segunda-feira, 18 de abril de 2011

SANTA BANANEIRA, BATMAN !!!




SANTA BANANEIRA, BATMAN !


Ainda na primeira casa que vô Gilto alugou em Ibicuí, a do alto do morro, tinha uma varanda arejada, com vista para o mar - para as duas praias do lugar.  Lugar maravilhoso... Que alegria, acordar pela manhã, com aquela vista de cartão postal... Nós íamos pra varanda contemplar as pequenas canoas de pescador e os Iates luxuosíssimos, flutuando serenamente, banhados pelos primeiros raios de sol do dia. Todos enfileirados na mesma direção, apontados pela brisa. Essa brisa que arrumava as filas de embarcações na baia, era a mesma que trazia o cheiro de mar até a varanda. A três metros abaixo, podíamos ver as bananeiras e abacateiros do quintal do nosso vizinho da frente. Um extenso quintal cercado com arame farpado enferrujado que quisera um dia, impor limites as crianças da redondeza, mas tornou-se motivo de gozação entre elas, digo, nós. Pois nenhum daqueles fios de arame jamais impediu o roubo de um delicioso abacate amadurecido no pé, ou de algumas poucas bananas. Essas frutas tinham um gosto que as crianças de hoje não podem imaginar. O primeiro gosto, era o de retirá-las dos pés, o segundo, o gosto de apanhá-las sem ser visto, e o terceiro e mais raro, o de comer uma fruta que amadureceu no pé. Isso quase não existe mais. As frutas hoje são retiradas dos pés muito verdes ainda, para serem transportadas antes de apodrecerem.
            Entre todas as estripulias que as crianças da nossa geração aprontavam, no fim dos anos 70, havia uma série de TV que saiu dos quadrinhos e hoje é muito conhecida no mundo todo, a da dupla dinâmica, Batman e Robin. Aquele era um seriado muito infantil, bem mais leve do que os quadrinhos, uma versão mais cômica, onde o Batman era gordo e  bem humorado e empenhado apenas em defender Gotan City dos seus arqui-inimigos Coringa, Charada ou Pingüim. Sim, um Batman apaixonado pela filha do comissário de polícia da Cidade ( a bat-girl) e enfeitiçado pela ladra mais sensual do cinema de todos os tempos, a mulher-gato. O herói mais querido da minha geração. Sobre tudo, pelos seus bat-acessórios, mas principalmente pelo lendário bat-móvel e a famosa bat-caverna, onde eram guardados todos os seus segredos de super herói, e cuidados minuciosamente pelo seu fiel mordomo Alfred. Sim, a bat-caverna tinha o aspecto de um moderno CPD, escondida de baixo da mansão do Sr. Waine, o milionário que se dispunha a defender a cidade nas horas vagas sob o pseudônimo de bat-man. “Santa misericórdia Bat-man!” dizia o seu fiel parceiro Robin, quando tocava o telefone vermelho, por onde se comunicavam diretamente com o prefeito. Corriam para a biblioteca, giravam uma estante de livros que os levava a uma sala secreta e através de dois buracos no chão, deslizavam por tubos de metal, cilíndricos, até a bat-caverna, e mais precisamente, até o bat-móvel. Bem não poderia ser diferente com a gente, porque nos anos 70, o sonho de toda criança era ter uma passagem secreta dentro de casa, com aqueles cilindros escorregadios que levassem diretamente ao bat-móvel... Ah sim, o Bat-móvel era o sonho de muitos adultos daquela época, e acredito que ainda o é hoje em dia. Bem, agora voltemos a bananeira, pois vocês já podem imaginar que inspirados nessas cenas é que eu e o meu primo Maurício, brincávamos de Bat-man e Robin, numas daquelas saudosas tardes de férias em Ibicuí. Sim eu era o bat-man, por ser mais velho, mais alto e mais gordo, e Maurício, o menino prodígio, Robin, um pouco mais baixo e bem mais magrinho do que eu. Era perfeito fisicamente e como nos entendíamos naquelas brincadeiras, onde o Pingüim, o Charada e o Coringa sempre foram inimigos imaginários – Na correria dentro de casa, de um cômodo para outro, atrás dos nossos arqui-inimigos, foi que meu querido primo teve a visão de que aquela bananeira no quintal do vizinho, poderia ser um daqueles cilindros escorregadios que levavam a bat-caverna e ao bat-móvel. Pois bem, não esitou, trepou no para-peito da varanda e com algum impulso, se jogou com os braços arcados de encontro a bananeira, na intenção de deslizar até embaixo, no quintal do vizinho, onde naquele momento de extrema ação, ele imaginou ser a bat-caverna. Ele não comentou que pretendia fazer aquilo, não planejou nem nada, ele simplesmente subiu no para-peito da varanda e pulou, como se fosse algo que já tivéssemos feito inúmeras vezes... No salto, de fato encontrou a bananeira pelo caminho, e ela gentilmente se envergou ao recebê-lo, até se quebrar, (vocês sabem como são os caules de bananeiras... são macios e frágeis) e levar o meu super primo ao chão do bat-quintal da casa do vizinho. Caiu no meio do mato e rolou feito um caixote de feira por entre os arbustos, por pelo menos uns quatro metros de distância, morro abaixo. Do para-peito da varanda, atônito, ainda não acreditando no que estava assistindo, eu, concentrado em acompanhar cada capotagem, mas não conseguia vê-lo, apenas observava os arbustos se dobrando e se movendo, e isso é que me dava uma orientação de onde o meu super primo Robin estava indo. Quando as pequenas árvores e ramos de capim navalha deixaram de se mover, pude saber que ele havia parado. Talvez por ter se segurado numa pitangueira daquelas, que por rigidez maior que a maioria dos arbustos dali, não se rendeu ao seu peso. Fiquei olhando ainda por alguns minutos sem conseguir processar o que havia acontecido e somente quando ouvi o choro agudo de meu super primo, pude gritar por meu tio Gilberto, que em questão de segundos já estava com o Maurício nos Braços, e eu não consigo me lembrar de como chegou tão depressa até ele. Bem, essa aventura rendeu alguns arranhões e ralados ao meu super primo e nada mais, e a mim, mais uma história pra contar...
            _Santa capotagem, Robin!!! Eu lhe disse depois do susto...
            _Santa bananeira, Bat-man !!! Ele me respondeu.


Rio03/12/2005.
Alexandre de Roure.

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