domingo, 3 de abril de 2011

Paciência Dodô, paciência...





PACIÊNCIA, PACIÊNCIA...

Então eu estava com fome, muita fome. Era uma e quarenta da manhã e eu
estava no trabalho... Passei a mão no telefone e liguel pro Sr. Miguel dos
lanches. É, ele entrega lanches até as duas da manhã. Cheguei a pensar em
quantas entregas ele fazia nesse horário, porque, quem é que lancha num
horário desses? Bem, quando a entrega do meu “X_tudo” demorou uma hora e
meia, eu vi que era muita gente faminta pra uma madrugada só... Até pensei
que estava demorando por conta da chuva que caia torrencialmente, mas não,
há muita gente faminta as duas da manhã no centro da cidade. Pelo menos,
foi o que o Sr. Miguel me disse. Fazer o quê? Paciência, paciência... O
lanche chegou e eu já havia até esquecido que estivera com fome antes, pois
já tinha arranjado outra coisa pra me preocupar, mas mesmo assim eu
lanchei. Gordo, você sabe como é, né? Se tem comida, ele come e pronto. Ah,
e come logo, que é pra ficar livre do flagrante. Pronto, comi. Escovei os
dentes, me olhando naquele espelho grande do banheiro do trabalho e voltei
a pensar... É, as vezes eu penso até antes de pensar, pra ver se vale a
pena pensar naquilo, mas o fato é que eu acabo pensando em tudo que não
vale a pena mesmo, e então pensei de novo, que tinha mais de uma semana que
eu não fazia a barba... Ela está grande, feia e branca. Pensei de novo, e
vi que não tenho tido tempo pra isso. Não pra pensar, mas pra fazer a
barba. A criatura tem máquina de barbear elétrica, mas não abre mão de
quinze minutinhos do seu sono. Só pensa em dormir, ou melhor, só pensa e
dorme. Isso, quando o que ele está pensando não é de tirar o sono... fazer
o quê? Paciência, paciência... O cabelo também tá grande e sem corte, mas
dessa vez eu vou deixar crescer, não vou ceder aos pedidos da patroa pra
cortar... Não vou não, vou deixar crescer, pois pode ser a última vez que
tenho cabelos pra deixar crescer... Para falar a verdade, tô com medo que
nem cresçam mais... Mas paciência, fazer o quê? Deixa estar, que olhando no
espelho vi minha velhice de frente, meus dentes amarelados e remendados por
massas odontológicas mal colocadas... Aquela dentista de uma figa, levou
três meses e não concluiu o tratamento dos quatro canais de um único
dente... Ô incompetência... Garota nova, parece que não gosta de trabalho,
mas não sei não, eu acho mesmo que ela é do tipo de gente que acha que o
mundo gira em torno dela, sabe? É, sim. Marcava a consulta, começava a
atender meia hora depois, aí eu entrava, sentava naquela cadeira, abria a
boca pra começar a coisa, e ela me falava de sua vida, de seu casamento, de
suas férias, de sua casa nova, de seus eletrodomésticos e só depois me
aplicava a primeira dose de anestesia, que nunca era suficiente, e depois
me aplicava mais uma dose e outra e eu ainda esperava mais uns quarenta
minutos pra fazer efeito. Nunca vi isso! A consulta demorava mais de duas
horas... E nem assim ela terminou a porcaria do tratamento. Claro que eu é
que não deixei, né? Por isso que eu repondi um questionário na primeira
consulta, cujo a primeira pergunta era se eu costuma terminar os
tratamentos que começava. Eu não podia continuar com aquilo, ela não queria
pacientes, queria ouvintes. Eu sei, eu sei dessa coisa de que a vida é a
busca eterna de um ouvinte e coisa e tal, mas bicho, eu queria ficar bom,
voltar pra minha casa e dormir. Essa minha “simpatia” só me destrói, cara.
Eu tinha que ser com os outros, o rabuja que sou comigo mesmo, aí eles iam
ver. Ninguém ia tirar farinha comigo não meu querido. Ah, esqueci de
mencionar e registrar, que eu sentia dores de dente tenebrosas nesses três
meses de tratamento, ou talvez eu deva dizer, de não tratamento dentário. A
Dra. mandava eu tomar um analgésico caso a dor ficasse insuportável, mas eu
tomava esse troço quase como quem fuma, e toma cafezinho o dia inteiro,
pois é guri, o troço não passava nunca, aí eu apelei para o meu bom senso
de não médico e tomei por conta e risco próprios, uma semana de
anti-inflamatórios. Sabe o que houve? Não? Pois eu não senti mais dores de
dente neguinho!!! O meu tratamento de não médico funcionava melhor doque o
não tratamento de médico que ela propunha... Mas em suma, na última
consulta cheguei ao consultório e na porta havia um bilhete colado:
“Horário de almoço de 12:00h as 14:30h”. Esperei a Dra, até as 15:00h e é
claro, ela não apareceu. Minha tolerância foi de trinta minutos (chega
você, atrasado um minuto pra prova do vestibular, pra você ver o que é
bom!) Isso, como se eu fosse ficar ali o dia inteiro (sem dormir, porque eu
trabalhei a noite toda e ainda não tinha nem dormido) mendigando o
atendimento dela, como se eu fosse um súdito dela, uma dependente, ou até
mesmo um velho amigo, quem sabe. Parti pra minha casinha e assim que
entrei, o telefone tocou. Eu sabia que era ela, mas não atendi o telefone e
quando a ligação caiu na secretária eletrônia, reconheci imediatamente a
sua voz. Era ela, pedindo que eu retornasse a ligação urgentemente.
Hahahahá urgentemente, eu ri e disse para o aparelho que piscava o número
um em vermelho: Não ligo não Dra. O telefone voltou a tocar e a mesma voz
repetiu a mensagem. Vi o número dois assumindo o visor da secretária
eletrônica e em seguida apaguei as duas mensagens. Alguns dias depois a
secretária dela me ligou para perguntar se eu iria remarcar a consulta que
eu havia perdido, mas eu respondi calmamente que não queria remarcar
nenhuma consulta, porque eu não havia perdido nenhuma. Eu tinha perdido era
a vergonha na cara de ter ficado três meses esperando que a Dra. Fulaninha
concluisse o que começou. E aliás, perdeu ela um cliente e algumas
indicações que eu poderia lhe render, se tivesse sido mais educada e
profissional. Perder cliente é um luxo que não se pode dar hoje em dia,
guri, porque a maré tá braba e a concorrência é absurda, mas ela que se
preocupasse com isso, né, eu só tinha que me preocupar com o meu dente.
Moral da estória, estou com duas panelas abertas na boca que poderão dar
sinal de vida ou de morte a qualquer momento, só não sei se de morte
dolorida ou de vida longa e inútil. Eu queria rir disso, mas juro que não
tenho paciência. Isso tudo passou na minha cabeça tomada de cabelos
brancos, somente naqueles instantes em que eu escovava os dentes. Pra você
ver como é que eu penso o que devia e o que não devia, mas como se não
bastasse, isso daí já era um flashback, pois eu já tinha pensado nisso e
contado essa estória dezenas de vezes, mas esse sou eu, fazer o quê?
Paciência, paciência... Depois dizem que eu sou impetuoso e impaciente.
Impaciente eu? Ora, ora meu filho, eu sou uma das pessoas mais pacientes
que existe sobre os terrenos deste planeta de Deus, e digo mais: Eu sou
pacientíssemo! Pra me tirar do sério, tem que ser especialista no assunto,
ou tem que tentar muitas vezes, garoto. Mas indico para os candidatos a
esta tarefa, que o efeito repetição é mais eficaz... Me deixa louco em
alguns minutos. É, mas isso quando eu era jovem... Ih, sabe que não, rapaz!
Quando eu era jovem tinha mais paciência. Será que eu sou diferente do
resto do mundo? Pois sim, todo mundo que conheço fica mais paciente a
medida que envelhece, mas eu não, vou ficando mais impaciente com a
velhice. Bem, que seja, mas talvez o mundo tenha mudado demais nessas
minhas quatro décadas de vida. Tanto, tanto, que acho que assisti a quase
todas as invenções importantes dos séculos XX e XXI. Sim, eu vi o
nascimento do Som três em um, do vídeo cassete, da TV de Tela plana, do CD,
do DVD, do PC, do Note Book, que primeiro a gente chamava de lep top, vi o
nascimento dos celulares, dos palm tops, do forno microondas, das
cafeteiras elétricas, do Windows, do office, puxa vida, eu vi os Lps de
vinil morrerem e ressuscitarem das cinzas como a fênix. Vi de um tudo
nascer cara, vi até octagêmeos por inseminação artificial, mas vi também a
morte fulminate da educação, do bom senso, do bom dia, do boa noite, do “A
benção vó”. Vi o falecimento do obrigado, eu mesmo fui ao sepultamento da
generosidade, da compreensão e acabo de assassinar a última das virtudes, a
paciência!!! Isso, morta e enterrada!!! Ora, tenha a santa paciência, ela
não poderia sobreviver sem as outras... Ah, agora estão querendo acabar com
o amor, né? Estão tentando provar que os relacionamentos são experimentos
de prazer, onde você vai testando quem é melhor de cama, de papo, de grana,
de carro e etc. O que fizer mais pontos ganha, e se casa com a menina
musculosa da esquina da rua 1. É uma menina que bem mais parece um menino,
com umas veias grossas no pescoço, um trapésio alto e uma voz que lembra a
da Maria, a celebridade do momento. Elas são assim, e os meninos são mais
femininos, vestem-se bem, aparam os cabelos e os penteiam com gel pra ficar
despenteado o dia inteiro, mas é um despenteado bacana, uma coisa de
escultura mesmo. É, os caras depilam axilas, bigode, barba, virilia, e Deus
dabe mais o quê... Tem que ter muita paciência pra ser homem hoje em dia,
eu até diria que não sou homem se fosse obrigado a fazer todas essas
coisas, mas ainda bem que não é obrigatório ainda. Bem, não vejo isso como
um problema, eu acho mesmo que há uma tendência dos sexos trocarem de lado
e não vejo isso como um problema não, mas é muito pra minha paciência
acompanhar...
Também não assisto mais aos telejornais, e não é pelo melhor motivo,
que seria alienar-me de vez, e sim, pela repetição massiva das notícias.
Pois é, com tanta tecnologia, satélites e transmissões online, os caras
repetem a mesma notícia uma semana inteirinha. Você nunca reparou? Então
preste a tenção cara, eles repetem a mesma notícia a semana inteira, no
jornal matinal, no jornal do meio do dia, no jornal da noite e no jornal da
madrugada. Eu sempre aprendi todas as coisas na primeira vez que tentaram
me ensinar, nunca precisei que professor nenhum repetisse nada que eu de
fato quisesse aprender. Só o de português, esse falava, falava e falava, e
pra mim, parecia que era outra língua, outro idioma... Não aprendi esse
troço até hoje, não tive paciência com aquele monte de regras... Mas eu sou
metido a besta então eu escrevo em português mesmo sem saber português, por
quê não? Então, não posso mais assistir a telejornas... É assim que eu sou,
fazer o quê? Paciência, paciência... Ah, as rádios, você houve rádio? Não?
Não está perdendo nada, porque é uma repetição sem fim. Já cheguei a contar
quantas vezes a mesma música toca no mesmo horário a semana toda e depois o
mês todo. De madrugada é o mesma programação todos os dias, quase que o ano
inteiro, e pra não ser injusto, preciso aceitar que as vezes eles mudam a
ordem das músicas. Pô cara, tocou uma do Djavan, e eu adoro Djavan, então
eu devia ficar feliz, mas fico muito aborrecido, porque toca sempre a mesma
música, todo santo dia.e o camarada gravou mais de 15 discos!!! A música
“TIME” do Pink Floyd que eu adorava na minha distante adolescência, que não
tocava nunca nas rádios, a não ser na Maldita 94,9Mhz FM uma vez ou outra,
agora toca todas as noites por volta de uma hora da manhã. É tudo uma
repetição sem fim, e eu que sou o impaciente! Ah meu filho, a única
explicação que eu tenho é que eu não sou mesmo daqui desse mundo, caí de
para-quedas (ih não se usa mais – né? Fazer o quê? Paciência, paciência...)
e agora sou uma velha placa de contra-mão, pichada e furada de bala de
fuzil. Ponto ! Eu vivo tentando me corrigir e mudar a minha conduta o tempo
todo. Juro que tento me adaptar, me submeter as novidades indecorosas do
século XXI, mas eu não tenho paciência pra tanto mal gosto e falta de
educação... E quer saber, eu acho mesmo que vou mandar esse texto pro
Felipe Neto fazer um vídeo e postar lá no You tube, porque aí o pessoal vai
saber do que eu estou falando, porque se depender dos acessos que o meu
blog tem, eu tô quase falando sozinho, guri. E quer saber? Antes só do que
mal acompanhado, “tá ligado coroa?”

Rio, 03 de Abril de 2011.

Alexandre de Roure.



Um comentário:

  1. Nao so leio como sigo!!! E mesmo n te conhecendo, parece q ouço vc jorrando essas palavras aqui...do meu lado, ou melhor em frente a mim....pois é assim q o vejo..na tela do meu Notebook...um abraço!!!

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