara
o representante ideal. Todo mundo queria ser igual a ele. Eu não, eu tinha que se diferente, né. Eu amo a figura e o trabalho do Renato, mas ele era um punk muito bacaninha,
muito educadinho, assim... O "gravatinha" dos punks. Eu precisava de uma dose mais forte, mais contundente.
Vieram os Titãs com o "Cabeça Dinossauro" e a linguagem estava perfeita pra mim! Eu ouvia e copiava, tentava ser o Arnaldo Antunes, mas eu não tinha conhecimento do que ele
falava, ainda não sabia o que queria ser, mas sabia que ainda não era aquilo que me seduziria até o fim.
Aí o Barão Vermelho deslanchou, e eu disse, é Isso! - Aquele cara, o Cazuza - É ele !!! Seja como for, tô nessa! È isso! A linguagem, as músicas, aquele envolvimento com o Blues, com
a poesia de amor moderníssima... Falando coisas bacanas daquela maneira coloquial, roquenrou... E nessa hora entra em cena o Lobão, com uma critica social ainda mais dura,
mas voraz, mas escancarada e eu ficava pensando que se os dois caras fossem um só, o mundo estaria fudido na mão deles.
Eu ficava ali roendo, remoendo as letras das músicas dos caras, achando eles muito inteligentes e criativos, pensando que o que eles estavam fazendo era de uma modernidade
sem fim, e que talvez eles não tivessem consciência disso - De como eram importantes pra nós... E não tinham mesmo... Depois, muitos anos depois eu soube que eram grandes amigos!
Estava pronta a cagada - Eu queria ser como os caras ! Vivia tirando as músicas deles no violão e cantando aquilo o tempo todo, pro desespero do meu pai, porque
o fato dos caras usarem drogas matava qualquer possibilidade de eles serem grandes artistas pro meu velho... "Esses maconheiros..." Meu pai dizia... Eu, nem aí. Pra mim os caras eram os melhores
e eu não estava nem aí pra saber se eles usavam drogas ou com que eles dormiam. Eu estava ligado no que eles diziam. E aos meus ouvidos, diziam tudo.
Eram a tradução mais perfeita do que eu sentia, do que eu era! Todo o senso de liberdade que eu precisava pra amar, pra viver, pra fazer música...
É constrangedor dizer isso, mas até hoje eu penso que ainda imito os dois, e não é por querer, é uma parada muito espontânea, como se estivessem incutidos aqui no meu cérebro, na pele, sei lá.
O tempo foi passando e tudo aconteceu na vida de nós três, inclusive a morte de um de nós, o Cazuza, e a quase morte do Lobão algumas vezes, e com isso e outras mil coisas,
nós que sobramos (eu e o Lobão) envelhecemos, amadurecemos e ainda hoje não nos conhecemos... hahahaha, mas estamos intimamente ligados e não só mais, pelas semelhanças físicas.
Eu quis dizer que nós estamos ligados sim, mas ele não sabe disso não, só eu que sei. Hoje estou grisalho e barrigudo, enquanto ele está grisalho, apenas...
Eu li a biografia do Cazuza e achei uma merda, sobre tudo, porque foi escrita sob a ótica de sua mãe, assim como o filme que muito me emocionou, mas por outros motivos...
Agora estou terminando de ler a auto biografia do Lobão, estou amando, e sobre tudo, porque foi escrita por ele. Não tô aqui para criticar o livro do cara, não, tô aqui pra falar
das semelhanças brutais entre nós dois, que descobri ali no livro. Tô aqui pra falar na capacidade de se auto sabotar que nós temos, no talento de descobrir algo novo
iniciar aquilo e não terminar nunca porque alguém encheu o saco demais... Na competência que temos de procurar sempre o lado marginal das coisas, porque nos sentimos assim, ou porque nos impuseram isso.
Eu tenho a mesma forma anarquista de lidar com tudo, e a mesma língua sem freio... A mesma empolgação e deslumbre com certos momentos... Ninguém pode entender isso, somente podem achar insano.
Essa coisa de desandar a falar e conjecturar inocentemente sobre tudo, e ser usado ao sabor dos interesses dos outros.
Sim, a identificação é muito clara também quanto a auto mutilação intelectual e até, física, porque não?
Compreender exatamente o que está acontecendo e não poder falar sobre aquilo com liberdade, mesmo que seja uma crítica, me enlouquece!
Eu quero falar! E falo! Ou falava, talvez... Li que ele fez anos de análise pra aprender a lidar com seus ímpetos, mas a essência ficou.
Eu só faço análises e criticas a mim mesmo, pois o que eu digo não tem mesmo muita importância pra ninguém, ou quase ninguém.
Resumindo: Ele ainda é um grande babaca, assim como eu...
Nós somos do grupo de poucas pessoas que se arriscam demais, que dizem o que pensam, e que realmente pensam sobre as coisas todas.
O que não quer dizer que sejamos donos de verdade nenhuma, além das nossas, é claro!!!
Somos pessoas muito corajosas, e essa nossa coragem de dizer o que todo mundo tem vontade, é o que nos puniu a vida inteirinha... E ainda nos pune.
Mas também, certamente, é alvo de admiração entre todos aqueles que nos chamam de loucos porque dissemos o que todos queriam dizer, mas não tiveram coragem, ou capacidade de pensar sobre...
Assim, somos sempre apedrejados sobre o palco de nossas vidas, na boca da melhor cena, sob os holofotes de nossas realidades tão diferentes, mas pelos mesmos motivos.
Ele do alto dos seus 50 anos a mil, e eu dos meus 38 anos a cem...Em looping, em transe... Em estado real, móvel !!! Vivos e carregando uma porrada de covardes nas costas...
Aqueles que se tornaram mais famosos, mais ricos, mais estáveis na vida profissional, mais tudo... E muitos não fizeram uma forcinha pra isso, porque sempre tinha um Lobão lá, pra demolir um muro antes...
"Vida louca vida / Vida imensa / Ninguém vai nos perdoar / Nosso crime não compensa ! " (Lobão & Cazuza)
Este texto viraria um livro muito facilmente, se eu tivesse tempo para tanto...
Rio de Janeiro, 30 de Maio de 2011.
Alexandre de Roure.


Tá muito mal escrito... E não foi de propósito dessa vez... Vou parar por uns tempos... deixar isso pra depois - Não muito, um mês, dois, três... Até breve, e obrigado a todos os que tem vindo sempre aqui, tenho me esforçado por vocês, mas não tá funcionando... Vamos respirar...
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