Terminei... Não havia percebido que estava no fim. Há muitas páginas de bibliografia aqui... Fechei o livro rascante de capa branca, desci a escada e olhei pra bagunça da estante, pensando onde ia guardar o “Cascos & Carícias” da D. Hilda. Não tem mais onde colocar nada aqui, está entopida de livros, CD’s, DVD’s e bugigangas, essa minha estante toda cacarecada... Tem uns porta-retratos com fotos das crianças, um cinzeiro de madeira confeccionado pelo meu amigo Wilson, que é uma verdadeira obra de arte, onde colocamos todo o tipo de porcarias, como pilhas, cortador de unhas, moedas... Acho um crime utlizar esse cinzeiro dessa maneira, mas pior ainda, seria apagar um cigarro nele... Tem umas bolsas da patroa na bancada, duas pinturas de paisagem em tacos de chão, que comprei de um camelô em Madureira, um vidro de perfume vazio, brincos sem tarrachas, tarrachas sem brincos, fivela de cinto, folhas de rascunho impressas apenas de um lado, uma coleção da revista Guitar Player que adoro, umas encadernações de apostilas de informáica, umas coisas que escrevi, encadernadas com aqueles espirais horrorosos e toda sorte de porcarias. Bem, retirei o “Angustia” do Gracialiano, que é o próximo da fila, e depositei o “Cascos & Carícias” ali, naquela fenda mínima, onde ficou quase asfixiado pelo “Vidas Secas”, também do Graciliano... Passei a vista em toda essa fileira de livros e vi ao lado do “Vidas Secas”, o “Senhora Coisa” de Rodrigo de Roure, meu irmão... Fiquei orgulhoso de novo, como da primeira vez que o coloquei ali, ao lado do Graciliano... Agora tem a D. Hilda Hilst o escorando do outro lado... Eu sempre disse que teria um livro do meu irmão ao lado de um “Graciliano Ramos” na minha estante... É, ficou bom mesmo... Graciliano, Rodrigo, Hilda... Isso comprova a bagunça total das obras, porque poderiam estar os autores em ordem alfabérica, pelo menos, mas nem isso (risos). Logo adiante tem uns três do Gabriel Garcia Marquez, que amo loucamente, e a biografia do keith Richards, escorada na do Ozzy Osbourne e a da Elis Regina, assim, meio para fora, o amigo a quem eu havia emprestado a devolveu esta semana, e o coloquei ali, de qualquer maneira porque estava com pressa... A auto biografia do Lobão vem em seguida, sofri horrores lendo esse livro, putz. Que bagunça! Uma bagunça maravilhosa, diga-se de passagem... Fiquei alguns minutos olhando todos aqueles livros e me recordando de como fui feliz com eles... Bem, com alguns nem tanto assim, é verdade... Passei a mão pela estante e descobri que alguns eu não li, e nem quero ler... Tem também as revistas “Caras” que a minha esposa compra para fazer a coleção de peças da cozinha Japonesa, que tristeza... Todas muito novinhas, acho que nunca foram lidas o paginadas... Dariam uma bela fogueira, pensei, mas em tempos de recliclagem, seria um crime, então preciso descobrir logo o que fazer com elas, porque estão ocupando um lugar que não lhes pertence na nossa estante... O que me fez voltar a maravilhosa D. Hilda Hilst, a quem dei uma segunda chance este ano, quando estive na Bienal do Livro, e me arrependi de não tê-lo feito antes... Alguns anos atrás, eu li uma peça de teatro dela que não gostei, e aí nunca mais peguei outro livro dela pra ler... Criticado com veemência por meu irmão Rodrigo, seu profundo admirador e conhecedor de quase toda a sua obra... D. Hilda era uma daquelas anarquistas sagazes que não desfilam elogios a nada e nem ninguém, que realmente não mereça. Eu pensei que havia lido uma quantidade considerável de livros nessa vida, e que tivesse uma cultura razoável, sabe guri, mas lendo os “Cascos” de D. Hilda, me senti um semi-analfabeto, porque ela cita muitos títulos e autores em suas crônicas, e eu não conheci, ou reconheci nenhuma dessas obras ou autores... Nenhum! Nem de ter ouvido falar! Você acredita nisso? A danada é tão instigante, que depois de citar o autor, ela escreve assim: “(informe-se)”, bem ao lado... Como quem diz: Vai saber o que eu sei primeiro, “negão”, antes de me criticar... Confesso que me apaixonei pela D. Hilda logo nas primeiras páginas, assim como acontecera antes com Garcia Marquez, e agora, tardiamente, com Graciliano Ramos... Todo mundo leu as obras dele na escola, ou no período de vestibular, menos eu, e não sei porque... Pra falar a verdade, nem quero saber, que é pra não me envergonhar ainda mais. O que vale agora é recuperar o tempo perdido e apreciar o velho Graciliano, com sabor de novidade. Já tô caído por ele nas primeiras 20 páginas de “Angústia”, e é assim que escolho os meus preferidos. Com James Joyce não tive tanta sorte, que D. Hilda não me leia (eu sei que ela morreu, mas vai que São Pedro colocou uma rede wi fi lá no céu), mas desisti dele nas primeiras 16 páginas, o que seria considerado uma herezia por gente que gosta e entende de literatura, o que não é o meu caso. Eu não suportei o tal do James Joyce, pra desgosto do meu irmão Rodrigo, que me emprestou o fatídico livro, do qual, não me lembro nem o título... Um dia pretendo dar outra chance a ele, ao J.J. assim como fiz com a D. Hilda, essa mulher extraordinária, essa escritora incrível que não merece a nacionalidade que tem... Ou melhor, essa escritora genial que nasceu num país que nunca a reconheceu ou a mereceu, como devia. Ela é uma dessas pessoas que a gente sente vontade de sentar e conversar, digo, sentar, beber alguma coisa e ouvir. Tive a sensação durante todo o tempo que a lia, que ela era uma dessas pessoas que aprecio a companhia, e com as quais eu aprendo sempre muito mais coisas do que imaginava... Pena, porque não vai rolar mais nessa vida... O Sapo Liuliu que cuide disso pra mim, né, porque um sujeito que se preocupa com o pobre cu que nunca pegou sol, não pode ser má pessoa... Pena mesmo é ele não ter tempo livre pra me ajudar a arrumar a estante do jeito que ela merece, ou que eu mereço, não sei... Ela nem é bela, nem é forte, e nem mesmo de madeira de lei é feita. Acho até que tem uma porta furadinha de cupim, traça, ou sei lá mais o quê, mas ali está, firme, abrigando sonhos e histórias, onde fui feliz de passear, e onde espero, meus filhos viagem ainda por muito tempo. Sim, porque essa onda de Ipad não vai colar pra sempre, pelo menos pra ler livros, eu acho que não. Vai ser igual ao CD. Você tem o CD, ouve, é legal e coisa e tal, mas não abre mão dos seus LP’s. O Mesmo acontecerá com os livros e o Ipad. É bom sentir o cheiro das páginas, tocá-las, e depois de lido o livro, vivido e sonhado, guardá-lo na estante como um troféu... E tê-lo ali sempre, passar por ele e dar aquele sorriso de canto de boca, como quem diz: Eu sei sobre você e você sabe sobre mim. Algumas pessoas tem em suas estantes muitos troféus de futebol, medalhas em molduras de vidro, eu não os tenho, nunca fui atleta, nunca pratiquei nenhum esporte com frequência... Meus troféus são esses livros, esses discos, esses LP’s ali na estante velha e bagunçada, dos quais tenho muito orgulho... Hum, que delícia, Sr. Wilson das Neves ao vivo no rádio... Oh Sorte...!!!
Rio de Janeiro, 16 de Outubro de 2011.
Alexandre de Roure.

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