quarta-feira, 13 de abril de 2011





PORTA DE GELADEIRA ABERTA

Esqueça o que eu te disse,
Rasgue a noite, tampe o Sol.
Cancele a estréia onipresente e o espesso gosto desse beijo serviçal...

Esperto é ter se visto, ter se quisto, te ser bicho... 
Pro motivo que eu preciso de ser vivo,
Serve a lua mais decente, a fruta fresca ao alcance, 
Serve a brisa, serve a seca, servem os dentes, serve o sal.
Serve o calor dessa areia encandescente, 
A cor dos olhos que se espreme no repouso, na esteira, sorridente...

Das verdades que me apontam pela rua, abro a geladeira.
Ouve o suspiro indivisível, vem da aresta da janela, incabível, 
Mas existe.

Eu espetando o dedo na garrafa mais gelada, 
E olhando  atento a moldura que sublinha essa brancura tão discreta.
É gêlo só.

E a voz da rua que me soa tão calada...

É com certeza que exorciso essas palavras...
E me descobre a porta cinza-escuro, escrava
De tantas idas, e tantas vindas esgotadas
Por um pouco dágua fresca.
Ou por nada.

Soltou-se a sombra, sentou-se na saia, amarrou o cabelo. 
Deixou despido o movimento das braçadas.
Os pés desnudos na poeira da calçada.
O ventre rijo, costela e veias.
Não quis, mas vi, e pude escutar
Que minha água mais aguda, morna e ácida te rodeava.

É só mais fácil estar vestido de alegria,
E ter sumido com o equilíbrio que despia.
É pura afronta estar fingindo que esquecia 
Do que via, do que sente, do que escuta e até do que disse.

As trepadeiras esticadas na mureta...
Flores amarelas, que não sei o nome.
Os traços fortes e os odôres mais serenos
A suportar o isopor do meu jardim.
Vender estrelas perfumadas e sem cores, 
Te dar um abraço mais cansado e mais gentil.

Estenda os braços pro adeus e pro final.
Ao som dessas teias mais seguras que sisau,
Jamais tecidas, já mais vividas... 
Passou discreta esta sentença de morte... 
Mas passou. Passou raspando, mas passou.

Que a alegria ter um santo canibal, logo aqui a espreita.
Suspeito de todas as maldades que eu quisera assinar a autoria. 
É que não posso mais matar e nem morrer pra isso, sabe?

É que não sei matar direito, assim, com respeito, com maturidade...
Mas aprendo um dia essa desmesura de arte viceral,
De morrer a cada tiro disparado contra o espelho.

Quis ir aos poucos se enterrando, sem se ir, se foi,  e morrendo a cada tiro, foi.
Sem se esvair em palavras desnecessárias e displicentemente inúteis, 
Se foi.
Eu fui com ele e com os outros.
Eu fui com todos o que pude ir.
Fui com os que cortam a garganta da gente e desvirtuam a simetria do processo,
daquela coisa, como é mesmo o nome?
Sim, a estratégia... 

Nem sei... as coisas passam, sabe?
Modelos se perdem, e a continuidade se transforma numa coisa muito mais vulgar
E atualizada. Tempos de tecnologia... Tempos de tecnologia...
Nunca mais escrevo um poema pela metade, 
Assim, se morre duas vezes...
Se finge duas vezes, entende-se o que se é duas vezes... 
Sigamos com o cortejo, porque matar-se é inevitável nessa vida, minha filha...
Nem que seja aquele que eu era, ou aquele que devia.


Rio, 13 de Abril de 2011.
Alexandre de Roure.

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