MEUS AMIGOS QUE NINGUÉM GOSTA
Essa não é uma historinha comum e engraçada. Não tem ritmo de comédia e nem
tem nada que interesse. Aliás, tenho medo que você se aborreça lendo isso,
mas não é minha intenção que isso aconteça, porque quero que volte e leia
mais. Acho que vou espantá-los assim... Qualquer dia você vai ler alguma
coisa legal... Eu acho...
Eu sempre fui um desses caras que têm milhões de amigos. Amigos de todos os
tipos, idades, sexos e esquisitices. Eu não vou conseguir falar de todos,
sei que esse papo vai me encher o saco em dois tempos, mas vamos em
frente!Isso acontece desde que eu me entendo por gente, sabe... Não que eu
seja um cara tão extrovertido e simpático. As vezes eu acho que é
exatamente o contrário. Eu sou muito tímido... Tímido mesmo! A ponto de me
reinventar pra sobreviver ao convívio social. Reinventar pode ser lido como
um personagem, ou um heterônimo de mim mesmo. Eu sou um desses caras que
consegue conversar com duas pessoas diferentes, falando de assuntos
diferentes, ao mesmo tempo e dar atenção aos dois... As vezes isso falha,
porque eu me encho de tentar mostrar que cada um pode falar um pouco. Mas
quando a gente fala, fala e fala, as vezes nem quer ser ouvido. A gente só
quer falar. Então eu deixo as pessoas falarem. Tenho vontade de dizer que
estão sendo mau educadas e que precisam esperar o outro terminar, pra falar
na sua vez. Bem, eu aprendi assim lá em casa, e na escola, que quando um
burro fala, o outro abaixa a orelha, mas não tenho coragem de dizer isso,
então, olho para uma das duas pessoas e em seguida olho para a outra.
Repito esse gesto e a que tiver mais educação, ou estiver menos desesperada
pra falar, irá parar. A outra pessoa certamente irá continuar falando. Eu
não gosto de interromper ninguém, e não me sinto necessariamente obrigado a
fazer isso, mas ainda acho constrangedor quando me usam dessa maneira. Eu
sei, eu sei que a culpa é minha! Eu acostumei as pessoas a pensarem que eu
sou um bom ouvinte. E quer saber? Eu acho mesmo que sou, porque embora,
muitas vezes eu esqueça no dia seguinte o que ouvi, no momento da conversa,
eu prestei mesmo muita atenção no que estava ouvindo. Isso é raro, sabe
guria? É, e não sei ainda se isso é uma qualidade ou defeito, mas tenho
quase certeza de que é por isso que tenho todo tipo de amigos em todos os
lugares... Eu ouço as pessoas com atenção – Embora o Nélson Rodrigues tenha
dito que ninguém ouve ninguém e etc. Mas eu ouço. Com isso, me torno amigo
dos caras mais chatos, mais intransigentes, mais exibidos e também dos mais
inteligentes, mais sagases e mais interessantes. Claro, das moças mais
bonitas, mais bem resolvidas, e das mais feias e problemáticas. Quer
saber? Eu não classifico essas pessoas, não as julgo e não as meço. Apenas
sei que são diferentes por suas características mais gritantes. O que, é
claro, não diminui o meu amor por elas. Tenho essa tendência de gostar
delas, apenas porque gosto. Não sei se estou sendo claro. É uma coisa minha
esse lance de gostar das pessoas, de observá-las, de querê-las por perto,
com todos os seus “defeitos” e “qualidades”. Eu gosto e pronto! Se me
perguntarem porque é que gosto de uma roupa ou de uma guitarra, certamente
eu vou enumerar todos os motivos, mas isso não acontece com gente. Gente,
eu gosto ou não. Já gostei de tanto filho da puta e de tanta gente
maravilhosa... Tanta gente que me fez sofrer e que me valeu de alguma
maneira... Não tenho motivos pra gostar de alguém. Tenho motivos para
querer ou não, me relacionar com essas pessoas. O que, é claro, não vai me
fazer deixar de gostar de alguém. Eu quero dizer que quando brigo com uma
pessoa que eu gosto, ou amo, eu fico puto, aborrecido, decepcionado e etc,
mas isso não impede que continue a amando. Dependendo do tamanho da
frustração eu deleto essa pessoa da minha vida ou não, mas posso continuar
gostando dela... Só não a quero mais por perto... Ah... Deu pra entender,
né ? Sei que deu...
Quando eu era guri, tinha lá um grande amigo que era muito mau humorado.
Ela não falava sempre com as pessoas, e nem mesmo comigo. Quando estava
enfezado, passava sem dizer olá, sem olhar, como se não existisse um mundo
a sua volta. É, todo mundo fugia do cara, e reclamava dele e de como ele
era mau educado e eu concordava, mas não achava aquilo o fim do mundo não,
sabe... Quando ele queria papo eu dava, quando não queria, eu respeitava a
maré ruim do cara. Somos grandes amigos, mas a vida da gente tomou rumos
diferentes, então quase nãos nos vemos.
Tinha também uma menina minha amiga, muito ciumenta e triste. Ela vivia
triste... Triste mesmo! Perdeu boa parte da adolescência falando de sua
tristeza. Eu ouvia numa boa. Mas não tinha pena e nem julgava. Só ouvia,
aconselhava. Tinha muito essa coisa de papo cabeça, de mostrar maturidade,
na minha adolescência. Agora, adulto que continua com isso me irrita
profundamente... Ela não me irritava naquela época. Talvez hoje me
irritasse... Mas não, isso deve ter passado e ela deve ser feliz agora.
Também não a vejo a muitos anos. Ninguém tinha saco pra ouvir as suas
lamúrias, seus problemas. Ela era excluída do grupo, me lembro... Eu tinha
pena e ouvia. Bem, passou... Eu acho...
Tinha o cara da escola que era o líder da bagunça, um molecão forte e
bonito que mandava na gente, que fazia eu cantar os roques do lobão na
frente lá da turma. Se eu não cantasse apanhava... Eu tinha maior vergonha,
mas cantava. E cantava mal, assim, quase como canto hoje. Não tinha raiva
do cara não. Se isso fosse hoje em dia iam dizer que era “bulling” e que eu
podia ter me transformado naquele desgraçado que entrou no colégio atirando
nas crianças... No meu tempo não tinha isso não. Você era sacaneado por um
cara mais forte que você e assim que encontrasse um mais fraco, sacaneava
ele, e assim seguia. Tirando essa cara que me mandava cantar, nenhum outro
amigo meu virou coisa ruim não... Bem Eu acho. Esse menino, o … É melhor
não citar nomes... digamos que ele era o Marcelo, sim o Marcelo cresceu,
virou X-9, depois entrou pra polícia, passou a um esquadrão da morte e fez
a limpa no bairro que a gente morava. Um dia levou uma rajada de
metralhadora e é claro que ainda não morreu dessa vez. Saiu do estado, se
recuperou, depois voltou, matou todo mundo que tinha que matar e num dia
alguém acertou ele de vez. Morreu. Chamavam ele de “Marcelo” o Diabo! Ele
era mesmo o capeta! Mas eu gostava do cara. Aprontamos muito na escola.
Fomos suspensos juntos por termos acertado uma tampa de pasta de dentes na
cabeça do Aymoré, que dormia na carteira da aula de História. Foi bacana. A
gente falava de garotas, de bailes e tudo mais. As pessoas fugiam dele, mas
eu não, eu gostava do cara. Achava ele foda... Ele me admirava porque eu
tinha uma banda de Roque. Agente falava dessas coisas. Pra mim ele era um
cara como outro qualquer, e com suas características mais fortes aguçadas,
e o povo não gostava delas. Tenho muitas histórias desse amigo pra contar.
Mas não cabem aqui. O texto vai ficar muito grande.
Depois tinha aquela guria que namorei. Todo mundo dizia que ela não era
legal, que era meio maluca e coisa e tal. E era mesmo, era desequilibrada.
Mas e daí, eu gostava dela. Namorei sim. Ela era bonita! Doidinha,
coitada... Mas eu gostava. Passei maus pedaços por esse namoro... Putz, nem
conto... Mas dessa eu tive que me livrar. Os limites dela eram muito além
do que minha grande paciência podia suportar. Essa eu não quis mais como
amiga, e não quero até hoje. Se eu a encontrar na rua, atravesso, abaixo a
cabeça, me escondo, sei lá. Se me chamar eu não respondo, ou talvez a
xingue logo, que é pra ela desistir... Se bem, que tem gente que não
desiste, né? Você deixa claro que não quer falar com a pessoa, mostra
sucintamente que não está confortável com a presença dela, depois você fala
de uma maneira educada, que ele está sendo desagradável e ela não entende.
Fica ali pentelhando. Então eu livrei dela. Dessa menina eu não gosto mais.
O amor acabou.
Teve o Fabinho do segundo grau. Ele era um guri muito doido. Era
engraçadíssimo. Pelo Menos pra mim. Os outros diziam que ele era muito
inconveniente, que ele não sabia escolher as piadas e nem o momento de
contá-las e etc. Ele fazia um tipo meio assim, como vou dizer, criança em
corpo de adulto, sei não... pra mim era um crianção mesmo. Muito
divertido. Eu gostava dele pra caramba, me divertia picas com as babaquices
que ele falava. Tinha umas músicas que ele cantava... “ tem coristina A,
tem coristina B, mas essas eu não quero, eu só quero se fuder...” que eu
adorava... Adorava aquela palhaçada. Isso, ele era um palhaço, mas os caras
da nossa idade passavam a maior parte do tempo tentando impressionar as
garotas. Ele não, ele anarquizava o processo. Eu gostava disso. Disso e de
rir sem parar, sempre que ele estava por perto. Imagina que ele era militar
da Aeronáutica, e dava serviço num hospital onde havia pessoas perturbadas
mentalmente por lembranças de gerra, e quando um surtava, ele embarcava na
“fantasia” e planejava com o “doido”, uma maneira de surpreender o inimigo.
Falava de granadas, de explosões e de estratégias, como se realmente
estivesse na guerra... Contava pra nós, fazendo caras, bocas e gestos...
“Tira o pino!” E mostrava como se lançava uma granada. Se jogava debaixo da
cama do dormitório com um cabo de vassoura nas mãos, como se fosse um
fuzil... Enfim, não gostavam do cara. Eu gostava e ainda gosto, embora
nunca mais o tenha visto. Ele era amigo do um bateirista, o Rodrigo, e do
China. Um cara que fingia ser o cara mais correto do mundo. Depois vi que
ele era maior babaca. Mas isso é outra história.
Tinha... Ah, cara tinha um monte deles. Eu não vou ter saco pra falar dessa
gente toda aqui. Isso vai dar mais de dez páginas. Tinha o coroa, o que eu
mais gostei, de todos os meus amigos que ninguém gosta. Cara bacana,
inteligente, safo. Mas louco! Louco e, deixa pra lá... Não tô a fim de
falar mais desses caras não. Acho até que nem devia ter começado esse
assunto. Eu não vou terminar esse texto, porque está realmente muito chato
falar disso, embora seja importante demais pra mim, deixar registrado que
eu sempre fui amigo de todo mundo. Fui e sou amigo até daquelas pessoas que
não devia ser. Fui amigo de ladrão, de bicheiro, de drogado, de polícia, de
gente mesquinha, de gente egoísta, de gente humilde e inteligente... Nossa,
são tantas pessoas desajustadas e exemplares, que nem sei... Eu gosto das
pessoas.
Minha mãe, meu pai, meus irmãos e meus amigos mais íntimnos nunca
conseguiram entender essas minhas amizades com “loucos”. Teve uma vez que
apresentei um amigo ao meu irmão e o cara ficou com o braço estendido um
tempão, aguardando um aperto de mãos que não aconteceu até hoje. Meu irmão
não foi com a cara do moleque e cruzou os braços. Tá bem, esse era um
vigarista mesmo, mas até então ninguém sabia. Deixa pra lá, não vão
entender nunca... Eu preciso aprender que determinados amigos não se podem
misturar com outros, só isso... Aliás, eu sei já disso. Eles é que não
sabem e insistem em se cruzar o tempo todo, causando constrangimento e etc.
Mas eu vou parar aqui, fumar um cigarro, reler essa porcaria e ver se
aproveito alguma coisa dessa historinha horrorosa, desmotivada, sem ritimo
e sem nada. Uma historinha, assim, sem amizade, sacou?
Então, feito isso tudo... Cigarro fumado, texto relido, concluo: Eu posso
ter me tornado um desses caras chatos... Percebo isso claramente nos
comentários das redes sociais. Ninguém ainda me bloqueou ou me deletou mas
sinto essa repulsa as vezes. Não os culpo e nem os repudio. Tenho vergonha
de tentar ser esse cara que está em todas, de tentar ser gentil e
engraçado. Ninguém acredita que exista ainda, gente como eu. Não estou
dizendo que sou melhor ou pior, só estou dizendo... Cara, as pessoas não
entendem essa porra e devem achar que eu sou meio maluco, mas eu prefiro
acreditar que sou livre pra falar, rir e pensar o que quiser. Isso pode
parecer muito intransigente e ser muito embaraçoso pra alguns, mas não pra
mim.
Pra mim parece honesto... Tolo, esqueço que as pessoas preferem ser
enganadas, iludidas. Preferem a imagem do príncipe encantado de mentira, a
imagem humana do seu amigo virtual ou intimo, que seja. Não gosto do
constrangimento que ma causam e menos ainda de causar algum a outras
pessoas, mas essas coisas acontecem e eu temo que meu inconsciente as vezes
vezes me traia teimando em se vingar publicamente. É, já deu né? Cada um
com os amigos que quiser. Eu com os meus amigos que não se adaptam e vocês
com seus amigos fingidos... Os de gravata e os pobrezinhos... E é o que se
pode ser feito... Podemos deletá-los, bloqueá-los, fugir deles... Podemos
ignorá-los, não ouvi-los e etc. Podemos viver sem a diversidade, e sem
saber o que há do outro lado. Gente, nós podemos tudo! Podemos até fazer
muito mais amigos. Amigos que provavelmente nunca serão de fato amigos.
Podemos até viver com todos eles, assim, fingindo entre altos e baixos.
Fazendo aquele azougue do jogo de cintura. Podemos inclusive, mostrar quem
somos, ou quem pretendemos ser. Mas definitivamente, meu filho, nós
precisamos aprender a dizer “não”. Não ao que não nos interessa, a quem não
nos interessa. Mas diga não porque não interessa a você, e não porque não
se encaixa nos padrões da sociedade alucinada que um bando de
loucos-credenciados criou. Os padrões, devem ser os seus, não os do padre,
os do vizinho, ou os do artista da TV. Eu não aceito, fico só. Só com a
memória dos meus amigos desajustados e com a minha intolerância ao senso
hipócrita comum.
Por favor, deixem-me com meu "sim", em paz.
Juro pra vocês, o dia que eu me cansar de vez dessa gente toda, vou viver
no meio do mato, como fez meu pai, porque fingir não é pra mim. E ratifico:
Tolo é o cara de pau que imagina nunca encontrar alguém mais cara de pau
que ele. Você já viu a cara de surpresa deles? Não? É legal.
Sorriam amigos, porque não?
Rio, 02 de maio de 2011.
Alexandre de Roure.
Só tu mesmo Roure... me colocar pra começar a ler seus pensamentos e lembranças depois de 12horas aqui no trabalho.Mais fiquei até empolgado,pois você mesmo diz que esse é o mais fraco,vou ler os outros com calma.É isso ai meu amigo,esse é você mesmo.Sem médias,sem ser hipócrita.
ResponderExcluirHolly.