Sim, de quinze em quinze dias faço plantões de 12 horas no meu trabalho. Pedreira, sabe? Pois é... É sempre das seis da tarde de sábado as seis da manhã de domingo, depois volto as seis da tarde de domingo e saio as seis da manhã de segunda... Isso, uma delícia!!! Eu amo !!! Minha família também. Todos adoram, principalmente o bom humor que começa a nascer em mim na sexta feira já de manhã.
Como eu ficaria sem comer durante plantões intermináveis de 12 horas, e de madrugada? Não ficaria, é claro! A pesar de ter colegas que passam essas mesmas 12 horas a seco, nem água... É rapaz, uma miséria... Miséria não, “pãodurismo” mesmo. Mas isso é assunto para outro post. O de hoje, trata apenas do horário de jantar, ou de ceiar, como quiserem. Como todos sabem, em qualquer trabalho, mesmo no meu, as pessoas tem intervalos para almoço, lanche, jantar ou ceia. As vezes até para o cafezinho e pro cigarro. No meu caso, ceia. Sim, ceia. O fato é que eu ando preferindo a marmita com a comidinha especial da minha senhora, mas isso, de segunda a sexta, porque nos fins de semana em que estou de plantão, costumo pedir pelo telefone as quentinhas bem servidas do Galeto Bandeira, ou as super marmitas P.F. do Miguel. A tamanho 9 é fabulosa! Feijão que dá para três comerem, arroz branco delicioso, iscas de fígado, farofa, batatas fritas, duas rodelas de tomate e duas de cebola, por R$ 10,00. Isso sem falar na simpatia da D. Rosa, aquela santa senhora que me atende até depois do horário de expediente dela, as vezes as 02:00 horas da manhã, e é sempre muito agradável, diga-se de passagem. É bom comer esse tempero caseiro lá do Miguel, mas é bom pra tanta gente trabalha nesse horário, que as vezes quando ligo, normalmente por volta das 22:00h horas, as quentinhas já acabaram. Nesse caso, só me sobra a opção de ligar lá pro Galeto Bandeira, onde o atendimento é padronizado, e os preços também... Tem site na internet, menu, musiquinha no telefone para quem aguarda, motoboy uniformizado e “oscambal”, mas não tem o precinho e o temperinho lá da Dona Rosa. Porém, tem a principal qualidade na hora da fome miserável da madrugada: A Comida lá, não acaba!!! Bem, como eles só fazem entregas até as 23:30h, sou obrigado a fazer o meu pedido entre 22:30h e 23:15h. E assim se dá. Hoje vou fazer mais cedo porque acordei em cima da hora e não tive tempo de almoçar.
Bacana, pedido feito, vou preparando a mesa do meu chefe pra fazer a ceia. (Tomara que ele nunca leia isso, porque é proibido comer na sala onde trabalhamos). Arrumo os talheres, pego uma lata de Coca-cola na máquina, arrumo uns guardanapos, coloco o teclado encima da CPU e o mouse encima do teclado. Pronto, mesa posta. Bem, preciso explicar que desobedeço a regra de não comer na sala onde trabalhamos, porque não tenho mais uma dupla fixa de trabalho, como todo mundo. O colega que fazia dupla comigo foi transferido pra outra empresa (somos prestadores de serviço) e agora, a cada fim de semana do meu plantão, tenho um parceiro diferente e quando eles aparecem para trabalhar, eu os mando ir embora, por pena de já terem trabalhado no fim de semana anterior e porque vão trabalhar no próximo. Enfim, eu não posso abandonar (acho que enfim não devia ser escrito assim, tudo junto, “enfim”, não é bonito, deveria ser assim: “em fim”, ó que beleza, viu? Pô, fazer o quê? Segue...) o posto de trabalho por uma hora, como todos, ou quase todos os trabalhadores do mundo. Então, como aqui, escondido. Talvez não tão escondido assim. Sabe “gato escondido com o rabo de fora?” Então, é mais ou menos isso... Em quarenta ou cinquenta minutos a comida chega, mas a saudade da trema chegou antes (risos)... logo assim que escrevi o primeiro “cinquenta”, ai na linha de cima. Pô, eu adorava a trema, ou o trema, não sei como se diz, mas isso é passado, fazer o quê? Segue... Recapitulando: As 22:45h pedi a comida, e já tinha mandado o meu parceiro pra casa, por que a final de contas o serviço estava sob controle e eu podia dar conta. As 23:30h o pessoal da portaria me avisa que o motoboy está lá com o rango. Tiro os telefones do gancho, aviso ao pessoal da Produção que vou sair por uns instantes, coloco o celular corporativo no bolso e desço pra buscar o meu objeto de alívio, digamos assim. Brinco com o pessoal da portaria, pego a comida, pago, dou uma gorjeta pontual de dois reais ao entregador e subo correndo. Beleza, é agora, vou deitar e rolar, matar quem está me matando. Sento-me, retiro as quentinhas da embalagem, aprecio aquele cheirinho maravilhoso no abrir das tampas e ataco! Dou uma, duas, três garfadas e pronto, o telefone toca uma, duas, três, quatro cinco vezes. Dou algumas porradas na mesa entre os telefonemas, que sempre vem acompanhados de pedidos de soluções para problemas, e ou até reclamações banais. Noutro dia me ligou um colega que estava em Campinas, dentro do “Data Center” (Putz, como eu odeio esse nome), bem o colega estava dentro do nosso principal centro de processamento de dados, fazendo uma grande manutenção no “link” de internettelefônicas. Legal, né? Sim, falamos com o técnico, com o chefe do técnico, com o chefe do chefe do técnico, com o meu chefe, com o chefe do meu colega, com o chefe do chefe do meu colega, e eu ali, de frene para um belo prato de arroz de forno, purê de batata, franco grelhado e salada mista... Isso, bem ali na minha frente, esfriando nos 19 graus incompreensíveis da minha sala. A embalagem da quentinha espalhada pelo chão, fios de telefone por cima do bife de frango, celular corporativo tocando, outros ramais insistindo em me enlouquecer e eu tentando ter os oito tentáculos de um polvo pra fazer tudo ao mesmo tempo, inclusive as minhas rotinas de trabalho normais. Traduzindo: Naquele dia tinha trabalho para cinco pessoas. Eu cumpri o meu papel, fiz o trabalho dos cinco e ainda salvei o meu amigo da enchente de Campinas e a sua manutenção programada. Ufa, que noite!!! Bem, só não comi os R$ 32,00 que gastei com a refeição, que nunca será reembolsada... Ela ali, me olhando, gelada e colorida, sobre a mesa proibida do chefe. Meu estômago roncando, minha cabeça doendo, com muita fome, a comida ali, e sem poder comer... Que dor meus amigos, que dor... Sete horas num telefone. Ninguém merece isso, nem se for num desses disque sexo, ninguém merece cara, ninguém... Terrível... Bem, missão cumprida e barriga vazia, fazer o quê? Desse dia em diante comecei a prestar atenção nos horários dos telefonemas, e vi claramente que o telefone só começa a tocar na hora que decido comer. Em quase todos os meus plantões acontece a mesma coisa. Eu posso comer as onze da noite ou as duas da manhã, não importa, porque é nessa hora que o maldito telefone irá tocar. E toca, neguinho, toca a valer! (Opa, tenho que terminar isso em 10 minutos porque tenho uma carga de atualização pra fazer as cinco horas.) Bem, como era de se esperar, hoje não foi diferente. Vocês conhecem aquelas figuras que te ligam pra te perguntar o que já sabem? Conhecem? Pois então... Por volta das 22:00h passei um chamado pra um colega lá de São Paulo e fiquei esperando ele ligar. Ele é um cara agradável, trabalhador, e muito inteligente, mas tem preguiça de pensar, sabe? Sabe essas pessoas que saem de casa pra trabalhar mas esperam o tempo todo que alguém lhes diga: Fulano, agora faça isso. Sim Fulano, você deve fazer assim. Fulano, você já fez aquilo? Pois então, assim é o meu colega lá de São Paulo. Fiquei esperando que ele me ligasse em seguida a eu ter lhe enviado o chamado, mas ele não ligou. Então pensei que ele tivesse aprendido, ou o mais óbvio, que ele estivesse ocupado com outra coisa e ainda não tivesse visto o chamado. Dito e feito! Adivinhem que horas ele ligou? Não advinham? Pois sim, logo depois da terceira ou quarta garfada. Foi mais ou menos assim:
_Oi Alexandre. Tudo bem?
_Oi Colega. Tudo. (Vou chamá-lo de colega pra evitar processos, ok?)
_Não tem ninguém aí trabalhando não? Te mandei uma mensagem pelo sametime*...
Ora pois, se atendi o telefone, como não teria ninguém aqui trabalhando?
( *Sametime é uma ferramenta de trabalho que funciona mais ou menos como o MSN).
_Estamos ocupados, Colega.
_Quem está aí com você?
Pensei no porquê de ele querer saber isto, mas não encontrei uma resposta decente, então segui, mastigando ainda alguma coisa e tentando não perder o controle.
_O Fulano está aqui comigo hoje. (Mentira mandei o cara ficar em casa, ele nem veio)
_Tô te ligando a um tempão, Alexandre... (Como está ligando a um tempão se eu não demorei nem dez minutos na portaria?)
_Fui na portaria, Colega.
_Mas não tem o fulano aí pra atender o telefone?
_Colega, você não reparou que o outro ramal estava ocupado?
_É estava ocupado a um tempão.
_Pois é, o fulano estava atendendo outra pessoa no outro ramal. (Mentira eu tirei o telefone do gancho pra forjar essa situação)
... E a comida esfriando...
_Então Alexandre, eu recebi um chamado aqui na minha fila, você que me mandou?
(Só eu mando chamados para a fila dele e ele está cansado de saber disso)
_Sim, fui eu que transferi pra sua fila, como sempre. É um problema referente a um “backup”.
_Mas então, Alexandre, você sabe quem é o plantonista desta área aqui do backup hoje?
(Isso não faz a menor diferença, porque há um telefone de plantão e quem atender o telefone é o plantonista, inevitavelmente é o cara que irá solucionar o problema)
_Colega, não sei quem é o plantonista dessa área essa semana não. Inclusive liguei pra esse telefone ontem e não me atenderam. Como o procedimento manda, liguei pra chefe do cara.
(este procedimento é fundamental no nosso trabalho e todos conhecem a pelo menos uns 15 anos)
_Mas não tem ninguém aí na Companhia que seja dessa área?
_Colega, você precisa ligar para o telefone de plantão.
...E a minha tão desejada comidinha esfriando... Você já comeu isca de fígado e batatas fritas frios? Pois então...
_Ah tá, valeu aê Alexandre, acho que vou ligar para o plantão.
_Sim colega, ligue para o plantão.
_Então tá bom, obrigado.
_Por nada colega.
_Vou ligar para o plantão. Tchau!
_Tchau, colega!
Puta que o pariu !!! Esse filho da puta me ligou pra quê??? Ah, mas é claro que foi só para cumprir o ritual de esfriar a minha comida, né? Tem outra explicação?.. Claro que não tem! Ele ligou só para fazer valer a máxima de que o telefone tem que tocar na hora que o babaca do de Roure senta-se para ceiar. Aliás, ceiar é uma palavra que eu não gosto mesmo.
Olha, você não vai acreditar, mas esse indivíduo faz esse tipo de coisa todo dia... Eu fico louco pra mandar ele pra tudo quanto é lugar, mas ainda não tive a coragem, ou a cara de pau que ele tem quando me faz essas perguntas... Mas não estranhem se um dia a minha paciência acabar, pois é o óbvio ululante... O dia dele vai chegar... Ora se vai...
Dez minutos depois, a mesma figura, o Colega, me liga de novo:
_Oi Alexandre, sou eu de novo.
_Oi, Colega (Disse eu desanimado e soltando fogo pelas ventas)
_Pô, te chamei no sametime e você não respondeu de novo?
_Colega, estou ocupado.
_Mas o Fulano não está aí com você, poderia ter atendido.
_Colega, você esta tomando conta de nós? (Perguntei-lhe, querendo mudar o tom de voz e acabar com a bisbilhotice e a incompetência do cara de uma só vez).
_Não, Alexandre, eu só pensei que...
Interrompi:
_Colega, o que você quer? Eu estou muito ocupado...
Ele mudou o tom de voz, constrangido e eu pensei: Que se foda!!! Foda-se ele!!!
_Não é nada demais, só liguei pra avisar que estou saindo pra jantar. Se você perceber algo de errado, aí nas suas telas de monitoração, aqui pra minha localidade, liga pro meu celular.
_OK colega, Pode deixar.
Desliguei o telefone e xinguei o cara novamente: Puta que o Pariu, filho da Puta !!! Isso, seu viado, vai jantar, vai... Encheu a porra do meu saco, esfriou a minha comida e agora vai jantar no restaurante, sem nem precisar pensar no serviço, porque eu estou aqui com o garfo na boca, mas tomando conta do serviço dele e ele lá, jantando em paz... Eu podia ter ligado pro celular do infeliz só de sacanagem, só pra espezinhar, mas sou tão babaca que só pensei nisso agora, as 05:20h da manhã... Eu sou um otário mesmo... Um otário que está com as cargas de atualização atrasadas.
Rio de Janeiro, 27 de Novembro de 2011.
Alexandre de Roure.

Boa.....
ResponderExcluirFiquei com dó de vc comer comida fria... logo vc, que sabe apreciar o valor de uma boa comidinha! E, de preferência, quente... rsrs
ResponderExcluirBjo!