sexta-feira, 20 de maio de 2011

A GRANDE AVENTURA DESSA MINHA VIDA...


Ainda agora estava pensando... De novo, só pra variar um pouquinho, né...
Pensando que a vida  deve ser muito boa pro cara que é “normal”. Normal
assim, digo, o cara que não tem pretenção nenhuma na vida, não tem
sonhos... Essas coisas. Você conhece gente assim, que não liga pra
absolutamente nada? Eu conheço uns... Não leem o jornal, e quando
leem, é só pra saber do crime da semana e poder comentar no trabalho... Ah,
o resumo das novelas também é notícia quente... Ele acha que está
informado . E está, porque mais informação que isso não tem lugar na sua
vida, então pra quê? Ele não têm um sonho, não tem vontade de fazer nada
além trabalhar, no que já trabalha, folgar nos fins de semana, ouvir o seus
cd's favoritos, tomar umas e outras com os amigos depois do futebol
sagrado, lavar o carro, se o tiver, dar um “trato” na sua patroa, assistir
ao Fantástico e acabou. Dormir, pra segunda feira começar tudo de novo, e
está muito bom! Pra quê mais? Pois é guri, pra quê mais? Essa satisfação
mesquinhamente otimista, e eu descobri que podia ser até chamada de
medíocre, mas quem disse que isso é ruim. Ele faz a fezinha na Mega sena e
se ganhar, muito bom, se não ganhar, tá bom também. Resumindo: O cara nunca
quis nada na vida, continua não querendo, e pra ele tá muito bom! Caramba,
que inveja! Eu queria ser normal assim...
Ele se queixa que é pobre, que o governo não faz nada, que não teve
oportunidade na vida, que por isso deu no que deu. Vá lá e pergunte se ele
é feliz... Isso, vai... Ele vai dizer: Pô, se eu tivesse grana estaria
perfeito, mas assim, não tenho do que me queixar, não, aê. É, acho que sou
feliz .Sou feliz sim.
Eu quero que vocês me entendam. Não estou criticando esse indivíduo, não,
de jeito nenhum. Pelo contrário. Tô morrendo de inveja do conformismo dele,
e de como é bem resolvido consigo mesmo. Mas eu tô aqui pensando né...
Pensando se nunca passou pela cabeça do malandro, que se ele não orientar o
filho, acompanhá-lo e etc, o filho poderá não ser tão bem resolvido e feliz
com o seu futuro. Pô, o cara coloca as crianças na escola pública pra poder
pagar a prestação do carro novo! Diz pro moleque de 15 anos que tem que
fazer o almoço e lavar a louça dos outros dois menores. Depois tem que
colocar os guris pra estudar. É, aí sobra mais tempo pra ele né... Pode até
dar uma passada no botequim depois do trabalho, chegar em casa já
relaxadinho, destampar as panelas, dar lá uma beliscada, elogiar o tempero
da “nega véia”, banho e cama, patroa e crianças dormindo. Beleza... Vida
fácil e simplesmente bem resolvida. E como se já não bastasse, tem a mulher
que o ama, faz massagem nos seus pés, acredita e ri de suas histórias, suas
piadas de esquina. Tá pronto, resolvido, viver é fácil assim!!!
“Putaqueopariu” porque que eu não sou assim? Porque que o filho da puta do
De Roure não podia ser um cara assim, tão bem resolvido, simples, medíocre
e feliz com a realidade de pobre assalariado, sem sonhos, sem essa coisa de
ser certinho, de fazer a coisa certa. Porra, se a conta de água do cara
veio alta, ele não faz economia no mês que vêm não, ele chama o seu João,
quebra a porra da calçada e faz um gato. Com a conta de luz, faz a mesma
coisa. Já com o telefone, ele diz que tá sem crédito, e pergunta se tu pode
ligar pra ele dessa vez. Tu liga, né, você tem crédito... Mas o cara faz
isso a vida inteirinha sem a menor culpa. Ele é que quer falar com você,
você que liga pra ele, e no fim ele ainda te pede uma grana emprestada, que
vai levar um ano pra pagar, se pagar, sem a menor culpa, e você nunca vai
ter coragem de cobrar porque não foi criado dessa maneira. Você tá certo.
Ele também! Porque não? Se você não cobra, é porque não tá precisando, ele
vai se preocupar porquê? Você que é o dono, não tá nem aí...! Certo, ele
não vai gastar sua preocupação com você. Ele tá preocupado mesmo é se o
vasco ganha dessa vez ou vai ser vice de novo, porque isso ele não pode
tolerar. O Vasco não pode ser vice de novo!
Se fosse eu, pô, eu queria que o Vasco se lascasse, o Flamengo juntinho dele, e
até o meu Fluminense, que se arrebentasse de uma vez, porque pagar as contas em dia é
o que eu aprendi, me preocupar como o guri tá na escola, o porquê de ele
estar tão rebeldezinho, se tá se alimentando, dormindo bem, se faz
atividades físicas, se tem planos pro futuro, pra investir nele, e ele não
se tornar um cara preocupado e mal resolvido como eu. Eu ia estar
preocupado com a roupa, o banho dos cachorros, com atenção que não tenho
tempo de dar a mulher, a família, aos amigos... E bota retinências nisso!
Mas esse sou eu, o bundão!
Cara, eu sou tão bundão, digo, bundão de não fazer “nada” errado, que num
aniversário meu, meus amigos me pregaram uma peça, um trote, não sei como
pode se achar aquilo. Saímos da Escola as 23:00h, depois de ter trabalhado
o dia inteiro, como contínuo, e eu devia ter uns dezesseis, dezessete anos,
não sei, talvez tivesse vinte e já fosse auxiliar de escritório nessa
época... Bem, os caras me chamaram pra comemorar num barzinho, tomar umas
cervejas, conversar, tocar um violão, coisa que era muito comum pra nós.
Disseram que naquela noite eu não entrava no rachachá, que eu não ía pagar
nada. Beleza, “vombora”, disse eu. E fomos. Bebemos todas, comemos porção
disso, porção daquilo, e o primeiro se levantou e disse: Sou o primeiro a
correr, porque sou o mais gordo e corro pouco. O segundo mais gordo era eu,
mas não fui o seguinte, porque ainda não estava entendendo bem o que estava
acontecendo. E lá se foi o terceiro e o quarto. Faltávamos somente eu e o
Jacaré, o mais malandro, magrinho e safo de todos nós. O Jacaré disse.
Quando eu acabar de beber essa coca-cola vou embora, então, é a sua vez de
correr. Eu fiquei louco, peguei minha carteira e não tinha como pagar mais
de quatro cervejas, então tive que obedecer. Corri, corri, e corri até o
outro lado do Meier. O Jacaré vinha atrás de mim uns cem metros. Ouvi o
garçom xingando, e sua voz mais próxima, achei que ele estava correndo atrás de mim, mas não olhei para trás, só corri.
Encontrei todos os outros na barraquinha de cachorro quente da Dias da
Cruz, já tomando uma, porque já que não gastamos um tostão no bar, podíamos
tomar mais "umas e outras". Eles riam e diziam que era uma lição, pra eu aprender, pra eu
ter uma aventura pra contar a meus filhos. Eu fiquei puto e paguei geral
pra todos eles, mas foi inútil, claro. O Rafú disse que amigo é pra essas coisas...
Eu calei a boca e sofri um bocado com aquilo. Definitivamente, não estava
certo aquilo, mas fazer o quê, eu não tinha como pagar a conta, então...
No dia seguinte passamos na porta do Bar na saída do colégio, e é claro que
eu fui obrigado a isso. O Gilmar deu tchauzinho pro garçom, como se fossem
velhos amigos, e o cara não reconheceu a gente. Um deles disse: Viu, seu
otário, vida que segue. Tá sofrendo por quê?
E essa é a pergunta: Tô sofrendo por quê?

Eu só tenho que entrar  na loucura dos loopings  da minha cabeça sórdida, e
sofrer com as impossibilidades, descartar tudo o que aprendi e acredito ser
correto, parar de sonhar com uma vida melhor, e viver sem apego a nada e a
ninguém, pra ser feliz de vez... Mas não, é claro que eu vou complicar
muito tudo isso, porque a grande aventura da minha vida, é fazer as coisas
certas, sem preguiça, sem maltratar ninguém, e ainda ser feliz!!!
Uhhhuuuuuuuuu!!!! Eu também sou feliz, com todas as impossibilidades... É
uma grande aventura ser quem você é nessa vida menino!!!

Rio de Janeiro, 20 de maio de 2011.

Alexandre de Roure.

2 comentários:

  1. Se o De Roure fosse esse cara, certamente não estaria casado comigo.

    ResponderExcluir
  2. KKKKKKKKKKK... Certamente amor... E mais certo ainda, eu nunca poderia ser esse cara, porque fugir do que se é, é mais infeliz ainda!!! rsrsrs...

    ResponderExcluir

Comentários

Obrigado pelo acesso !!! - Deixe seu comenário, ele é muito importante...