domingo, 29 de novembro de 2015








VÔO BEM, OBRIGADO...


Fui "criado" em ambientes extremamente fascistas, racistas, machistas, homofóbicos, excludentes e preconceituosos em todos os sentidos... Um "sistema" ou uma "sociedade" praticamente inteira, engessada nessas escolhas. Tudo que poderia se parecer com uma estrutura, estava imerso nesses comportamentos, nessa maneira de ver a vida... Tudo em volta de mim sugeria essas ideias... Tudo ao redor ensinava a gente a ser assim ... E era isso que eu devia ser... Era assim que eu devia me comportar... Eu devia ser Fascista, machista, racista, homofóbico, excludente e preconceituoso em todos os sentidos. Devia ser religioso, mesmo que tivesse aquela religiosidade confusa que se apresentava em tudo, em todos, ou quase, a minha volta... Pra eu me sentir aceito, me sentir igual, incluído... Só desse formato, dessa configuração, poderia vir a aceitação, ou o julgamento pré concebido de normalidade... E eu fui "normal" durante um curtíssimo período na minha adolescência... Por que na infância, eu fui criança e estava livre dessas coisas... Não sei como, se a maioria dos meus "amiguinhos" já estava inserida nisso tudo. Mas eu vivia lá no meu mundinho  imaginário de histórias e super heróis, de cantigas de roda, de personagens inventados... Talvez por isso...
As paredes, as escolas, as famílias, os amigos, os mestres, o ambiente profissional, tudo enfim, respirava e creio que menos, mas ainda respiram esses "valores"... Não tinha nada, ou quase nada, ninguém ou quase ninguém, pra dizer uma coisa diferente... Tinha até quem dissesse que era tudo uma merda, mas mesmo estes, nunca apresentaram nenhuma outra opção... Não deram nenhum exemplo que me interessasse...
Na verdade, eu sou uma das pessoas que começou a dizer o contrário de tudo isso, nos "meus ambiantes", no meu tempo, na minha geração... Sim, eu descobri muito rapidamente no que estava metido até o pescoço. Bastou ingressar na vida profissional, aos quinze anos, pra saber que mundo era esse que eu vivia, e vivo... E praticamente ao mesmo tempo, veio a música, e o teatro de meu irmão, me mostrando as saídas, as opções, as coisas que eu nem sabia que existiam, na zona sul, no mundo que eu desconhecia até então... Nesse momento, eu era um roqueiro, tocava numa banda de rock e estava claro que era tudo uma bosta, e que eu precisava sobreviver. Precisava trabalhar... Ganhar algum dinheiro e o quanto antes, gerir a minha vida... De outro jeito... Um jeito que eu nem sabia ainda, mas sabia que não seria como me ensinaram.
"Eu disse pra ele, sabe, vou arranjar um trabalho... E ele, de imediato: você vai precisar cortar este cabelo.. Cabeludos não arranjam trabalho com facilidade... Eu disse que sabia disso, e que estava indo pro barbeiro. Ele passou a mão no bolso da calça e me deu dinheiro demais pra cortar o cabelo. Devolvi a metade e ele insistiu que eu passasse no fotógrafo da esquina antes, e tirasse pelo menos uma fotografia com aquela aparência, pra lembrar "mais tarde" que fora um dia, cabeludo e roqueiro... Ela, lá de dentro, ouvindo a conversa veio a nós e disparou: Não precisa tirar foto nenhuma, porque isso não é coisa pra se lembrar... ou você quer se lembrar do tempo que tinha cara de menina? Eu não disse mais nada, apenas devolvi o dinheiro, fui ao barbeiro e cortei o cabelo. No dia seguinte ela disse que eu estava com cara de homenzinho. E ele ficou triste, eu vi nos seus olhos. Ficou triste por eu não ter um registro daquele momento, e ficou triste pelo o que ela disse, mas não discutiu, não brigou por isso. Nem eu. Não fiquei triste, queria ser "homem", digo, ingressar na vida adulta, pagar minhas contas, ajudar em casa. Era necessário. Era a minha prioridade, no momento."
Fui trabalhar, estudar a noite e conhecer a vida adulta aos quinze anos. Conheci as pessoas reais, de perto.
Estudando a noite, o leque se abria... E continuei tocando, comecei a compor e cheguei a pensar em ser músico profissional, mas isso era inadmissível em todos os ambientes que eu frequentava... Ser músico para eles, era coisa de vagabundo, maconheiro, viado e etc. Mas eu conheci essas pessoas, esses vagabundos, esses viados, esses maconheiros... Essa gente que via o mundo de outro jeito. E quer saber? Eu gostei muito deles... Eu os achei muito interessantes, essas pessoas "cheias de tudo" que eu nunca tinha ouvido falar...
Aí tomei gosto por conhecer pessoas... Por conhecer tudo... Acendeu alguma coisa em mim! Foi aí, nesse momento... Eu sei... E "apagou-se" um mundo que me criara até ali... Ficou frio, sombrio e cada vez mais distante...
Eu tinha carisma, sabia pisar em qualquer lugar e falar com qualquer pessoa. Estava aberto e qualquer um podia perceber a minha honestidade. Sempre, olho no olho e de frente. Nunca de baixo pra cima, ou de cima pra baixo. Só me pisaram, os que permiti. Falei e falo de igual pra igual com qualquer pessoa, não me intimido por nada que não esteja me apontando uma arma pra  cabeça... Fora isso, só tenho medo de altura... Muito medo, diga-se, de passagem...
Sim, a partir deste momento eu estava na rua... Estava em contato com tudo o que queria... E eu queria ver tudo... Queria ouvir tudo... Um grande amigo, religioso, me disse, "Cara, sabe o tal do Marx? Foge disso! Esse cara é um perigo pra sociedade... Ele é o próprio demônio!" Porra bicho, no dia seguinte eu estava com "O Capital" no colo... Eu queria saber porque esse cara era tão ruim assim... E porque alguém me disse pra não ler aquilo... Pois é... Eu descobri imediatamente, que não sabia das coisas porque não queriam que eu soubesse... Eu não entendi muito bem aquele livro, com quinze ou dezesseis anos, mas saquei que tinha muita coisa "estranha" em tudo no meu mundinho suburbano... Depois li "O Manifesto Comunista" e também foi difícil... Ai veio Nietzsche e um monte de outras coisas... Um monte de outras músicas e compositores, e poetas, e filósofos, e muita vida pra viver e ver, e ouvir... Eu tive certeza que não era do mundo que me criou... Eu era de longe... Muito longe... E queria estar longe de tudo aquilo que me oprimia e me obrigava a ser algo que não era inerente a minha natureza... Daí por diante, fui esvaziando, desprendendo, desamarrando e sempre digo que a música me salvou, mas tive que ser de outro mundo, e continuar vivendo no mesmo mundinho de sempre, e frequentar os mesmos ambientes opressores, conviver com as pessoas desses ambientes, sem desrespeitá-las, sem julgá-las... Eu sabia onde eles estavam metidos... Sabia que dificilmente sairiam do buraco em que as enfiaram... Eu respeito todas as pessoas, até que me desrespeitem... É da minha natureza... E não é fácil eu me sentir desrespeitado... Estou aberto... Mas tenho limites. Imponho meus limites. Não deixo que avancem, quando não quero. Sou tranquilo pra isso, mas as vezes preciso ser firme. Consigo ser firme, mas não gosto... E mesmo não gostando, já estou longe de me sentir oprimido pelo constrangimento...
Fui ensinado a não questionar certas pessoas, a não contrariá-las, mas seria impossível me libertar, sem plantar meus gritos em suas colheitas... De todo lugar que saí, deixei meu cheiro, minha saliva... Alguns gostaram, outros não... Não me comovo, acho natural... Não sublimo mais as pessoas... Nem as mulheres... Apenas as amo e as reconheço dentro de mim. Reconheço toda a luta de todas as minorias, e estou disponível para elas... Sempre! Acredito que esta é também a minha luta, minha missão de cidadão... Não gosto da ideia de privar qualquer pessoas de seus direitos, porque o mundo que me criou, teria me privado de tudo que eu gosto e acredito, se eu não tivesse encontrado um caminho alternativo para conhecer todos os mundos que conheci... Então, me sinto como as minorias, como todas elas... Eu me sinto mulher, e negro, e comunista, e gay, e trans, pobre e tudo que está a margem... Os sou, certamente, todos um pouco e evidentemente, não sou cada um deles, não vivi suas vidas, mas sei como se sentem... Sei o que sentem... Acho impossível ser feliz num mundo, onde algumas pessoas não podem levar a vida do jeito que são... Naturalmente... Sem ter os mesmos direitos que todos os outros... Isto deveria ser inadmissível... Deveria ser inadmissível que algumas pessoas não tenham o que comer, pelo simples fato, de que há comida sobrando em todo lugar... E isso, pra mim, é o pior de tudo... Pior que tudo!
Criei meus filhos exatamente do jeito que eu quis, e não permiti interferências, nunca! Não foi nada fácil não permitir interferências, acreditem... E posso garantir que eles tiveram na infância, um ambiente familiar que não é fascista, não é machista, não é racista, não é homofóbico, excludente ou preconceituoso... Também sei que eles já começaram a se chocar com o mundo que encontraram fora de casa, mas estão apreciando desde cedo, os prazeres de olhar nos olhos de qualquer um, de não se sentirem menores, de não achar ninguém pior, ou menor, por pobreza, raça, orientação sexual, religião e um monte de coisas que deviam nos unir, pelo simples prazer da diversidade, da troca de experiências... Entender como vive alguém com uma determinada limitação física, te dá uma visão de outros aspectos e sentidos, e assim por diante... É bacana a diferença... É interessante ver tudo... Como se "movem" os outros, como se amam e como se ajeitam com suas dificuldades e limitações... E mostrar as nossas para eles... Sim, é um prazer falar, expôr, entregar... Não tem nada de fragilidade nisso, é agregador, é promissor, é enriquecedor... É lindo!
Não dá mais pra ficar parado, escravo de paradigmas sociais e de conselhos, ordens e ensinamentos, que não favorecem a todos. Isso não parece saudável para uma sociedade, para qualquer sociedade, para o mundo, para o futuro... Nunca me pareceu bacana, ser um seguidor, mesmo que seguisse meus pais... Não sou eles, não sou como eles... Não sou como ninguém... Sou daqui e dali, e amanhã, de outro lugar, e se quiser eu volto... Vou entrando e saindo de todas as estruturas que a vida me oferece, e negando as que não gosto, as que agridem e menosprezam uns, e favorecem outros... Pode ser qualquer estrutura, até a família... A passionalidade nos afasta profundamente das verdades... Das nossas verdades...  Pais erram também, e muito! Eu sou pai e sei disso, claramente... Não posso deixar os olhos fechados para o íntimo, é de lá que venho, é lá que começo tudo e onde tudo termina... É aí a primeira luta, a primeira virada de mesa... Eles são como todos os outros, humanos... Apenas humanos... Também não estão certos... Estão em busca... Ou deveriam... Ou deveríamos, todos estar...
Por esses vôos rasos, por ter saído de todas as estruturas que poderiam ter me destruído como ser,  individual, único, e por ter visto outros mundos, ouvido outras músicas, lido, visto outras historias, por ter olhado nos olhos de todas as pessoas que se dirigiram a mim, me tornei um herói! Eu sou o meu herói, e sobrevivi... Sobrevivo dia após dia, a tudo que existe, que acho injusto e eu não gosto... Ninguém me atropelou com sua ira ou carinho... Estou de pé! Continuo sobrevivendo a tudo que me oprime, porque permaneço no mundo que não escolhi, e lá, as pessoas ainda são as mesmas e estão nos mesmos ambientes em que preciso estar... Elas ainda são fascistas, racistas, machistas, homofóbicas, excludentes e preconceituosas em todos os sentidos... Mas eu estou lá, firme e forte... Ninguém viveu a minha vida, ninguém viu o que eu vi... Estou firme, heroicamente firme nos meus propósitos e crenças... Firme na minha fé, nas minhas ideias, nas coisas que inventei para me encontrar comigo mesmo, e mesmo que mudem o tempo todo, e eu seja contraditório, isso é o que sou... Não tem regra pra ser, se você não faz mal a ninguém, se não é opressor, tirano, ou bandido... Bandido que rouba dinheiro ou que rouba almas, se sua violência não respinga nos outros... Não me sinto maior e melhor que ninguém por isso, me sinto um sobrevivente, e mesmo que tenham me ensinado ao contrário, eu tenho orgulho disso! Mesmo que tenha aprendido em todos os ambientes que fui obrigado a frequentar, que acreditar em mim é feio, parece pedante e vaidoso, tenho orgulho de  assumir a minha natureza e saber diferenciar claramente a humildade da falsa modéstia, a fé da hipocrisia... 
Desejo que todos sintam este orgulho de si e de suas lutas, vitoriosas  ou não... Porque o gostoso é a busca!
Sintam-se heróis por não desistirem de ser quem são... É uma delícia! É trabalhoso, não se enganem... É penoso... é difícil pra cacete, todo dia! Mas você se olha no espelho e não vê outro, e esse pagamento, filho, não tem preço!
Não estou livre, mas estou em trânsito, em transe... Já vôo bem...
Vergonha mesmo, só tenho de um dente podre que ainda não tratei...
 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014




UMA HISTÓRIA DE NATAL, APENAS...

Acordei um pouco depois das três da tarde, como de costume (eu trabalho à noite)... Pensei no meu amor, Renata, ela está fora da cidade visitando a família... Acho que sonhei com ela, mas não lembrei o sonho. Senti saudade do seu sorriso, do seu carinho e da ternura que sempre me olha.
Levantei da cama meio tonto, a cadela me olhou faceira, como quem pede colo. fiz-lhe um carinho na cabeça e disse seu nome: Rita Lee! Umas duas vezes...
Fui pro banheiro, escovei os dentes, depois fui pra cozinha, peguei o celular na bancada do armário e enquanto me servia de uma xícara de café morno e chechelento da garrafa térmica, lia umas bobagens na internet... Fiquei ali sentado à mesa alguns minutos lendo, tomando café velho e fumando uns cigarros pra repor o déficit de nicotina das horas dormidas. Depois fui pro quintal, varri as folhas pegajosas do pé de carambola que coloriam o chão cinza de ardósia, num tom estranho de amarelo escuro e marrom. Estendi as toalhas que pus na máquina de lavar pela manhã e voltei pra cozinha. Tomei água, comi bolo e bebi mais alguns cafés acompanhados de outros cigarros. Enviei e recebi mensagens pelo whatsapp, em maioria, eram mulheres semi nuas ou nuas com gorrinhos de papai noel, felicitando amigos com mensagens de natal. Pensei que isso era divertido, mas tão idiota quanto o natal. Bem, eu gostei de fazer isso, e não importa o por que...
Peguei a guitarra do meu guri que estava lá no quarto me olhando e comecei um blues, que obviamente, não terminei... As mensagens de natal não paravam de chegar no telefone e eu curioso pra ver qual era a besteira do momento, esquecia do resto, da hora, do blues... Depois vieram os telefonemas. Minha avó querida foi a primeira a ligar, depois liguei pro meu amigo Cid. Enquanto falávamos a campainha tocou. Eram meus vizinhos de frente, vieram me desejar um feliz natal. Eu gostei, porque eles são legais, simpáticos e sempre muito atenciosos. Eles se foram, e eu liguei pra minha mãe pelo mesmo motivo natalino, falei também com o tio Birinha, meu padrasto querido. Em seguida, meu irmão mais novo, o Leandro ligou. Falamos um pouco, mais pra combinar como seria a festa de réveillon que queremos fazer, doque por votos de natal. Ele é sempre agradável e me conta as novidades que meu sobrinho Gustavo anda aprendendo. O moleque é fio desencapado e tá sempre aprontando alguma. Fico feliz com esse tipo de conversa... Já eram mais de sete horas da noite e eu precisava correr com as coisas. Liguei pro meu pai. Liguei, liguei e liguei. O telefone dele estava na caixa postal. Muito provavelmente desligado. Ele detesta essas datas e esses telefonemas pra se dizer as mesmas coisas todo ano. Assim como eu e meu irmão do meio, o Rodrigo. Não nos telefonamos esse ano. Mandei uma mensagem sacana pra ele com uma foto de duas gêmeas com o papai noel e uma delas mostrando o dedo do meio para quem a fotografou. Qualquer um de nós dois poderia ser aquela guria desaforada, mas é mais provável que ela seja ele, porque, com tudo, acho que ele ainda odeia mais o natal do que eu. Rodrigo me respondeu com uma mensagem de voz gravada que dizia:"Feliz natal, ho ho ho! Bléeeeeeerh" Eu acatei aquilo como sendo uma gargalhada natural, sobre todas essas coisas de natal de todos os anos, das mesmas pessoas fazendo e falando quase que exatamente as mesmas coisas... Estava tudo dentro do esperado, mas o pior ainda estava por vir.
Esquentei uma comida de anteontem no micro ondas, que estava na geladeira, e almocei as sete e trinta. depois fiz minha marmita, lavei a louça e fui arrumar as coisas na mochila, a roupa, e etc. Sim, eu tinha que trabalhar em mais uma noite de natal. Tomei banho, escovei os dentes, passei perfume, vesti a roupa exatamente como faço todos os dias... Liguei a TV para a Rita Lee e acendi a luz do corredor pra ela não ficar no escuro... Renata, minha namorada sempre recomenda que eu faça isso, porque aprendeu com a sua mãe... Não acho importante para a cadela, mas não me incomodo de fazer. Fiz. Troquei a água dela, enchi o prato com ração, me despedi, também, exatamente como faço todos os dias, e catei minhas chaves pra sair, mas quando pus a mochila nas costas, foi diferente. Passou um filme grande na minha cabeça, meus olhos se encheram d'água, minha voz embargou e eu pensei que ia chorar, como já aconteceu em outros natais em que trabalhei. Imediatamente uma voz saltou de dentro do meu peito para meus ouvidos dizendo que eu era um homem e que esta era minha cruz... Eu devia carregá-la sem maiores contra pontos. Isso, pegar, colocar nas costas e sair... "Não há o que chorar. Vamos embora, você é um homem. Este não é o primeiro e talvez nem seja o último" E é isso mesmo... Tenho que ir, vamos! Um homem precisa agir assim as vezes. Fazer o que é preciso. E me disse com a mesma voz, que dessa vez não ia sofrer. Não estava feliz, claramente, mas também não estava arrasado como de outras vezes. Sai. Já na rua, um menino de aproximadamente nove anos, na sacada de um prédio, acenou pra mim. Sorrindo largamente. Eu nunca o tinha visto na vida. Não o conheço. O Fato é que ele disse: Tio, Feliz Natal! Pensei que claramente, ali eu tinha ganho o meu dia! E de como era especial esse dia pra ele, e de como ele estava feliz por ser natal, e que, como ele, quantos meninos não estariam se sentindo assim pelo mundo todo...(?) Sim, este é um dia especial.
Esta era uma noite de presentes, e sobre tudo, de sonhos... É uma noite que faz sonhar... Isso é bom! É sim!  Imediatamente me remeti para as noites de natal da minha infância, de como eram felizes e de como meu avô sabia fazer uma festa dessas e manter a família unida. Minha avó preparava melhor que qualquer outra pessoa no mundo, todas essas comidas típicas e reuniamo-nos em volta daquela mesa enorme pra celebrar a vida e a família, que eu ainda não sabia que era esquisita, como as outras... E de como a família se desfez depois que ele partiu para outros mundos... Ah,  e ainda tinha o sorvete de nozes que vovó fazia com os coquinhos que sobravam... Era um sonho... Eu sonhei tanto com essas coisas quando criança, que resolvi tentar proporcionar aos meus filhos a mesma alegria... Se eu fazia essas coisas por eles, o natal também era bom pra mim...
Eu cresci, e depois foi a vez deles... Aí o natal voltou a ser chato... Muito chato. E triste. O natal é uma data triste, pra mim. Mas não somente porque eu trabalho nesses dias. Eu acho tudo chato. Gosto mesmo das rabanadas e da cerveja... Isso, preciso de muitas cervejas pra sobreviver à um natal, caso eu não trabalhe... Na verdade, preciso de muitas cervejas pra sobreviver, sempre...
Esperei 40 minutos por um ônibus, mas ele veio. Veio devagar. Mas veio.
São exatamente 00:00h e agora todos se abraçam no país inteiro. Eu apenas escrevo esse texto que a noite de natal me trouxe como reflexão. É como um abraço em mim mesmo. Não está ruim pra mim, já tive dias muito piores... Natais piores... Nos quais, eu nem trabalhei... Agora preciso interromper a escrita para executar um procedimento de trabalho que tem hora marcada. Pronto, já fiz... E enquanto fazia, meu filho me mandou uma mensagem: "Feliz Natal, pai!!!" Eu chorei, claro. Ainda choro. Choro porque não estou com ele... Com eles. Vinícius e Júlia... E com minha namorada, Renata. A pessoa mais incrível que já conheci... Vou ligar pra ela agora... Preciso fazer isso... Ouvi-la...
Retomando: Subi no ônibus e a mulher à minha frente desejou feliz natal ao motorista enquanto pagava a passagem. Ele respondeu sorridente enquanto dava-lhe o troco. Fiz a mesma coisa, mas ele não olhou pra mim e não respondeu. Eu sorri pra dentro, pensando no quanto ele podia estar aborrecido de estar trabalhando, e tranquilo, sentei-me a janela. Atrás da minha cadeira, dois casais muito animados, riam alto de histórias que contavam. Só deu pra perceber que tinham, todos eles, um sotaque bonito do Ceará, antes de colocar os sagrados fones de ouvido. Liguei o MP4 e a primeira música que tocou foi "Marco Marciano" do Lenine. Uma música muito importante pra mim, assim como seu compositor... Ouvi agradado, olhando pela janela, as pessoas aos montes, aglomeradas nos pontos de ônibus... Nos feriados não costuma haver fartura de conduções... Isso é chato, mas tudo bem... A gente entende que é menos uma família sem o pai ou a mãe dentro de casa.
Passei a viagem toda olhando pela janela e ouvindo música. Tinha um olhar diferente, meio embaçado, como se estivesse atuado por uma entidade, ou bebido umas cervejas... Quase como se eu olhasse através do meu corpo, estando meu espirito fora dele... Uma sensação engraçada, e de paz, estranhamente... Começou a chover quando eu chegava no Méier e todos fecharam suas janelas, enquanto eu gostava de sentir a chuva respingando no rosto... Eu estava numa situação que beirava ao efeito anestésico... Não sentia felicidade, mas paz... Não me questionava sobre o que sentia, apenas sentia e achava bom. Desci do Ônibus em frente a prefeitura e acendi um cigarro pra fumar nos cinco ou dez minutos de caminhada até o trabalho... Eu continuava pensando em tudo que havia passado de bom e de ruim pra chegar até aqui, nesse estágio da vida em que estou. Pensei sobre todas as pessoas que estiveram e estão na minha vida e mais do que o de costume, em como eu estava distante de tanta gente... E de como eu precisava me manter assim... E de como eu preciso viver o que estou vivendo agora. Aí lembrei de um filme muito bacana chamado "Cortina de Fumaça", que vi algumas vezes, e é sobre um jornalista que precisa escrever uma história de natal para uma coluna num jornal americano importante... É um belo filme, pensei... Minha voz embargou e eu senti que ia chorar a poucos passos da entrada do prédio. Mas eu não tinha tempo para isso. Eram 21:55h. Precisava render o colega que me aguardava chegar para ir embora. Engoli o choro e subi no elevador vazio. Trocamos as informações necessárias e ele se foi. Eu estou aqui, e entre uma tarefa e outra, escrevo um pouco... Continuo refletindo sobre essa noite. E sobre as noites de natal. E de como são mágicas para tanta gente. Há quem seja muito feliz nesses dias... Acho que consigo dizer que gosto do natal, por isso... Porque ele faz algumas pessoas felizes... Sobre tudo, as crianças... Pelo menos, a maioria delas... Acho que consigo entender o porque de as pessoas fazerem tanta questão de se reunirem nessa data. Elas querem sonhar. Sonhar que tem uma família bacana, que todos se amam, e que o mundo pode ser melhor pra todos a partir disso. Acho que consigo respeitar mais o natal, depois das reflexões de hoje.
Eu só não consigo entender, porque é que elas não pensam nisso todos os dias... Por que precisam que o natal exista para tolerar sua família, pra amá-la, pra querê-la unida... Por que as santas pessoas não são capazes de sentir a importância do amor, todos os dias? Por que ainda, as pessoas se maltratam tanto o tempo todo, as vezes a vida inteira? Por que fingem, falam mal, e odeiam as maneiras de viver das outras, o maldito ano inteiro, e no natal, estão dispostas a relevar o que julgaram mal durante todo o tempo? Por que não somos mais humanos todos os dias? Por que precisamos de uma data pra sonhar com um mundo melhor? Por que precisamos de toda essa endumentária pra sentir esperança, se esta é uma caracteristica naturalmente vital pro ser humano?
Deixo essas perguntas como um abraço forte de feliz natal... Vão lá, vão... Amem-se!!!

Alexandre de Roure.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014




COMUNICAÇÃO, AMOR E DESCULPAS


Fui reconhecido por minha habilidade em lidar com todo o tipo de gente desde cedo. Mesmo que tímido, sempre fui um comunicador. Sempre ouvi todo tipo de gente, em todo lugar. Eles simplesmente aparecem e me escolhem. No ponto de ônibus, no trem, no metrô, Batem no meu portão, me pedem um trocado, um cigarro, comida, água. Geralmente os atendo. Tenho cara de bonzinho, eu acho. Talvez tenha cara de bobo, de otário, não sei. Levei muitos anos pra perceber que isso fazia parte de mim, e que podia ser útil. No colégio, no primeiro grau, fui escolhido como representante de turma porque um professor percebeu meu "talento" para liderança. É, eu liderava a turma da bagunça, e nem me dava conta disso. Ao terminar o segundo grau científico, eu fui escolhido orador de todo o turno da noite de um colégio estadual com mais de 10.000 alunos. Mesmo sendo um rebelde nato, eles gostavam de mim. É, eu tinha carisma. Era tão espontâneo estar com todo o tipo de gente o tempo todo. Era simples: Eles tinham histórias pra contar, eu gostava de ouvir. Pronto, nos dávamos bem. Em todo lugar que ia, tinha amigos. Não levava trote ao trocar de escola, pelo contrário, já até ganhei beijos na boca de garotas do último ano, por ser calouro.  Elas diziam que eu era bonito. Eu nunca tinha pensado nisso até então. Quando comecei a trabalhar, as coisas não foram diferentes. O porteiro do prédio, o cara do elevador, a faxineira, o chefe, os clientes, todos gostavam de mim. Eu me sentia querido onde fosse, e com quem estivesse. Não fazia força pra conquistar ninguém, eu agia naturalmente. Sorria com naturalidade. Não pensava em como devia, ou não agir. eu era tolerante e espontâneo... Fui ficando mais velho e levei umas pedradas da vida, descobri a duras penas que nem todas essas pessoas gostavam de mim de graça. Não foi fácil. Alguns eram como vampiros sugando o meu sangue. Eu não os queria mais por perto. Estava frágil e descobrindo que o romantismo que eu vivia, não estava na essência de muita gente. Eu não tinha mais a força da inocência ou da pureza a meu favor. Estava me tornando um homem triste, como os outros. Um cara com medo de ser usado. Tentei nunca generalizar, ou comparar as pessoas, mas já havia se tornado inevitável perceber suas intenções. Mas pra isso, eu precisava desconfiar, observar, julgar, classificar... Caramba, eu acho péssimo manter relações com pessoas que eu precise policiar, que me façam sentir vontade de me policiar. Mas não tinha outro jeito. O momento era este. Eu descobrira algumas das minhas qualidades e defeitos e precisava sobreviver a esta fase, a este mundo.Uma tentativa de equilíbrio constante, uma preocupação em não confundir, não generalizar e não unanimizar nada e nem ninguém... Isso é esgotante. Eu estava cansado. Morto, talvez. Perdi parte do brilho, da espontaneidade. Perdi o sorriso limpo. E para os que me chocavam, agora, eu não tinha apenas um sorriso amarelo, eu tinha palavras. Palavras duras. Passei a responder, a criticar, a reclamar, resmungar. Eu precisava mostrar: Olha, você não é esperto, eu é que deixei você me enganar... Não queria exatamente ser o mais esperto, queria que não pensassem que eu era otário por completo. Bem, nada disso adiantou muito. Os velhos vampiros teimaram em me perseguir e novos vampiros apareceram e se foram. Eu tinha que me auto-afirmar o tempo todo, para que me deixassem em paz. Eles não deixaram. Eles não deixam. E mesmo assim eu continuo me entregando ao que não conheço, a quem não conheço. Continuo sorrindo e ouvindo novas histórias, novas pessoas. É como se eu não quisesse desistir de ser aquele garoto espontâneo, e tudo dissesse o contrário. Uma luta... as redes sociais apareceram, e eu fiz e faço parte de algumas delas. Logo apareceram muitas pessoas interessantes e, claro, alguns se tornaram vampiros dentro de algum tempo. Ninguém finge pra sempre... A grande questão é, que em vez de eu me sentir excluído na infância e na adolescência, como a maioria das pessoas, isso veio acontecer agora, depois dos 35 anos... Sinto-me inadaptável, as vezes... Incapaz de conviver com a maioria esmagadora dessas pessoas. Quando passamos do superficial pra algo um pouco mais íntimo, a coisa desanda. Eu chego a pensar em fazer planos de morar no meio do mato, isolado, pra me proteger, pra me ver livre dessa dificuldade... Logo eu, um ser altamente urbano, boêmio, musical, comunicativo... Mais complicado que isso, é acompanhar uma mudança de comportamento drástica da sociedade. Valores mortos e hipócritas sendo ressuscitado como um Deus adormecido... Coisas que já havíamos vencido há décadas atrás... Estou bastante assustado com o fundamentalismo religioso e político. Uma violência descabida em palavras vazias, sem sentido. Percebo claramente o quão manipulados estamos sendo. Está claro que repetimos, repetimos e repetimos o que os homens poderosos gostariam que repetíssemos, para que eles enriqueçam ainda mais... Acho que na verdade, sempre foi assim, não sei bem... Bem, agora há facções nessas elites. Elas estão subdividas e tem seu público alvo, sua clientela. Fico na defensiva, o que nunca foi uma característica da minha personalidade. Sinto-me acuado, e disposto a reagir a qualquer momento. estou alerta e tenso. Rijo. Não gosto disso. Leio e me assusto. Surto! Respondo... Sinto-me pior quando respondo, porque lembro da minha inocência, do quanto era bonito viver sem observar essas nuances escuras nas pessoas, e inclusive em mim... Parte dessa gente não sabe do que se trata. eles apenas clamam por uma vida melhor, por justiça, a seu modo, com o que têm, e o que sabem. Talvez isso venha a acontecer em breve, e poderemos perceber por bens materiais e estatísticas, mas não somos pessoas melhores agora, garanto. Não estamos abertos ao diálogo, embora tenhamos todas as melhores ferramentas que já existiram, para que isso se realize. Não somos mais evoluídos que nossos pais, ou avós. Não neste momento triste em que a nossa humanidade bárbara se aflora através de palavras e memes na internet. Tenho a impressão que resolvemos ser tudo o que atravancou o mundo durante anos... Homofóbicos, Racistas, segregadores, intolerantes e etc. As pessoas se agridem nas ruas para defender políticos que as roubaram descaradamente, sejam eles de que facções forem. Estamos perdendo a vergonha de ser os piores seres do planeta. Mas não acreditamos nisso. Achamos que faremos grandes mudanças assim... Estou com medo de ditaduras e coisas como o nazismo... Preocupado que se comece a queimar pessoas nas fogueiras novamente. Estou com medo de fazer parte disso. Não quero agredir mais... Nem ser ácido. quero ser liso, espontâneo, sincero, sorridente, como eu era antes disso tudo começar... Não quero com isso, deixar de saber impor limites as pessoas, com todo o respeito que eu mereço. Conhecer suas ideias, suas alegrias, tristezas... A Ira é igual pra todos... Eu já conheço a minha... E garanto, ela nunca me colocou em nenhuma situação confortável ou de prazer... Se houver tempo, desculpem-me... 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014







MENTIRA

Mentira é uma verdade animada,
Uma porta mal trancada,
Uma história bem "dizida".

Uma pausa entre o perverso e a piada,
Uma coisa bem bolada,
Uma bola dividida.

A mentira, é uma coisa abominada,
Vive como se não fosse nada,
Morre de pressa, se perseguida.

Uma frase bem rimada,
Uma vida desgarrada,
Que precisa ser vivida.

A mentira, é uma bela papagaiada,
Qualquer coisa enluarada,
Um privilégio, se  devida.

É uma benção a mentira,
Vergonha, se descoberta,
E honra, se alguém acredita.

A mentira é muitas coisas,
Todas elas são fantásticas,
Bem pensadas e medidas.

São descanso pra verdade,
São movidas por coragem,
São pavor e a alegria.

Sem mentir não existe vida,
Não existe a beleza,
Não existe a fantasia.

Sem mentir, não há mais nada,
Não há fé, não há piada,
Não há cor, nem agonia.

Não há tempo pra mentira,
Não há classe social, nem cor,
Nem sexo, nem sabedoria.

Todo dia é dia de mentira,
Por besteira ou bom motivo,
Quem não mente, mentiria.

E é por ela que me encanto,
Toda vez que, quase canto,
Esta verdade traiçoeira,
Esta sorte verdadeira,
De dizer do que sou feito.
Eu sou um peito encharcado de mentiras,
Todas elas escolhidas pra acalmar alguma dor.
Escolho sempre as que acredito,
E como minhas, as repito,
E todas elas tem valor.

Pra mim, uma mentira de verdade,
Não é sorte, nem vaidade, nem é frio, nem calor.
Pra mim, uma mentira bem contada vale mais que mil palavras,
Vale mais que qualquer dor.
Por isso eu permito que a mentira, seja do outro, ou seja minha,
Seja espinho e seja flor.
Mas veja, só espero da mentira uma doce alegria, uma memória furta-cor,
Reveja, só preciso da mentira, pra calar a hipocrisia, pra deixar humano, o amor!

Mentira...











segunda-feira, 22 de setembro de 2014



Semana passada, um colega me disse que estava muito preocupado com a falta de água. Sobre tudo, em S.P.
Ele me falou num tom de tristeza, que logo, logo, iria faltar água no Rio, porque os reservatórios estão com os níveis muito baixos...
Eu, otimista com a chuva que começava a cair, disse-lhe que ia ficar tudo bem, porque o inverno era um período natural de seca, e que estamos entrando na Primavera, e as chuvas voltam a aparecer por aqui e por ali...
Num tom muito ácido ele se levanta da cadeira e diz:
"Que nada de Roure, isso e tudo culpa do PT, desse governo de badernas e mensalão..."
Dei-lhe meu melhor sorriso amarelo, e disse que sim, que só podia ser isso mesmo... Como poderia discordar dessa turma que sabe tanto sobre tudo...? Ainda pensei, "a Dilma e foda, continua fingindo que não sabe de nada, igualzinha ao Lula... Viada, devia fazer chover logo, po... Água e prioridade...."
Boa Primavera, gente...!

quinta-feira, 5 de setembro de 2013



O SABIÁ E A FILHA

O pai ao telefone, ansioso para acordar a filha que não pode perder a prova, e de olho no Sabiá Laranjeira que não cansa de dobrar o canto limpo, num galho baixo do pé de carambola... Entre um toque de telefone e outro, passa a lembrança tensa de Gilda, insistente em reclamar que aquele canto apreciável, é sinal de mal agouro. O pássaro se assusta quando a filha finalmente atende o telefone, e o pai agora sorridente, lhe diz bom dia... Ele canta outra vez, seu canto inteiro. Troca de galho e volta a olhar assustado, aquele pai que repete as mesmas instruções da vida inteira... O pai desliga o telefone, mas não tira os olhos do Sabiá... Agora passa serena a lembrança ranzinza de Gilto, que sempre defendia os pássaros... Queria-os todos livres... Os alimentava diariamente e imitava seus cantos, com um assobio falho de boca banguela... Assim conquistava a amizade dos bichos... O Sabiá pulou pra outro galho. Um galho fino... Voou. Num rasante pelo telhado deixou a mostra o sol tímido de inverno que nascia... O pai não o tinha visto ainda... Que dia lindo pra se ter sob as vistas! Pensou aquele pai, atento a toda beleza... Boa prova, ele lembrou de dizer pra si agora, o que esquecera de falar a filha apressada para o banho...
Ih, acho que o café esfriou! Hoje é sábado, quem liga para se o café está frio?

segunda-feira, 27 de maio de 2013


A estranha mania de pensar música como um movimento.
Em movimento.
As vezes penso só por um momento.
Depois, no outro também penso.
Mas nem tudo é pensamento.
É um tropeço no que penso.
É lento.
E eu penso.
Penso.
Pen-so.
Pe-n-so.
Pe-n-s-o.
P-e-n-s-o.
P--e--n--s--o.
P---e---n---s---o.
P-------e-------n-------s-------o.
Penso a música que eu quiser, e o movimento que fizer, inclui o som da melodia, seja de noite, ou de dia, a tua mãe, a minha tia, a sua fala mansa e fria, a gargalhada que daria, se soubesse o que fazia, enquanto escrevo porcaria, na privada sentadinha, vislumbrando a harmonia, que não sofre garantia, de viver feito vadia, nesta vida de maria, mesmo a sala ou a cozinha, vez por outra, outra seria, essa voz mais forte e rouca, de mercado ou freguesia, nessa feira só de frutas, de futura galeria, o olho negro da guria, pouca liga pra folia, mais cansaço que alegria, como entendem, tudo errado, esses senhores, essas anomalias, filhos de gamopatia, de uma especie de euforia, que não pensa nenhum dia, que não seja na sua vidinha.
Diga ao tempo que eu espero, mesmo, já não sei se quero, ser um verbo ou um projeto, um veneno ou um mistério, e como não sou de silêncio, escrevo música no vento, penso chuva, arranco o acento, e logo agora esse idiota, me falou que eu tenho sorte, forte sou, tendo nessas notas, todas postas sobre a mesa, o travesseiro era emprestado, o armário nunca teve, as gavetas todas certas, espreitavam novas formas, novas solas de sapato, nenhum sapo, nenhum veto, nenhum feto, nenhum ato, nem um pobre movimento, sem tormento ele escrevia, ele pensava, ele temia, ele sabia que esquecia, que tentava, que fazia, mas não via, que olhava o que subia, o que deixava e o que dizia, mas as voltas da vitrola, da ciranda, do peão, da poesia, máquina lavando roupa, água suja se esvaía, escada baixo, só chovia, já extinta escrivaninha, do piano e da vizinha, a moto quente do carinha, da esquina, da família, desligada do semblante, da amargura cintilante, dessa coisa, todo dia, ninguém mais é importante, ninguém mais é importante, ninguém mais é importante, a não ser o que eu dizia, do amor, do ignorante, do cigarro, do chocante, do que é certo e elegante, de uma flor que é mais cortante, que o azedo desses dias, que o silêncio desse vinho, que o fresco do teu medo, que o sorriso do cinismo, do errado e delirante, delirante, delirante, delirante, delirante.
O movimento deixa tonto, deixa tonto, deixa tonto, deixa torta a poesia, deixa a vírgula de ponto, e de encosto, a putaria. E seu pudesse mesmo pronto, estar livre desse dia, eu deixava um desconto pra cantar numa bacia, debaixo de uma bananeira, em plena segunda feira, sem camisa no inverno, sem qualquer descanso pleno, das torturas da grafia, da vilã, a melodia, desde sempre me fazia, resumir a alegria, pra caber na harmonia. Pra dizer o que queria, precisava de mais tempo, de mais tempo, de mais tempo, de silêncio, de buzina, de latido de cachorro, de panela que caía, sem tampa, só vazia, de esperança e liberdade, pra dizer o que sentia, e sentia e não dizia, não dizia, porque não sabia, não cabia no ouvido, nem nos olhos, nem na língua, essa palavra alvoroçada feito pólvora rimada, feito brisa em fatia, feito agora, feito ontem,  um trêm bala, feia cara, mais uma bala perdida, feito a sorte encontrada, feito a fala mais macia, feito o dia no horizonte, mais distante, mais queria, beber mais nada na fonte, nadar nada ele podia, sem deixar perfil de ponte sobre o mar da melodia. Então só me responde, quem souber o que eu dizia!

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2013.

Alexandre de Roure.
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