sábado, 10 de novembro de 2012



99 ANOS DE LUZ


Dia nove de novembro, ontem, Sr. Gilto completara noventa e nove anos. Bem, ele não está mais aqui entre os seus, mas em mim sempre esteve, está e estará. Por isso, comemoro os seus noventa e nove anos de vida. Sim, porque dentro de mim, permanece vivo e pra sempre assim será. Digo isso sem medo de estar sofrendo de uma doença psíquica. Está vivo aqui dentro, porque no meu entendimento, a vida vai muito além do corpo físico. Este homem, o Gilto, é o homem que me ensinou a sonhar, falar, a contar histórias e tantas outras coisas... Ele é o homem que acendia a Lua. Puseram-me na sua vida, e nos seus braços fortes de super herói, e eu simplesmente, com meus ouvidos aguçados, aproveitei cada vírgula de suas histórias, apreciei todas as suas palavras e pausas, todos os seus silêncios... Sonhei cada sonho que ele me propôs... Vivi o seu ludismo, dia após dia em todo lugar que estive com ele, ou fazendo algo que me ensinara. E como não podia deixar de ser, o plantei aqui na minha casa, nos meus filhos... Eles não conheceram o Gilto, mas sabem quem foi ele. Sabem de suas histórias, de suas manias, de sua generosidade. Gilto está aqui entre nós e sempre estará. Assim, presente, como um artista imortalizado por sua obra. Uma obra tão simples e expressiva, que você não percebe a genialidade... A grandeza desse homem esteve sempre muito próxima de nós. Sua simplicidade, bondosa... Não tinha fingimento e essas coisas de “politicamente correto”, não... Não tinha nada desse mundo forçado de agora, rapaz, era verdadeiro, sincero e puro... De uma grandeza heroica. É assim que o vejo. Como o meu Super Herói. Maior que Batman ou que Super Man. O Homem de Aço, assim o chamávamos. Não tinha medo de nada... Nem de chuva, nem de sol, nem de raio ou de trovão... Gilto, simplesmente se integrava a natureza, assim como fazem os animais... Ele era parte dela. Sim, a parte pensante e amorosa dela. Quanto amor tinha aquele homem? Não saberia dizer ou quantificar uma coisa dessas, mas me parece que jorrava ali, uma cascata de fonte inesgotável... Emanava amor, respirava amor... Eu aceitei todo o amor que quis me dar, e por isso digo: Foi imenso o amor que recebi. Desde meus primeiros dias, talvez das minhas primeiras horas de vida. A placa no portão, pintada: “Bem vindo, Alexandre”. Ele nem precisava ter feito aquilo, eu não sabia ler ainda uma letra... (Risos), mas ele fez, e me contou depois... Depois a primeira palavra que eu disse: “Luz”, o Gilto me ensinou, ali, no interruptor da cozinha. Acendendo e apagando incansavelmente, apertando aquele botão. Meu primeiro apelido, também entre as primeiras palavras: “Dodô”, e isso, porque eu não conseguia dizer vovô. Eu dizia Dodô e ele respondia que eu podia ser o Dodô se quisesse, mas que ele, era o vovô. É, o vovô Gilto. Era muito sabido aquele velho. Sabido de muitas coisas... E como todo bom homem, ingênuo em tantas outras... Eis a fonte da pureza... A fé! Gilto tinha fé nas pessoas, acreditava na política, era religioso, acreditava no pastor da Nova Jerusalém, que levava o seu dízimo sem pena... Lia e colecionava todos aqueles cadernos sobre Swedemborg, sobre casamento e a família, segundo a doutrina de Swedemborg, sobre as relações humanas, e Jesus Cristo pra ele, era mesmo o senhor. Embora não falasse muito em Jesus. Ele falava Deus, o criador. Eu achava muito bonito ele falando aquelas coisas que acreditava, mas não por que ele aprendera aquelas palavras, aquelas histórias e sim porque era ele quem estava as contando. Eu admirava como ele aplicava no dia a dia, sua experiência religiosa... Era sem dúvida, um discípulo de Jesus. Disseminava o amor diariamente. Mas hoje está muito claro pra mim, que se ele nunca tivesse ido a igreja, teria feito exatamente tudo o que fez, e do jeito que fez... Lembro do pastor Wendel que vinha da América do Norte pra lhe dar palestras e discutir os ensinamentos de Jesus... Nesses dias, vô Gilto abria a porta da frente do casarão. Ele acreditava que as pessoas se sentiam mais importantes se recebidas na porta da frente de sua casa. Bem, pelo menos as pessoas que ele considerava ilustres... Pra ele, a porta dos fundos era a melhor da casa e também, a que mantinha aberta sempre. É, não sabia quem era mais ilustre ali. Era ele, claro. Bem, era ali que sentava-se a noite, pra respirar ar fresco e amenizar sua falta de fôlego... Ah, aquela bendita enfisema... Sentava-se ali, na porta dos fundos, de frente pro quintal escuro, e contava os vagalumes picando miolo de pão duro para dar de comer as rolinhas, pardais e cambaxirras, pela manhã. Depois me dizia quantos vagalumes viu naquela noite. No dia seguinte me dizia se tinha mais ou menos. Se tivesse menos, dizia que alguns não apareceram porque tiveram um compromisso qualquer... Vez ou outra,  lembrava que os sapos precisavam comer, mas não dizia que os vagalumes poderiam ter sido seu jantar, dizia que sapos cantavam naquela orquestra que ele inventara pra me animar nas noites de férias tediosas em Muriqui. Sapos martelos eram como trompas, ou violões Cello. Alguma coisa assim, de sons graves. Eram os baixos da orquestra... As vezes, os sons dos grilos se misturavam com os dos sapos, mas vovô dizia que eles não podiam tocar na mesma orquestra, porque sapos gostam muito mais de comer grilos, do que de cantar com eles... Essas coisas assim... Era formidável o Sr. Gilto, sabe guri? Bem, talvez você não tenha ideia do que ele representa pra mim... Talvez não consiga nunca entender o brilho dessa imagem que permeia os meus sonhos e minhas lembranças. Ontem eu sonhei com ele, mas não me lembro bem do sonho. Lembro que eu chorava muito de saudade. Na verdade, eu chorava copiosamente a sua falta. Vovô aparecia somente em fleches de imagens rápidas, mas estava jovem e forte. Tinha até bastante cabelo. Bem, cabelo que eu não conheci na sua cabeça. Pra mim, sempre fora um avô careca... Mas no sonho tinha muito. Tinha o que ele chamava de cabelo comprido. Liso, escorrido, castanho claro. De calça de pijama, sem camisa, de chinelo de couro, como sempre... “Ah, que saudades tenho da aurora de minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais...” ele recitava de braços abertos, como um ator clássico, no meio do quintal, quando queria nos plantar um pouco de poesia... Gostava muito dos poetas românticos... Tão ingênuo era vovô, que não sabia que sua poesia estava na orquestra de sapos, nos passeios dos vagalumes que não apareceram naquela noite, na imitação soprada, digo, mal assobiada do canto do bem te vi, por sua boca banguela, no barco de rodas que construiu pra nos puxar pelo quintal, no balanço de pneu e em tantas outras coisas. Vovô nunca conseguiu se adaptar a dentadura. Guardava-a no armário, dentro de uma caixa de madeira... Eu gostava dele mesmo assim, careca, sem dente e reclamando que o arroz papa da vovó estava duro... Nunca estava cozido o suficiente, mesmo que já estivesse se tornando um mingau. Ah, as mesas de almoço nos fins de semana. Ele sentado a cabeceira. Os brindes a família imperfeita que ele tanto amava, a garrafa de caipirinha escondida no quintal, no meio dos cascos vazios de cerveja, nos invernos mais frios,  suas árvores, a empreitada de capinar o quintal, digo, arrancar os ramos de capim com as mãos, um por um, para que demorassem mais a crescer, estendê-los ao sol para secarem e queimá-los depois em suas intermináveis fogueiras... E de como se arrependia de ter feito isso, nos dias de temporal que a terra do pomar descia pro quintal cimentado, porque as raízes do capim não estavam lá pra segurá-la. A casa do bicho papão, que depois, muito mais tarde, eu descobri que era seu barraco de guardar ferramentas... Muitas ferramentas... Acho que tinha todo o tipo de ferramentas ali... Ele me ensinou a usar cada uma delas... Desde o formão até o pincel... Quando não queria sujeira de tinta, me deixava desenhar em todas as pareces da casa, com água. Isso, molhava o pincel na água e fazia desenhos nas paredes... Eles evaporavam e eu fazia outros... Era como se o papel e o lápis nunca se esgotassem... Desenhos enormes de dragões e serpentes ferozes... Depois contratou tio Antônio para construir uma piscina para os netos, que ele chamava desdenhosamente de tanque. Era uma maravilha de tanque! Tão maravilhoso que o chamávamos de piscina. Devia ter um metro de profundidade e uns três de comprimento, por dois de largura, mas eu nunca tive a curiosidade de medi-la. Pra mim era do tamanho certo e quando estava vazia, acampávamos dentro dela por todo o fim de semana. Tinha degraus de vergalhão pintados de zarcão que usávamos pra nos segurar em baixo d’água nas disputas de apinéia e onde o meu primo mais novo, o William, se segurava pra não se afogar. Aquele guri era doido, ele gostava mesmo era de se afogar... Lembro do danado ficando roxo de frio, se segurando naqueles degraus... Tremia, tremia e tremia de frio, mas estava sempre rindo. Na verdade, gargalhando...  Afundava-se tentando nos imitar, e bebia um bocado daquela água suja. Quando já estava mesmo se afogando, levantava, apoiando as mãosinhas nos degraus da escada tossindo e cuspia um bocado de água. Quando voltava a respirar, ria. Ria muito... Garoto maluco... William era dono de um coqueiro naquele quintal. O coqueiro que fazia sombra na piscina e no famoso pé de manacá de minha avó, na parte da tarde. Nós três, os outros netos, cada um tinha um pé de cajá que vovô plantou em nossa homenagem. Os natais eram fantásticos e começavam na véspera, pela manhã... Vô Gilto contava muitas histórias de natal... Sobre tudo, as que ele inventava, ali na varanda descascando castanhas e quebrando cascas de avelãs pra nós. A meia noite era uma festa linda, uma mesa enorme, muito farta, e presentes que não acabavam mais. Bem, não me lembro se havia árvore de natal na casa do vovô, mas lembro que essa festa foi extinta naquela casa, quando meu tio Geraldo morreu. Por mais que pudéssemos encher a mesa de amigos e familiares, seu lugar estaria vazio, então não tinha mais sentido para vovô. Nesse dia vi meu avô chorando pela primeira vez. Ele estava muito triste, e soluçando de chorar, abraçado a minha avó, no sofá da sala. Era de tarde. Ele dizia: “Gilda, o nosso filhinho, Gilda!” Foi um dia muito ruim. Eu tinha onze anos e estava muito assustado com aquilo tudo. Não sabia o que dizer,  e nem o que sentir, mas sabia que não gostava de ver o meu avô daquele jeito. Fui pra rua depois do almoço, mas não lembro de ter almoçado naquele dia. Lembro que era sábado e que voltei pra casa de minha mãe. Fui pra rua e sentei-me numa rodinha de amigos. O Tiquinho, amigo mais velho, disse: “Vá pra casa moleque, teu tio morreu!” Eu fiquei ali, bem ali onde estava. Fiquei calado. Não sabia o que sentir, nem o que dizer ainda. Na verdade, não sei até hoje descrever aquela sensação, só sei que não foi nada boa. Vovô, vovó e tia Sheila nunca se recuperaram da perda de meu tio. William era  só um pivete de 3 ou 4 anos e superou bravamente... Ele é um ótimo garoto de 30 anos. É bom pra sua mãe e pra todo mundo, mas acho que suas pretendentes não pensam assim. Ele agora é meu professor de surf... Vê se pode? Claro que pode... Por que não poderia?
Vovô nos levava a igreja para a missa de natal, e todas as crianças iam pra sala de projeção assistir slides de desenhos sobre a história do menino Jesus. Eu adorava aquilo... Sobre tudo, os camelos dos Reis... Após a projeção dos slides fomos brincar no pátio da igreja. A gente se escondia das meninas entre as grandes palmeiras... E nessa vez, que foi a ultima, eu encontrei uma réplica de revolver calibre 38, no meio das folhas de uma palmeira. Parecia mesmo de verdade. Tia Sheila muito sagaz, guardou-o na sua bolsa, dizendo-se ser a delegada ou coisa assim. Foi a última vez que fui a igreja. Bem, talvez ela estivesse ficando perigosa. E a última coisa que me vem a cabeça sobre essa igreja e a religiosidade de vovô, é do seu enterro. Sim, quando eu e meu tio Gilberto depositamos o caixão na urna, na parede, aliás, contrariando a vontade do velho, de ser enterrado no chão, o pastor da igreja e seu auxiliar, disseram um breve discurso sobre quem ele era e o que tinha feito por aquela comunidade. A Única palavra que gostei de ter ouvido foi: Íntegro. Disseram e repetiram que ele fora o homem mais íntegro que conheceram. É, esta palavra fazia sentido pra mim, mas todo o resto do discurso me parecera quase odioso. Eu os fitei de cara feia, quase que o tempo todo, não cria na bondade daqueles homens. Sobre tudo, confirmei minha antipatia por eles, quando não cumpriram a  promessa de acolher e confortar a minha avó após a morte do velho. Nunca mais apareceram na casa 157 da rua João Barbalho, aqueles sacanas... Estava claro pra mim: Com vovô morto, não haveria mais contribuições para a igreja. Acabara o dinheiro que eles tanto precisavam para suas obras de caridade e reformas intermináveis. Mas digo-lhes, mesmo se houvesse dinheiro, vovó não o daria aquela gente. Vovó não era tão ingênua...
Agora tenho quarenta anos e vô Gilto, o maior Super Herói de minha infância perdura forte e vivo aqui dentro em todos os lugares de minha lembrança e de meu amor. Seus exemplos, suas palavras doces e sábias, sua vida de sacrifício e dedicação ao bem estar da família, seu companheirismo e devoção a esposa e a casa, o carinho com os animais, as plantas e os desvalidos. Sua valiosa contribuição para a minha história e a de meus filhos vai ficar na minha memória e nas páginas deste livro, para que não se perca, para que não se confunda, para que se perpetue  e se estenda a todos os que apreciam o conto e o contador. Gilto tornou-se imortal pra mim, porque ouvi atentamente, tudo o que dizia. Eu sabia dos seus desejos, de suas tristezas, de suas limitações e sua coragem. Aqueles olhos quase cegos por trás das lentes grossas de um óculos quase inútil, sabiam muito sobre a vida, sobre a convivência e principalmente sobre o amor. Gilto disse a que veio, plantou as sementes, regou-as e colheu cada fruto com as mãos, um por um. Sabia quais eram os doces e quais os amargos. Dosou seus sabores, distribuiu-os diariamente... O mais azedo que tinha a oferecer a alguém, era um delicioso refresco de tamarindo que somente ele sabia fazer... Ofereceu-nos generosamente, tudo o que tinha para oferecer. Quem quis, banhou-se em sua sabedoria e afeto... Não negou a ninguém, nem uma coisa e nem outra... E se preciso encerrar este texto, pra mim, tão interminável quanto a sua vida, e sua obra, eu prefiro dizer que a palavra que mais, e melhor o descrevia, além de “Íntegro”, é “Generosidade”. Esta sim, o define, o explica e o eterniza. Salve Gilto, para todo e sempre, como um generoso e íntegro contador de histórias... Talvez, o maior deles... Se não o maior, o mais importante pra mim.


Rio de Janeiro, 10 de novembro de 2012.     

Alexandre de Roure. 

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