Lobotomia do lobo velho de guerra... Assisti a muitos vídeos do programa lobotomia, apresentado pelo Lobão, na MTV. E é claro, entrei em looping de novo... Alguns artistas, textos ou espetáculos, têm esse poder de despertar o maldito heterônimo revolucionário que há em mim... Sim, aquele, sobre o qual eu já falei antes... Ele quase chega a ser um personagem, ou talvez tenha mesmo vida própria “nessas personalidades distintas” que me habitam. Entendi ou constatei que todo artista pode ser um pensador. Acho até que todo artista deveria ser um pensador. É bem verdade que a maioria não o é! Acho mesmo, que a maioria nem quer ser... Só quer fazer a sua musiquinha, subir no palco, exibir os seus talentos e voltar pra casa com o ego cheio de si mesmo e uns trocados no bolso... Feliz... Entendam-me, não vejo nada de errado nisso, apenas acho que não pode ser assim com todos. Há que se ter aqueles caras com um espírito de justiça mais aguçado, aqueles que carregam alguma coisa de revolucionário, e eu não estou falando de “pensamento de esquerda” ou de “direita”, não, não estou falando de Revolução Francesa, Revolução Russa, Proletariado e etc. Definitivamente, eu não estou falando da revolução cristã... Isso pode ser perigoso, mas na verdade, eu estou falando exatamente do contrário! Estou falando de um movimento que surge pra negar o movimento anterior, e não que não se possa aproveitar muitas coisas bacanas dos dois, não, menino... Eu acho que o cara sagaz vai tirar proveito de todos os movimentos... Veja bem o movimento Hippie, foi uma revolução cultural fantástica e abriu portas impensáveis para os costumes sociais e para a arte, e é claro, foi negado e substituído pelo movimento punk, seu sucessor cronológico... Eu acho (riso)... E eu, que nasci em 1972, assisti o finalzinho da era Hippie, porque, claro, só pude começar a prestar atenção nessas coisas com uns dez anos de idade, e vi surgir, participei e depois acompanhei a distância, esse movimento punk... Até hoje sou meio punk, (tá ligado?) acho, né... Então, é por aí, uma coisa nega a outra e daí surgem novas tendências artísticas e formatos de canções, textos, dramaturgia, literatura, cinema, dança e etc. Eu posso até dizer que cada movimento desses tem alguns representantes, alguns pensadores que encabeçam a fila, dão cara ao movimento e literalmente, a cara para bater, pra imprensa, sei lá, os caras se destacam porque falam, colocam a boca no trombone e aí, são reconhecidos e “procurados” por todos, também por isso, e não somente pela arte que fazem... (“... O Primeiro prego a se levantar, certamente será também, o primeiro a ser martelado...”) Eu não sei quem disse isso, mas às vezes essa coisa de ser o prego dá muito certo, às vezes não. Vejam o Sr. Caetano Veloso, ele foi um prego que deu certo, sim, foi meio que, a cara do Tropicalismo e é um pensador que virou o símbolo de sua geração, pois se ele juntamente com os Mutantes e Gilberto Gil, inseriram a guitarra elétrica com todos os seus efeitos e performances extraordinárias a Música Popular Brasileira. Sim, Caetano foi vaiado com a música “É Proibido Proibir” praticamente por conta daquela linguagem “Hendrixiana” que usou, e justo num país, que um ano antes havia feito uma passeata contra o uso da guitarra elétrica, a fim de “proteger” a cultura brasileira das influências estrangeiras... Não tenho certeza, mas acho até que o próprio Caetano participou dessa passeata, assim como o Sr. Gilberto Gil, Edu Lobo, Chico Buarque, entre outros tantos grandes compositores de nossa música. Guri, a gente não precisa negar o mundo pra amar o que tem aqui!!! E em algum momento, essas coisas todas certamente se fundem ou irão se fundir de um jeito ou de outro (E eu não estou falando dessa porcaria de globalização que nos empurraram goela abaixo, não ) ... Vimos que quase todos esses artistas, hoje, usam guitarras elétricas, mas não perderam suas origens, suas raízes. O fato é que, foi o Sr. Caetano Veloso, que deu a cara pra bater lá no festival de, se não me engano, 1968. Fez aquele discurso histórico sobre a juventude, que não estava entendendo nada, e não queria admitir o quão sensacional poderia ser uma guitarra soando no Chorinho, por exemplo... Coisa que os Novos Baianos fizeram de se lambuzar, alguns anos depois e todo mundo amou! Mas o Caetano é que deu a cara lá atrás, tá ligado, guri? Sim, o primeiro prego... Que mal há em mudar de opinião? Você só tem uma ótima opinião, até que encontre uma melhor. Não precisa ficar com a mesma, a vida inteira, com essa idéia de manter uma fidelidade ao que pensa, isso é no mínimo, hipócrita e ultrapassado. Uma idéia vagabunda que atravanca o mundo e devia ter morrido no século XIX. Tá bom, depois disso veio à galera dos anos 80, e eu odeio me referir a eles com esse rótulo, porque acho mesmo ridículo, ou até mesmo, cafona, como diria Caetano. Mas, sim, vieram os meninos do “roque nacional”, que na minha opinião, fizeram muito mais que roquenrou! Abriram uma nova janela pra MPB, que, sim, claramente, foi embasada no movimento punk inglês, mas fizeram muito melhor que os caras de lá, porque, na boa, eu sou dessa geração, mas acho o Sexpistols uma grande e sonora cagada, assim como os Ramones. Eles pra mim, eram a gurizada bobinha que fazia um barulho necessário pro momento, como tentaram reproduzir aqui no Brasil, os meninos da banda do Supla. Pô, a estética era nova, mas o som não tava com nada. Estava muito aquém do que faziam os Garotos Podres, Os Replicantes, ou mesmo, o pessoal do Cólera, do Ratos de Porão. O Renato Russo era um cara que transitava entre esses dois lados e algo mais, tinha uma bagagem musical muito mais ampla, e conseguiu uma fórmula bárbara pra falar daquilo tudo que a gente precisava ouvir e refletir naquele momento de término de ditadura e coisa e tal. Tanto que até hoje a turma diz que o Legião foi a maior banda de roque do Brasil. Eu discordo veementemente, a pesar de amar o Legião e o Renato. Aliás, a primeira coisa que a gente tem que mudar, é essa parada de “a melhor banda” o “melhor guitarrista”, o “melhor baixista”... Para como isso, cara, porque você vai perder todo o resto, todos os outros! Tinha lá os Titãs, o Barão Vermelho do Cazuza, o Ira, O Paralamas do Sucesso, e era tudo diferente... Eram todos do mesmo movimento, do mesmo universo, mas eram todos diferentes, cada um imprimia a sua assinatura no que fazia. A estética era totalmente outra e acolhedora em todos os âmbitos. Eis que surge um outro “prego”, o Lobão! O cara meteu a boca no mundo e negou tudo o que a geração dele tinha que negar! Tá bem, ele foi fundo nisso demais, e digo isso, somente pelo preço que ele teve que pagar... Deu pena do cara, mano... Um preço muito alto, que quase lhe custou a continuidade da carreira, e até da sua vida. Foi ele que mostrou que o artista pode plantar as sementes do senso crítico, que o artista pode anarquizar toda uma estrutura, somente pra mostrar que a gente pode entrar em outra, e que outra pode ser legal... A gente tem que parar com essa idéia maluca de que tudo é bonitinho, que tudo tem que ser Bossa nova, e que a beleza do “menino do rio” é a coisa mais importante do mundo pra nós que vivemos aqui. Nós temos, como todos os seres humanos da face da terra, outras sensações, outros instintos, que não somente, a falsa bondade cristã, a falsa modéstia, a falsa imagem bondosa, piedosa e arrependida do Barroco, que ainda permeia as praças, os apartamentos, as esquinas dessa cidade, desse país! Eu sou Humano, e amo e odeio, e sinto raiva e sinto amor! Eu faço mal a pessoas, faço bem a outras, eu discordo de um monte de gente e não posso falar porque elas ficam constrangidas, porque eu estou fugindo do protocolo hipócrita de que não se pode dizer essas coisas... Mas todos, eu disse, todos os seres humanos são o seu verso e o seu avesso, são do bem e são do mau. Agora tá na moda, né, esse negócio de ser do bem... Noutro dia eu escutei uma música no rádio, de um compositor novo, eu adorei a música, mas o cara fala que “somos pessoas do bem”, e eu fiquei pensando que isso era só o reflexo do que está por aí, essa coisa “do bem”, essa mentira deslavada... Somos pessoas do bem e somos do mau, sim senhor! Temos bom e mal humor, temos defeitos como o vizinho, temos vontade de matar assim como o assassino, e hoje em dia, nós acabamos matando mesmo, e sabe por quê? Aposto que você não pensou nisso ainda, mas eu pensei (riso)... Pensei e digo, que essas coisas hediondas, esses crimes horríveis que aparecem toda semana nos telejornais (que eu não assisto mais), existem porque as pessoas não vão mais ao teatro!!! O teatro matava e ridicularizava, o teatro traia, assustava, e no fim nos redimia. Nossos demônios ficavam lá. Nós os deixávamos lá, a gente se sentia vingado através dos personagens... Pois então, essa cultura “do bem”, quase assassinou, aniquilou o teatro de vez, porque as pessoas só querem as coisas puras, belas, leves. As pessoas de agora, acham que teatro é feito só dessas comediazinhas muquiranas que aparecem nas propagandas de TV. Minha gente, o teatro, definitivamente, não é nada disso. Não passa nem perto disso! Se você vir o Antunes filho falando, se você for a uma peça de teatro dele, vai entender o que eu estou falando... Nós não podemos ficar somente com a sensação da alegria, do leve, do confortavelmente belo. O ser humano não é feito somente disso !!! Existem mais um milhão de sensações para serem exploradas, e nem todas elas serão, necessariamente boas de sentir, é claro, mas devem ser reconhecidas no nosso corpo, na nossa vida, na nossa arte! Nós não somos só esse cara bonitinho bronzeado, surfistão, bacanérrimo da novela, e nem tão somente, podemos ser representados pelas belíssimas bundas das mulheres frutas, e não me entendam mal, eu acho mesmo que tu isso é muito bacana, assim como as comediazinhas muquiranas e a música sertaneja universitária... Isso tudo pode e deve existir – Essas coisas devem ocupar os seus espaços e fazerem felizes as pessoas, mas há outras tantas coisas maravilhosas pra se ver e ouvir, pra se ler... Mesmo que essas coisas não sejam alegres e leves. E onde elas estão? Cadê? Aí a gente entra na questão da máfia, do esquema, da quadrilha empresarial que gerencia esse negócio todo. Quando os discos e livros não tem numeração, as próprias gravadoras os pirateiam pra não pagar a parte do artista, ou seja, eles inventaram a porra da pirataria! É como dizer que o Bin Laden é formado nos EUA. Tá entendendo? Eu sou a favor totalmente da pirataria!!!! O Músico quer ser ouvido por todo mundo e não perde porcaria nenhuma com isso!!! Perdem as gravadoras, as editoras e mafiosos “legalizados” – Porque músico nenhum, ou quase nenhum, vive da venda de discos. O músico vive dos seus shows, vive de meter o pé na estrada e sair tocando. É ali que ele ganha o seu trocado. Tá, aí, quem não entra no esquema das gravadoras e não se posiciona contra a pirataria, perde o contrato, o emprego, e é excluído do esquema. É boicotado pelas rádios, pelos programas de auditório que fazem a divulgação dos seus trabalhos, o cara é mal falado nos jornais, e literalmente, fica na merda! O prego dessa vez, foi o Lobão. E ele conheceu profundamente esse boicote, que vai muito além do que estou falando aqui, e por inúmeros motivos que não dá pra dizer, porque se não, isso vira um livro e pode até parecer plágio do dele (riso) E na boa, eu não quero briga com esse cara, ele foi mascote do comando vermelho... (risos, muitos risos, agora). Bacana, agora, sem sacanagem, não acaba aí, vocês conhecem os Detonautas, que fazem parte de uma das mais recentes gerações da música brasileira, né? Pois então, o vocalista, o Tico Santa Cruz, será, na minha opinião, se já não é, o próximo prego, a bola da vez. Meu amigo, o esquema trabalha na surdina, veladamente, se você se posicionar, se denunciar, se tiver opinião, tá ferrado. Isso é DITADURA, PORRA ! Eu acho que os Detonautas, meio que já estão dentro desse labirinto, e não se enganem não, ele tem saída e é claramente a arma mais poderosa do mundo, a Internet. O Lobão se virou colocando discos pra vender nas bancas de jornais, O Dicró montou uma barraquinha de camelô e lá vende os seus CD’s, os Detonautas, através do Tico, creio eu, estão totalmente conectados ao seu público através da internet, dos blogs, das redes sociais e não baixaram a bola pro “esquemão”, não! É isso, eu fiquei assistindo essa turma no Lobotomia e o looping que me deu foi esse, a gente precisa entender que há muito mais no ser humano, além da beleza, da bondade e da alegria; A gente precisa assumir que existe arte além da comédia e das canções românticas; A gente pode, e saberá conviver com o lado “negro da força”, porque ele faz parte da gente desde que o mundo é mundo, e que o ser humano está sobre a face “virtuosa” da terra. Escrevi isso tudo e estou com a sensação de ter esquecido alguma coisa... Vocês me perdoem pelo tamanho do texto, mas todo assunto é infinito até que se chegue a uma conclusão, e obviamente, até que alguém plante uma nova semente e nos faça pensar em outras saídas, e possamos criar uma nova opinião, e assim se escreve outro texto, se faz uma nova canção, a gente se reinventa, muda os hábitos, a história, o planeta.
Rio de Janeiro, 13 de Junho de 2011.
Alexandre de Roure.
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