INTERMINÁVEL RASCUNHO...
Eu mais uma vez estava pensando... Pensando nesse lance do EU. Deu pra
sentir o cheiro? Sem gracinha, eu estava mesmo pensando nesse negócio de
ficar escrevendo umas coisas e outras e relendo... fazer umas canções,
gravar uns vídeos toscos e é claro que, amadores, publicá-los, depois
revê-los... Refazer é uma das coisas que mais abomino nessa vida, e não
terminar alguma coisa é praticamente a morte! Comecei uma bela canção, mas
isso já tem umas três semanas. Sim, porque eu ainda fumava, então deve ter
um mês, mais ou menos que a comecei. A primeira parte da melodia é
belíssima, o tom está perfeito e a letra, o que mais gostei, é quase uma
conversa com o meu filho. Eu fico lá falando umas coisas que ele faz agora
e que eu já superei a algum tempo... E outras que ainda quero mesmo me
livrar...
Se eu preciso me livrar de alguma coisa, são essas mal ditas reticências...
elas estão em todo lugar e em tudo o que eu escrevo ou penso. Parece que
nada tem fim ou é vago demais pra se afirmar, mas é assim que eu entendo o
negócio todo, como uma grande reticência. É quase tão vago quanto a manhã
que estar por vir, a pesar de parecer que será uma grandessíssima repetição
das outras, posso não chegar em casa, ou talvez nem queira mesmo voltar e
etc e tal. Posso até perder o fio da meada, mas o foco é sempre o mesmo: As
mudanças! Mudanças que nunca acontecem, não se mostram ou não se calam.
Digo isso, porque elas estão vivas em todas as pessoas, e todos precisam
mudar uma coisa ou outra em suas vidas, nem que seja pra não morrer de
tédio. Então eu volto a pensar naquilo que disse ainda pouco, nas canções,
nos vídeos, no texto do blogue, nas “redes de relacionamentos”, nas trocas
de e-mail's nos telefonemas, no rádio ligado o tempo todo, nas coisas todas
que comunicam e não necessariamente se comunicam. Apenas se estendem ao
outro como prova de uma existência mesquinha que diz: “Olha, eu estou
aqui”. Quantos amigos você tem no Orkut e com quantos você realmente fala?
Quantos amigos do FaceBook te mandaram uma mensagem hoje? Quantos dos
vídeos que você postou foram vistos por todos os seus amigos? E tem aqueles
que comentam a publicação do seu post, mas não leram o texto ou assistiram
ao vídeo. Eu mesmo já fiz isso, mas me senti ridículo... As vezes eu
comento até o que não sei, somente pra falar com as pessoas, o que é
igualmente ridículo e redundante, mas é o que há! A gente fica aí matando o
tempo e sem nem se dar conta que seu tempo é a sua vida! Noutro dia um
amigo meu publicou um lance no facebook que mostrava bem isso. Era um
camarada que ia envelhecendo enquanto falava um texto sobre o tempo.
Perfeito! Esse cara, somos nós! Ou quase todos nós, porque alguns são
comedidos com essas coisas de internet, videogame e etc. Eu não, eu faço
esse troço todo porque na minha cabeça maluca, alguém pode ver e gostar, e
com isso ser mais feliz, o que me faria feliz, ou quem sabe se essa pessoa
somente se identifique com a minha confusão e queira saber que há outro
louco como ela no mundo e com isso encontre conforto, ou uma pergunta que
faltava pra fazer alguma coisa, porque respostas eu não dou mesmo... Eu não
as tenho e se tivesse não dava, porque resposta é uma coisa que você não
encontra em outra pessoa. Eu tô nessa também de encontrar respostas, mas eu
gosto muito mais das perguntas e isso é muito claro pra mim. Já falei
disso, não importa, o que me move a fazer essas coisas mal feitas, e eu
prefiro chamá-las de intermináveis rascunhos, é a vontade de dividir a
loucura, sabe? É pra não pirar no turbilhão da vida de obrigações e é claro
que aí, todas as perguntas vem pra cá, vão pro violão, vão pra todas as
válvulas de escape, que são apenas distrações desinteressadas. Ôpa, isso
não é verdade, porque elas são distração apenas porque “eu ainda” não tive
a oportunidade de viver dessas sandices que cometo e que me acometo, se é
que esse verbo existe, mas se alguém mais maluco que eu vir esses troços e
achar que pode bancar essa minha loucura íntima, eu toparia viver dela, mas
não somente pra ela como fazem os artistas, porque eu tenho família sabe, e
gosto mais disso do que de qualquer coisa nessa minha vidinha medíocre. Se
fosse possível eu ia querer ser artista sim, mas isso se alguém que entende
do assunto dissesse que eu sou mesmo um artista, né? E como isso nunca
aconteceu e creio sinceramente que não irá acontecer, a pesar de ser
provável que aconteça. Digo isso por conta das barbaridades que vejo na TV
e escuto no rádio. Livros não que não compro livro ruim. Então eu vou
levando essa vida dupla, ou talvez tripla, de ser um homem de família, ser
esse que vocês conhecem na web e de profissional da área de TI. Se me
perguntassem qual a maior loucura disso tudo, eu diria que é TI, porque eu
não escolhi isso pra minha vida, foi acontecendo, acontecendo e eu estou
até a alma amarrado a isso. Bem, isso paga as minhas contas, então deve ter
uma boa prioridade na minha vida, mas é o que mais me enlouquece, o que
mais me faz sofrer, porque das coisas que faço, ou rascunho, é a única que
eu não escolhi, e ao mesmo tempo é fundamental. O que é fundamental mesmo é
o amor, meu rapaz, você tem que amar alguém cara. E não fica nessa de ser
correspondido não porque o amor que você tem, é só o que você sente, tá
ligado? Cada um sente o seu próprio amor camarada. Agora, se acontecer de
você encontrar outro maluco que sinta por você um amor, aí é a delícia e o
abismo crucial da vida. Você chegou lá. Chegou a maior das “beiras do
abismo”! Hahaha, não tem a menor graça essa vida sem uma dose de deboche,
sabe guri. A gente tem mesmo que se jogar, sofrer e depois que passar, rir
de tudo. Rir de tudo um pouco. Mas só das desgraças né, porque alegria não
tem graça. As pessoas choram quando vêem um casal feliz na novela e nós
sabemos que é porque todos querem aquela felicidade que só existe na novela
e nos filmes de Hollywood. Se bem que nos filmes de agora nem há mais
tantos amores felizes assim não. Passou essa fase de beijos longos e
ternura... Passamos as armas, aos tiros a ação incontrolável, e o legal é
que ela também já está se indo por água a baixo! Já vai tarde! Se eu quiser
matar alguém eu vou ver o Antunes no Teatro, que é melhor... O Nelson, o
Nelson matava que era uma beleza: Anjo Negro, O Beijo no Asfalto,
Arandir!!!, Os Sete Gatinhos... Nossa, como o Nelson matava! Mas não tô
nessa de matar ninguém não. Já estive. Estive sim, a beira da loucura de
esganar uns e outros, mas matar não, que não é do meu feitio. Sou da paz.
Da paz nada, eu odeio esse negócio de paz. Na paz não se cria nada. Você vê
que quase não se faz uma arte significante nesse país, porque não tem quase
motivo, a ditadura acabou, pois ela é que obrigava essa gente a fazer arte.
Porque artista é tudo um bando de preguiçoso que não gosta de trabalhar
mais é nunca!Tô falando besteira demais já, né? Mas eu também posso, porque
eu sou humano. Humano, sim, você não tá vendo que a gente vive da merda que
fala? Quem não fala merda não tem vida, é passarinho de gaiola. Isso eu
nunca vou ser, a pesar de adorar passarinhos. Eu mesmo tenho três
Calopsitas, nove periquitos e um casal de Agapornes que colocou quatro
ovinhos na semana passada. Chato mesmo é limpar aquelas gaiolas... ô coisa
chata e nojenta. É cocô de periquito pra tudo que é lado, até nas paredes.
Minha mulher é uma santa, nunca reclamou dos meus periquitos. Meu avô não
aprovava esse negócio de passarinho na gaiola não. Pra ele, passarinho
tinha que estar livre, solto no mundo, assim que nem eu sou. Solto no mundo
do jeito que eu inventei. Mas eu inventei esse negócio de criar passarinho
na época em que eu estava prestes a esganar alguém. Os passarinhos me
salvaram de mim mesmo. Assim como o teatro faz com os intelectuais. Quem
não tem teatro cria passarinho minha filha, ou então coloca vídeo na
internet. Escreve em blogue, toca violão de madrugada, tomando cerveja e
fumando um cigarro atrás do outro. Cigarro não que já parei com isso. Já
tem três semanas que não fumo um cigarrinho. Um cigarrinho, hummm, um
cigarrinho é uma coisa muito da boa tá. Eu não sei mesmo porque eu parei de
fumar, porque que adorava fumar. Uma das coisas que eu mais gostava era
fumar. Fumava com prazer, com alegria. Mas o Médico mandou, agora me
lembrei. A médica mandou eu parar de fumar, foi por isso que parei, agora
já me lembro. Mas um dia eu volto a fumar, vocês vão ver, deixa tudo passar
e a gente toda esquecer desse negócio aí de médico e coisa e tal. Aí eu
volto, volto sim. Volto a fumar e a fazer todas as maluquices que um
fumante sensato faz por um cigarro, ou pra não ficar sem o cigarro. Você já
saiu de casa as três da manhã pra comprar cigarro? Não? Nem eu, eu comprava
cinco maços pra não ter que passar por isso. É uma vergonha, é que nem a
pessoa que morre com aquela cueca furada, velha sem elástico. Todo mundo vê
o defunto com aquela cueca horrorosa. Tenho pavor de morrer com uma cueca
dessas, por isso que eu só tenho cuecas novas. Ah também tenho pavor de
morrer pelado. Deve ser o horrível as pessoas chegando, e você ali mortinho
e peladinho. Todo mundo que conviveu com você uma vida inteirinha e nunca
te viu nú, descobrindo agora como é que você é pelado. Que vergonha isso,
caramba! Imagina o que não passaria na cabeças dessa gente... “E olha como
é pequenino o pinto dele”. “Sabia que ele tinha estria na bunda!”. “Olha,
ele têm um sinal bem ali...” Ah não, comigo não! Tomo banho o mais rápido
que posso pra não passar por isso! Não senhor, comigo não, caramba!
Caramba, é uma gíria tão antiga que ninguém mais deve saber o significado,
mas eu vou traduzir: Quer dizer cacete, putz, caraio, não é caralho, agora
é caraio! Já deu pra entender né? Pois então, este texto é mais um desses
rascunhos intermináveis que vai ficar por aqui, se não, não tenho o que
escrever amanhã. E se você não entendeu, é tudo uma continuação da mesma
historinha. A historinha do eu comigo mesmo. Mesmo que as vezes não seja
exatamente eu e que esse meu heterônimo não tenha um nome, a ponto de ser
chamado de personagem, ele existe de alguma maneira aqui em algum lugar
dentro de mim.
E quanto mais me distancio de todos, mas longe de encontrar a saída estou,
porque embora as respostas estejam dentro de mim, as perguntas estão nos
outros, sem elas não há porque escrever essa maluquice de hoje, bastava eu
pensar, como quase sempre faço... Por essas e outras que as vezes mesmo sem
ter dormido, eu perco o sono... É um absurdo, mas é o que há pra hoje !
Rio de Janeiro, 03 de Abril de 2011.
Alexandre de Roure.

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