PORTA DE GELADEIRA ABERTA
Esqueça o que eu te disse,
Rasgue a noite, tampe o Sol.
Cancele a estréia onipresente e o espesso gosto desse beijo serviçal...
Esperto é ter se visto, ter se quisto, te ser bicho...
Pro motivo que eu preciso de ser vivo,
Serve a lua mais decente, a fruta fresca ao alcance,
Serve a brisa, serve a seca, servem os dentes, serve o sal.
Serve o calor dessa areia encandescente,
A cor dos olhos que se espreme no repouso, na esteira, sorridente...
Das verdades que me apontam pela rua, abro a geladeira.
Ouve o suspiro indivisível, vem da aresta da janela, incabível,
Mas existe.
Eu espetando o dedo na garrafa mais gelada,
E olhando atento a moldura que sublinha essa brancura tão discreta.
É gêlo só.
E a voz da rua que me soa tão calada...
É com certeza que exorciso essas palavras...
E me descobre a porta cinza-escuro, escrava
De tantas idas, e tantas vindas esgotadas
Por um pouco dágua fresca.
Ou por nada.
Soltou-se a sombra, sentou-se na saia, amarrou o cabelo.
Deixou despido o movimento das braçadas.
Os pés desnudos na poeira da calçada.
O ventre rijo, costela e veias.
Não quis, mas vi, e pude escutar
Que minha água mais aguda, morna e ácida te rodeava.
É só mais fácil estar vestido de alegria,
E ter sumido com o equilíbrio que despia.
É pura afronta estar fingindo que esquecia
Do que via, do que sente, do que escuta e até do que disse.
As trepadeiras esticadas na mureta...
Flores amarelas, que não sei o nome.
Os traços fortes e os odôres mais serenos
A suportar o isopor do meu jardim.
Vender estrelas perfumadas e sem cores,
Te dar um abraço mais cansado e mais gentil.
Estenda os braços pro adeus e pro final.
Ao som dessas teias mais seguras que sisau,
Jamais tecidas, já mais vividas...
Passou discreta esta sentença de morte...
Mas passou. Passou raspando, mas passou.
Que a alegria ter um santo canibal, logo aqui a espreita.
Suspeito de todas as maldades que eu quisera assinar a autoria.
É que não posso mais matar e nem morrer pra isso, sabe?
É que não sei matar direito, assim, com respeito, com maturidade...
Mas aprendo um dia essa desmesura de arte viceral,
De morrer a cada tiro disparado contra o espelho.
Quis ir aos poucos se enterrando, sem se ir, se foi, e morrendo a cada tiro, foi.
Sem se esvair em palavras desnecessárias e displicentemente inúteis,
Se foi.
Eu fui com ele e com os outros.
Eu fui com todos o que pude ir.
Fui com os que cortam a garganta da gente e desvirtuam a simetria do processo,
daquela coisa, como é mesmo o nome?
Sim, a estratégia...
Nem sei... as coisas passam, sabe?
Modelos se perdem, e a continuidade se transforma numa coisa muito mais vulgar
E atualizada. Tempos de tecnologia... Tempos de tecnologia...
Nunca mais escrevo um poema pela metade,
Assim, se morre duas vezes...
Se finge duas vezes, entende-se o que se é duas vezes...
Sigamos com o cortejo, porque matar-se é inevitável nessa vida, minha filha...
Nem que seja aquele que eu era, ou aquele que devia.
Rio, 13 de Abril de 2011.
Alexandre de Roure.

Foda!
ResponderExcluirDo c#@£$%&lho!!!
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