quarta-feira, 15 de junho de 2011

BALEIA ENCALHADA




...E assim estou! É isso o que sou agora... Essa jaca deitada na cama, semi-adormecia... Sempre sonolento e desconectado de tudo. Um poste, uma porta, um vício só. Preso aos apelos mais inúteis e as necessidades mais básicas, incompreendidas e desumanas. Desumano como todos os que não querem perceber as minhas necessidades básicas. Sim, aquelas que todos fazem e não se dão conta de que fazem, porque são as mais comuns. Dormir, comer em paz, acordar mais tarde, não parece muita coisa aqui, nessa folha de papel virtual. Mas no dia a dia eu sou mesmo essa jaca, essa baleia encalhada na cama nos horários mais impróprios. Na hora do jogo, ou da novela é que estou dormindo. Sim, na hora das festas é que preciso trabalhar – Ou se não preciso trabalhar, preciso estar dormindo, para no momento em que todos estão se deitando, eu poder estar iniciando a minha jornada. Jornada de um suor imenso.  Veja, são 19:00h e só estou aqui escrevendo isso que sou, digo, isso que estou, porque dormi menos do que necessito. Hoje eu não me lembro porque acordei tão cedo. Não me recordo se foi o cachorro que latiu vendo as crianças voltando da escola, não sei se alguém bateu uma porta, não sei se foi à obra da prefeitura, e nem mesmo sei se foi o violão incessante de Guri, aqui no quarto ao lado. Não sei mesmo se foi o perfume dela na saída do banho, não sei se foi um gesto estabanado da vizinha que deixa muito suas panelas caírem, e nem sei se foi à molecada correndo atrás das pipas fugidas, ou das bolas corridas na ladeira. Nas vezes que acordo assim, após ter dormido somente uma hora e meia, às vezes eu nem sei quem sou, eu não tenho cara no espelho, não tenho voz e nem com quem falar... Estão todos na rua, uns no curso, outros na academia, outros presos no engarrafamento... E aí sou somente eu e os meus devaneios, meus desejos, meu mundo insistentemente irreal, mas é o que há, é mesmo o que sou, ou como estou... E não tem essa de depreciação pra uma baleia encalhada no sofá, gente. Uma baleia encalhada é algo moribundo, fugas... É questão de tempo tê-la ali. Ela vai morrer porque está se debatendo sem parar, gastando suas últimas energias, querendo salvar uma pele já destinada ao fim. É assim mesmo que me sinto. E sinto ainda mais deixar isso escrito, e tão claramente, sem pudor. Uma baleia encalhada nos seus suspiros finais... Às vezes esses suspiros duram horas, dias, e o sofrimento se prolonga amargamente, e ela esperneia, agoniza, geme, grita, pra todo mundo a sua volta. As pessoas passam, olham e não compreendem como um bicho tão bonito e sagaz foi parar ali, pra morrer... É um fim desmerecido e improvável, mas é o que acontece com certas baleias... Belas baleias, cheias de vida...  É assim que me sinto. Encalhado aqui nessa cama, preso a tela desse computador que também tenta desesperadamente me salvar, mas vejo que nem a ele poupo, quando apoio a sua única entrada de ar, no colchão macio. Sufocando-o, prendendo a sua respiração por um tempo que não sei se ele poderá agüentar, mas arrisco mesmo assim, porque eu sou a baleia e preciso respirar essas palavras que até podem ser as últimas, a pesar de eu achar que ainda não são. Tenho aquela profunda intuição de que não concluí o ciclo e que esse meu deus inventado não permitirá que me vá antes de ter alguma vitória só minha, e que os que me amam, desfrutem  do que sou quando estou feliz e realizado. Eles até merecem muito mais que eu, que só me debato, só reclamo e esperneio. Sabe guri, se debater e espernear não é viver, é não morrer por hora. A vida deve ser muito mais que isso. A vida deve ser uma seqüência de realizações e êxitos, precedidos de muita luta e construção...  Não que eu não tenha lutado o suficiente, talvez eu só não tenha lutado pela coisa certa. Talvez eu tenha lutado a batalha de outros... A minha guerra está aqui dentro, incendiada e entre mim e mim mesmo – Uma guerra contra si próprio, tu já experimentaste isso? Não aconselho porque é de uma escalada de mutilações continuamente degradantes e lentas. É um pouco dolorido se assistir ali, se debatendo em frente ao mar... Logo ali, de frente para o maravilhoso e infindo mar – azul, sentindo aquela brisa no rosto, vendo os casais passando de mãos dadas, as crianças correndo atrás da bolinha de frescobol, o velhinho na calçada com o seu cachorro vira lata, amarrado na corrente frouxa.  Meus olhos quase se fecham no suspiro, na respiração difícil e ofegante, na chama apagada da calda exposta ao ar... Ressecada, triste e amargamente livre, desprendida do corpo atolado, fundo na areia movediça. E me debato mais uma vez, hoje, aqui, nesse texto que certamente publicarei, mas não divulgarei, pra que não seja lido, assim como fiz com o último.  Nada de propaganda da minha incapacidade de desatolar daqui. Chega disso ! Não preciso que acompanhem essa minha tristeza em capítulos mórbidos, moribundos... Deixem-me morrer sozinho, e sem a paz que eu sempre dispensei, porque dela nunca tirei absolutamente nada, além de dormir tranquilamente. A vida é mais que isso guri... A vida é mais que isso... E assim eu vou tripudiando de mim, mas sem apoio de ninguém porque eu sinceramente nunca precisei dele  pra nada. É não quero que me joguem pás de terra em cima, ou que me banhem as costas numa tentativa desesperada de aliviar um sofrimento que eu sei que mereço e que é só meu... Deixem-me aqui, sem paz, eu mereço. Se eu me levantar e ganhar a imensidão gelada desse mar azul aí logo em frente, ótimo, mas se não, me deixe...

Rio de Janeiro, 08 de Junho de 2011.
Alexandre de Roure.

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