terça-feira, 30 de outubro de 2012


NOVOS SAPOS


Eu estava com tantas coisas pra dizer, tantas ideias pra escrever... Sabe esses dias que você vai dormir contrariado? Então, ontem foi assim. Fui dormir com várias varias ideias na cabeça. Eu não queria dormir. Nem mesmo estava com sono... Eram 05:15h quando me deitei. O quarto todo escuro, a porta fechada... Pensei o que estava fazendo ali, deitado, olhando pro teto, pra silueta de tudo em volta, na penumbra... A cortina entreaberta, deixava entrar a primeira claridade do dia. Não tinha sol ainda, mas já estava claro. É assim que me sinto: Dia claro, mas sem sol, céu azul e o mundo todo se movimentando em volta. A cidade começando sua rotina de trânsito sonolento, lento e chato. Todo mundo com aquela cara de segunda feira. É, aquela cara de infeliz. Eu não estava infeliz e não sou um infeliz, digo, assim, como parece. Só não sou daqui. Nem melhor e nem pior. Apenas diferente, sabe? Talvez eu devesse dizer, inadequado, mas não sei se é justo. Inadaptável, talvez. Não tenho vontade nenhuma de me adaptar, de ser como os outros. Penso no meu pai, que se retirou de cena e foi viver sozinho, numa cidade pequena, a beira mar. Ele não gosta mais da cidade e nem do mar, que era a sua maior alegria, quando pescava, nadava ou simplesmente sentava ali na beira para apreciá-lo. Talvez eu termine como ele. Bem, isso é muito promissor. Ou talvez seja apenas a premissa da covardia ou de alguma dessas doenças contemporâneas, como depressão ou fobia social. No dia a dia não lidou com muita gente, mas mesmo aquelas poucas com quem converso, são muito diferentes de mim. Ou melhor, eu vejo o mundo de um ângulo bastante diferente delas. Isso é um pé no saco, pra elas e pra mim. É uma bosta ficar 24 horas por dia contestando as pessoas, ficar argumentando, mostrando, inserindo notas e autores e esse monte de merda que a gente faz pra que o mundo perceba que algo além do seu umbigo, existe, e que de algum modo faz bem ao ego. Uma verdadeira bosta sabe? É, fica parecendo que eu sei mais, que eu quis saber mais e que sou o dono de uma verdade, da qual ninguém nunca ouviu falar... Se for pensar bem, é assim pra todo mundo, porque todos tem suas verdades ímpares ou talvez, apenas repitam o que ouviram no noticiário, na novela, na escola. É mais fácil, né? Bem, o fácil muito me atrai, mas apenas quando não fere o meu ego. É muito interessante quando não me faz parecer um idiota alienado, que na verdade eu sou. Sim, eu sou, embora nem pareça para os outros... É, eles me acham inteligente e sensível... E babaca, talvez... Alguns me acham só um infeliz. Mas a maioria me respeita. Bem, eu exijo respeito e me dou de todo a ele. Eu sei respeitar as pessoas, sei ouvi-las, sabe? Eu gosto de ouvi-las... Mas é fato que abusam do meu interesse nas suas histórias... Noutro dia me chamaram de hipócrita e eu pensei, pensei, pensei e cheguei a conclusão de que talvez eu seja um verdadeiro hipócrita. Do tipo que escuta as histórias dos outros pra ser caridoso... E na verdade, isso muito me envergonha... Mas não é sempre assim. Na maioria das vezes eu ouço com gosto. Ouço com prazer e entendo a necessidade de um ouvinte na vida das pessoas. É, eu sou o penico favorito de muita gente. Na maioria dos casos, eu sou, talvez, o único penico delas. Eu aguento a dor, sabe? Mas não a tenho aguentado com dignidade. Eu falo, comento, dou opinião e as vezes até a coloco pra fora por meio de pequenos textos, frases soltas e etc. Uma vergonha, eu acredito. Se você quer ser o penico, que fique mudo como um penico! Eu nunca quis ser um penico, assim como não quis ser nada que sou na vida. Tudo foi acontecendo e eu fui abraçando e me tornando “o tal” no que me aparecia. A única coisa que escolhi ser nessa vida, não aconteceu, e duvido muito que possa se consolidar um dia. Eu queria ser um compositor profissional, mandar músicas paras as cantoras e através de suas lindas vozes, emocionar o mundo, cuidar do coração dos ouvintes, dos sofridos e de todos aqueles que fazem de uma canção, um penico, onde se encontram, digo, se sentem o autor e dizem aquelas palavras para o mundo inteiro ouvir. Eu não sou um compositor profissional. Ninguém jamais gravou uma canção de minha autoria, e nem tentou comprar uma delas. Pois bem, eu vivo servindo de consolo ou de penico, mas de outra maneira. Uma vez me disseram que as pessoas abusavam de mim porque eu permitia. Disseram que a culpa era minha. Tenho vários apelidos sabe? “Jeremias o bom”, “O bonzinho”, “O otário”, “O Bundão”, “O banana”, “O ingênuo”, “O puro” entre outros, mas não sou absolutamente nada disso. Sou ruim como todas as pessoas e sei me vingar, acreditem. Não gosto desse meu lado estúpido e grosseiro e digo sempre que quando faço coisas ruins com alguém, é uma vez só! Eu fico dez ou vinte anos engolindo sapo de alguém e um dia decido que não quero mais. Então eu desço o barraco e coloco um fim naquilo, seja ignorando totalmente a existência da pessoa, me afastando dela de todas as maneiras, ou eu mando ela ir se danar de uma maneira que eu sei que ela não vai querer me ver de novo, e pensar que vai me dar um gelo, mas na verdade, eu a induzi aquilo. Quando decido brigar, tenho prazer de ser o pior possível, e eu sei que isso é uma coisa muito humana, sabe? A gente cresce ouvindo dos cristãos, que o mundo é bom, que o ser humano é bom e a natureza desmistifica isso claramente todos dias. A gente é bom e ruim, assim como todas as coisas. É aquela parada mesmo, de saber equilibrar tudo e viver em harmonia... É muito piegas isso, e parece até irreal, mas tem gente que consegue. Eu não! Sou natural. Sou o que sou e deixo muito claro o tempo todo quem sou eu. Tá tudo ali nos meus olhos, nos meus gestos, nos meus passos... Procuro ser educado e não ferir as pessoas com as minhas opiniões, mas elas parecem tão frágeis e incapazes de ouvir qualquer coisa diferente do que imaginaram ser possível... Eu não, eu aguento. Como já disse, sem muita dignidade, mas aguento. Ou talvez eu tenha aguentado durante uns trinta e poucos anos e não esteja mais disposto a isso, hoje. Chego a pensar que a famosa “crise dos quarenta” me tomou de todo, mas no fundo eu sei que isso é um processo lento, e que venho pensando nisso a muito e muito tempo, e daí, eu talvez tenha sido hipócrita em um momento ou outro. É uma adaptação, um adequação. Quero dizer que se fui hipócrita em algum momento, foi pura transição. Fui todo sim, e agora sou quase todo não. Digo, quase todo, porque ainda estou resolvendo isso, a transição não terminou. Termina quando eu ficar igual ao meu pai. Eu não sei se vou conseguir, nem sei se quero isso. Talvez volte mesmo atrás, mas é inadequado voltar a ser um útil penico, porque não sou mais mudo, nem puro, ou estéril, como devem ser os penicos. Então, voltar atrás talvez fosse totalmente hipócrita. Sabe como é, né? É assim, o sujeito escolhe fazer quase sempre a coisa certa e nem se importa que é o caminho mais difícil. Ele sabe que é o caminho mais difícil, porque é inocente, mas não é burro... Ele escolhe isso e pronto! Daí em diante ele só toma porrada da vida o tempo todo... ele só se decepciona o tempo todo, com tudo. Com o trabalho, com as pessoas que ama, com amigos, com tudo. Bem, é natural que ele um dia se canse e queira repensar suas relações todas. É no ponto em que estou. Não tem essa de vítima. Ele escolheu, digo, eu escolhi esse caminho. Pra mim, é o certo! E isso tem um preço muito alto, que não estou mais a fim de pagar, sacou? Pode parecer arrogância, mas não é. Você fica insistindo numa coisa que está te fazendo cada vez mais infeliz e aí um dia você cansa. Isso me parece muito natural. Você não quer mais pensar no bem estar dos outros antes do seu. Você não quer mais deixar que as pessoas te constranjam, que elas te usem como penico, que o mundo dite certas normas impossíveis de seguir, sem se aborrecer. Você quer na verdade, dividir com as pessoas o quanto elas te aborrecem. Então você quer se vingar? Não! Eu não quero uma vingança dessas gloriosas... Não quero mais perder tempo com o que não vale a pena. Só isso. Não quero mais dar atenção pra quem não me dá atenção, não quero nada com quem não quer nada comigo e desisti das pessoas que apenas queriam algo de mim. Voltamos para aquilo que parece arrogância... Dizem em muitas culturas e religiões, que é dando que se recebe. Então, é isso, o “arrogante” aqui, acha que se deu demais a tudo e a todos, mas no limiar da “crise dos quarenta anos” descobre que não ganhou nada de ninguém. OK, beleza, mas na verdade, foi ele que nunca fez questão de nada, não exigiu nada e nunca pediu nada a ninguém... Ok, beleza, mas ele não fez isso porque achou que o mundo era belo, e que as pessoas eram bacanas e tinham um bom senso suficientemente aguçado para perceberem o quão necessário é dar a mão aqueles que sempre lhes foram úteis. Hehehehe, doce e romântica ilusão, ingênua... Bobinho eu, não? Não. Eu não sou bobinho, de uns trinta e poucos anos pra cá, aprendi a saber quando estou sendo usado, enganado, e até roubado. Não é bom isso, sabe? O mundo da gente desaba. E daí essa queda brusca, vira decepção, depressão, fobia social e seja lá o que for, que nome tenha, isso está acabando comigo... E eu me sinto tão vivo, tenho tantos projetos, tantos sonhos ainda... Tá claro e sempre esteve, pra mim, que não se pode ganhar todas. Bem, na verdade, eu fui educado pra perder todas e achar que o mundo ainda está me fazendo o favor de me querer vivo. Há quem ache que viver é um martírio, um sofrimento e há até os que desejam que pessoas como eu, vivam muito, para que sofram muito e aprendam. Tô nessa, que esses votos virem realidade. “Meu sonho é ser imortal, meu amor...” Bem, imortal eu já sou, né... Se eu fosse hoje pra “putaquemepariu” deixava muitas canções prontas, quatro livros quase prontos, poemas, exemplos, sorrisos inesquecíveis e defeitos complexos pra não serem seguidos... (Risos) deixo até mais, mas não creio que alguém se interesse pelo que deixo. O futuro é daqueles que só se interessam por si. Esses é que se tornam grandes homens, realizados, ricos e cobiçados pelas mulheres e pela humanidade. Exceto alguns pobres mártires inocentes que serviram como “bodes espiatórios”, e isso é uma outra historia. Não posso ser comparado com essa gente que realmente fez, de um jeito ou de outro, alguma diferença nesse mundo de Deus... eu sou só mais um. Podia escrever horas e horas sem parar, sobre esse tema, mas tenho que dormir. Logo mais, tenho que trabalhar. Não antes de deixar registrado o meu desinteresse por falar. O Silêncio tem me deixado muito a vontade. O ego é que me obriga a escrever e a registrar e também, é claro, publicar. Não é bacana e nem nada, mas eu quero. Não tenho vontade de escrever ou comentar no facebook, eu a cada dia o acho menos interessante. As mesmas pessoas estão ali, fazendo e falando as mesmas coisas que um dia eu gostei de ler e comentei, cada um com verdade, sem tentar ser o que não sou... Até leio de vez em quando, mas é tão desmotivador... Tão desnecessário. Fico aqui comigo. Com meu silêncio. Com minha gana. Com minha vingança, se preferirem. Mas não se preocupem, só não dá mais pra engolir os mesmos sapos. O copo tá cheio, sabe? Ah, tive uma ideia!!! Tragam novos sapos!!!

Rio de Janeiro, 30 de outubro de 2012.
Alexandre de Roure.

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