99 ANOS DE LUZ
Dia nove de novembro, ontem, Sr.
Gilto completara noventa e nove anos. Bem, ele não está mais aqui entre os
seus, mas em mim sempre esteve, está e estará. Por isso, comemoro os seus
noventa e nove anos de vida. Sim, porque dentro de mim, permanece vivo e pra
sempre assim será. Digo isso sem medo de estar sofrendo de uma doença psíquica.
Está vivo aqui dentro, porque no meu entendimento, a vida vai muito além do
corpo físico. Este homem, o Gilto, é o homem que me ensinou a sonhar, falar, a
contar histórias e tantas outras coisas... Ele é o homem que acendia a Lua.
Puseram-me na sua vida, e nos seus braços fortes de super herói, e eu
simplesmente, com meus ouvidos aguçados, aproveitei cada vírgula de suas
histórias, apreciei todas as suas palavras e pausas, todos os seus silêncios...
Sonhei cada sonho que ele me propôs... Vivi o seu ludismo, dia após dia em todo
lugar que estive com ele, ou fazendo algo que me ensinara. E como não podia
deixar de ser, o plantei aqui na minha casa, nos meus filhos... Eles não
conheceram o Gilto, mas sabem quem foi ele. Sabem de suas histórias, de suas
manias, de sua generosidade. Gilto está aqui entre nós e sempre estará. Assim,
presente, como um artista imortalizado por sua obra. Uma obra tão simples e
expressiva, que você não percebe a genialidade... A grandeza desse homem esteve
sempre muito próxima de nós. Sua simplicidade, bondosa... Não tinha fingimento e
essas coisas de “politicamente correto”, não... Não tinha nada desse mundo
forçado de agora, rapaz, era verdadeiro, sincero e puro... De uma grandeza heroica.
É assim que o vejo. Como o meu Super Herói. Maior que Batman ou que Super Man. O
Homem de Aço, assim o chamávamos. Não tinha medo de nada... Nem de chuva, nem
de sol, nem de raio ou de trovão... Gilto, simplesmente se integrava a
natureza, assim como fazem os animais... Ele era parte dela. Sim, a parte
pensante e amorosa dela. Quanto amor tinha aquele homem? Não saberia dizer ou
quantificar uma coisa dessas, mas me parece que jorrava ali, uma cascata de
fonte inesgotável... Emanava amor, respirava amor... Eu aceitei todo o amor que
quis me dar, e por isso digo: Foi imenso o amor que recebi. Desde meus
primeiros dias, talvez das minhas primeiras horas de vida. A placa no portão,
pintada: “Bem vindo, Alexandre”. Ele nem precisava ter feito aquilo, eu não
sabia ler ainda uma letra... (Risos), mas ele fez, e me contou depois... Depois
a primeira palavra que eu disse: “Luz”, o Gilto me ensinou, ali, no interruptor
da cozinha. Acendendo e apagando incansavelmente, apertando aquele botão. Meu
primeiro apelido, também entre as primeiras palavras: “Dodô”, e isso, porque eu
não conseguia dizer vovô. Eu dizia Dodô e ele respondia que eu podia ser o Dodô
se quisesse, mas que ele, era o vovô. É, o vovô Gilto. Era muito sabido aquele
velho. Sabido de muitas coisas... E como todo bom homem, ingênuo em tantas
outras... Eis a fonte da pureza... A fé! Gilto tinha fé nas pessoas, acreditava
na política, era religioso, acreditava no pastor da Nova Jerusalém, que levava
o seu dízimo sem pena... Lia e colecionava todos aqueles cadernos sobre
Swedemborg, sobre casamento e a família, segundo a doutrina de Swedemborg,
sobre as relações humanas, e Jesus Cristo pra ele, era mesmo o senhor. Embora
não falasse muito em Jesus. Ele falava Deus, o criador. Eu achava muito bonito
ele falando aquelas coisas que acreditava, mas não por que ele aprendera
aquelas palavras, aquelas histórias e sim porque era ele quem estava as contando.
Eu admirava como ele aplicava no dia a dia, sua experiência religiosa... Era
sem dúvida, um discípulo de Jesus. Disseminava o amor diariamente. Mas hoje
está muito claro pra mim, que se ele nunca tivesse ido a igreja, teria feito
exatamente tudo o que fez, e do jeito que fez... Lembro do pastor Wendel que
vinha da América do Norte pra lhe dar palestras e discutir os ensinamentos de
Jesus... Nesses dias, vô Gilto abria a porta da frente do casarão. Ele acreditava
que as pessoas se sentiam mais importantes se recebidas na porta da frente de
sua casa. Bem, pelo menos as pessoas que ele considerava ilustres... Pra ele, a
porta dos fundos era a melhor da casa e também, a que mantinha aberta sempre.
É, não sabia quem era mais ilustre ali. Era ele, claro. Bem, era ali que
sentava-se a noite, pra respirar ar fresco e amenizar sua falta de fôlego... Ah,
aquela bendita enfisema... Sentava-se ali, na porta dos fundos, de frente pro
quintal escuro, e contava os vagalumes picando miolo de pão duro para dar de
comer as rolinhas, pardais e cambaxirras, pela manhã. Depois me dizia quantos
vagalumes viu naquela noite. No dia seguinte me dizia se tinha mais ou menos.
Se tivesse menos, dizia que alguns não apareceram porque tiveram um compromisso
qualquer... Vez ou outra, lembrava que
os sapos precisavam comer, mas não dizia que os vagalumes poderiam ter sido seu
jantar, dizia que sapos cantavam naquela orquestra que ele inventara pra me
animar nas noites de férias tediosas em Muriqui. Sapos martelos eram como
trompas, ou violões Cello. Alguma coisa assim, de sons graves. Eram os baixos
da orquestra... As vezes, os sons dos grilos se misturavam com os dos sapos,
mas vovô dizia que eles não podiam tocar na mesma orquestra, porque sapos
gostam muito mais de comer grilos, do que de cantar com eles... Essas coisas assim...
Era formidável o Sr. Gilto, sabe guri? Bem, talvez você não tenha ideia do que
ele representa pra mim... Talvez não consiga nunca entender o brilho dessa
imagem que permeia os meus sonhos e minhas lembranças. Ontem eu sonhei com ele,
mas não me lembro bem do sonho. Lembro que eu chorava muito de saudade. Na
verdade, eu chorava copiosamente a sua falta. Vovô aparecia somente em fleches
de imagens rápidas, mas estava jovem e forte. Tinha até bastante cabelo. Bem,
cabelo que eu não conheci na sua cabeça. Pra mim, sempre fora um avô careca...
Mas no sonho tinha muito. Tinha o que ele chamava de cabelo comprido. Liso,
escorrido, castanho claro. De calça de pijama, sem camisa, de chinelo de couro,
como sempre... “Ah, que saudades tenho da aurora de minha vida, da minha
infância querida, que os anos não trazem mais...” ele recitava de braços
abertos, como um ator clássico, no meio do quintal, quando queria nos plantar
um pouco de poesia... Gostava muito dos poetas românticos... Tão ingênuo era
vovô, que não sabia que sua poesia estava na orquestra de sapos, nos passeios
dos vagalumes que não apareceram naquela noite, na imitação soprada, digo, mal assobiada
do canto do bem te vi, por sua boca banguela, no barco de rodas que construiu
pra nos puxar pelo quintal, no balanço de pneu e em tantas outras coisas. Vovô
nunca conseguiu se adaptar a dentadura. Guardava-a no armário, dentro de uma caixa
de madeira... Eu gostava dele mesmo assim, careca, sem dente e reclamando que o
arroz papa da vovó estava duro... Nunca estava cozido o suficiente, mesmo que
já estivesse se tornando um mingau. Ah, as mesas de almoço nos fins de semana. Ele
sentado a cabeceira. Os brindes a família imperfeita que ele tanto amava, a
garrafa de caipirinha escondida no quintal, no meio dos cascos vazios de
cerveja, nos invernos mais frios, suas
árvores, a empreitada de capinar o quintal, digo, arrancar os ramos de capim com
as mãos, um por um, para que demorassem mais a crescer, estendê-los ao sol para
secarem e queimá-los depois em suas intermináveis fogueiras... E de como se
arrependia de ter feito isso, nos dias de temporal que a terra do pomar descia
pro quintal cimentado, porque as raízes do capim não estavam lá pra segurá-la.
A casa do bicho papão, que depois, muito mais tarde, eu descobri que era seu
barraco de guardar ferramentas... Muitas ferramentas... Acho que tinha todo o
tipo de ferramentas ali... Ele me ensinou a usar cada uma delas... Desde o
formão até o pincel... Quando não queria sujeira de tinta, me deixava desenhar
em todas as pareces da casa, com água. Isso, molhava o pincel na água e fazia
desenhos nas paredes... Eles evaporavam e eu fazia outros... Era como se o
papel e o lápis nunca se esgotassem... Desenhos enormes de dragões e serpentes
ferozes... Depois contratou tio Antônio para construir uma piscina para os
netos, que ele chamava desdenhosamente de tanque. Era uma maravilha de tanque!
Tão maravilhoso que o chamávamos de piscina. Devia ter um metro de profundidade
e uns três de comprimento, por dois de largura, mas eu nunca tive a curiosidade
de medi-la. Pra mim era do tamanho certo e quando estava vazia, acampávamos
dentro dela por todo o fim de semana. Tinha degraus de vergalhão pintados de
zarcão que usávamos pra nos segurar em baixo d’água nas disputas de apinéia e
onde o meu primo mais novo, o William, se segurava pra não se afogar. Aquele
guri era doido, ele gostava mesmo era de se afogar... Lembro do danado ficando roxo
de frio, se segurando naqueles degraus... Tremia, tremia e tremia de frio, mas
estava sempre rindo. Na verdade, gargalhando... Afundava-se tentando nos imitar, e bebia um
bocado daquela água suja. Quando já estava mesmo se afogando, levantava,
apoiando as mãosinhas nos degraus da escada tossindo e cuspia um bocado de
água. Quando voltava a respirar, ria. Ria muito... Garoto maluco... William era
dono de um coqueiro naquele quintal. O coqueiro que fazia sombra na piscina e
no famoso pé de manacá de minha avó, na parte da tarde. Nós três, os outros
netos, cada um tinha um pé de cajá que vovô plantou em nossa homenagem. Os
natais eram fantásticos e começavam na véspera, pela manhã... Vô Gilto contava
muitas histórias de natal... Sobre tudo, as que ele inventava, ali na varanda
descascando castanhas e quebrando cascas de avelãs pra nós. A meia noite era
uma festa linda, uma mesa enorme, muito farta, e presentes que não acabavam mais.
Bem, não me lembro se havia árvore de natal na casa do vovô, mas lembro que
essa festa foi extinta naquela casa, quando meu tio Geraldo morreu. Por mais
que pudéssemos encher a mesa de amigos e familiares, seu lugar estaria vazio,
então não tinha mais sentido para vovô. Nesse dia vi meu avô chorando pela
primeira vez. Ele estava muito triste, e soluçando de chorar, abraçado a minha
avó, no sofá da sala. Era de tarde. Ele dizia: “Gilda, o nosso filhinho, Gilda!”
Foi um dia muito ruim. Eu tinha onze anos e estava muito assustado com aquilo
tudo. Não sabia o que dizer, e nem o que
sentir, mas sabia que não gostava de ver o meu avô daquele jeito. Fui pra rua
depois do almoço, mas não lembro de ter almoçado naquele dia. Lembro que era
sábado e que voltei pra casa de minha mãe. Fui pra rua e sentei-me numa rodinha
de amigos. O Tiquinho, amigo mais velho, disse: “Vá pra casa moleque, teu tio
morreu!” Eu fiquei ali, bem ali onde estava. Fiquei calado. Não sabia o que
sentir, nem o que dizer ainda. Na verdade, não sei até hoje descrever aquela
sensação, só sei que não foi nada boa. Vovô, vovó e tia Sheila nunca se
recuperaram da perda de meu tio. William era
só um pivete de 3 ou 4 anos e superou bravamente... Ele é um ótimo
garoto de 30 anos. É bom pra sua mãe e pra todo mundo, mas acho que suas
pretendentes não pensam assim. Ele agora é meu professor de surf... Vê se pode?
Claro que pode... Por que não poderia?
Vovô nos levava a igreja para a
missa de natal, e todas as crianças iam pra sala de projeção assistir slides de
desenhos sobre a história do menino Jesus. Eu adorava aquilo... Sobre tudo, os
camelos dos Reis... Após a projeção dos slides fomos brincar no pátio da
igreja. A gente se escondia das meninas entre as grandes palmeiras... E nessa
vez, que foi a ultima, eu encontrei uma réplica de revolver calibre 38, no meio
das folhas de uma palmeira. Parecia mesmo de verdade. Tia Sheila muito sagaz,
guardou-o na sua bolsa, dizendo-se ser a delegada ou coisa assim. Foi a última
vez que fui a igreja. Bem, talvez ela estivesse ficando perigosa. E a última
coisa que me vem a cabeça sobre essa igreja e a religiosidade de vovô, é do seu
enterro. Sim, quando eu e meu tio Gilberto depositamos o caixão na urna, na
parede, aliás, contrariando a vontade do velho, de ser enterrado no chão, o
pastor da igreja e seu auxiliar, disseram um breve discurso sobre quem ele era
e o que tinha feito por aquela comunidade. A Única palavra que gostei de ter
ouvido foi: Íntegro. Disseram e repetiram que ele fora o homem mais íntegro que
conheceram. É, esta palavra fazia sentido pra mim, mas todo o resto do discurso
me parecera quase odioso. Eu os fitei de cara feia, quase que o tempo todo, não
cria na bondade daqueles homens. Sobre tudo, confirmei minha antipatia por eles,
quando não cumpriram a promessa de
acolher e confortar a minha avó após a morte do velho. Nunca mais apareceram na
casa 157 da rua João Barbalho, aqueles sacanas... Estava claro pra mim: Com
vovô morto, não haveria mais contribuições para a igreja. Acabara o dinheiro que
eles tanto precisavam para suas obras de caridade e reformas intermináveis. Mas
digo-lhes, mesmo se houvesse dinheiro, vovó não o daria aquela gente. Vovó não
era tão ingênua...
Agora tenho quarenta anos e vô
Gilto, o maior Super Herói de minha infância perdura forte e vivo aqui dentro
em todos os lugares de minha lembrança e de meu amor. Seus exemplos, suas
palavras doces e sábias, sua vida de sacrifício e dedicação ao bem estar da
família, seu companheirismo e devoção a esposa e a casa, o carinho com os
animais, as plantas e os desvalidos. Sua valiosa contribuição para a minha
história e a de meus filhos vai ficar na minha memória e nas páginas deste
livro, para que não se perca, para que não se confunda, para que se perpetue e se estenda a todos os que apreciam o conto e
o contador. Gilto tornou-se imortal pra mim, porque ouvi atentamente, tudo o
que dizia. Eu sabia dos seus desejos, de suas tristezas, de suas limitações e
sua coragem. Aqueles olhos quase cegos por trás das lentes grossas de um óculos
quase inútil, sabiam muito sobre a vida, sobre a convivência e principalmente
sobre o amor. Gilto disse a que veio, plantou as sementes, regou-as e colheu
cada fruto com as mãos, um por um. Sabia quais eram os doces e quais os amargos.
Dosou seus sabores, distribuiu-os diariamente... O mais azedo que tinha a
oferecer a alguém, era um delicioso refresco de tamarindo que somente ele sabia
fazer... Ofereceu-nos generosamente, tudo o que tinha para oferecer. Quem quis,
banhou-se em sua sabedoria e afeto... Não negou a ninguém, nem uma coisa e nem
outra... E se preciso encerrar este texto, pra mim, tão interminável quanto a
sua vida, e sua obra, eu prefiro dizer que a palavra que mais, e melhor o
descrevia, além de “Íntegro”, é “Generosidade”. Esta sim, o define, o explica e
o eterniza. Salve Gilto, para todo e sempre, como um generoso e íntegro
contador de histórias... Talvez, o maior deles... Se não o maior, o mais
importante pra mim.
Rio de Janeiro, 10 de novembro de
2012.
Alexandre de Roure.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentários