SAMBA’ N ROLL
Parece impossível acreditar que há semelhança entre o roquenrou e o samba. Eu mesmo, já fui um roqueiro inveterado e ficava um pouco aborrecido quando um sambista tocava no meu violão. Sempre depois disso eu tocava alguma coisa do Black Sabbath, dizendo que era para despoluir o instrumento... Que coisa lamentável e preconceituosa... Tinha o Sr. Aloysio, pai do Jorge Babão, que sempre tocava alguma coisa do Lupicínio Rodrigues, ou do Paulinho da viola no meu velho Tonante... Eu ficava ouvindo aquelas canções tão distantes da realidade de um jovem de 13 ou 14 anos, nos anos oitenta e definitivamente, não tinha nenhuma maturidade pra entender letras tão maduras e sofridas; aquelas melodias sinuosas e de tão bom gosto. É, eu não estava preparado para aquela maravilha, mas o ouvia com respeito e admiração... Todas aquelas baixarias de violão de sete cordas que ele fazia, e aqueles acordes simples, dentro da escala... Aquilo era mesmo lindo, mas eu não sabia, e se soubesse, não assumiria... Era o oposto da minha natureza punk. Só quando ouvi o Cazuza cantando Cartola pela primeira vez, é que me dei conta daquilo tudo. Depois disso, foi fácil demais perceber o quanto de samba estava nas minhas veias, já que minha avó materna, uma baiana arretada, fora sempre “devota” de Martinho da Vila, Clara Nunes, João Nogueira, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Alcione e tudo mais que tivesse um bom batuque no fundo... Hoje ela está com 74 anos e continua sambando enquanto houver um batuque na “vitrola” - Ela só para se desligarem a música ! Então, eu era um roqueiro, e a atitude de um roqueiro é algo tão importante pra ele, quanto a música que ele escuta. Esvaziar garrafas, quebrá-las, protestar contra tudo e contra todos, mesmo sem saber do que está falando, ganhar no grito, enfrentar, nunca desistir, desmoralizar os conceitos mais antigos, desmistificar a incoerência religiosa e política – Falar o que quer, ler os livros que quer, ouvir roquenrou muito alto – Estimular um quebra-quebra, só pra dizer que não vai ser do jeito “deles”... Parece muito ridículo hoje em dia, mas não para os “filhos da revolução”, não para um país que acabava de se livrar de mais de 20 anos de ditadura, de subserviência, e totalmente despreparado para isso, como para todo o resto.
Acho que esta introdução ficou grande demais, e de certa forma, muito incompleta... Eu preciso falar do samba na minha vida; Eu preciso falar do quanto é roquenrou ser sambista, de quanto é livre isso, do quanto é subversivo e revolucionário. Eu preciso falar do quanto há de humanidade nisso... Antes, porém, preciso dizer que vou falar de apenas um sambista. Vou falar não apenas de um sambista, vou falar de um artista que representa perfeitamente bem o perfil do brasileiro. E de qualquer maneira, não posso deixar de dizer que isso não desmerece os outros, que não diminui ninguém. De quem eu falo, é de longe, o maior artista do Brasil; de quem eu falo, talvez represente ainda melhor essa nação do que fez o mestre dos mestres, o Sr. Luiz Gonzaga. Eu sei, eu sei que é muito perigoso dizer isso, e que eu posso estar cometendo uma enorme injustiça, mas preciso correr este risco, mas não sem antes dizer, que Luiz Gonzaga é uma maravilha viva eternamente, e que sempre, digo, sempre que o escuto, me emociono profundamente com a beleza e a honestidade de sua obra – Digo que, a emoção que sinto na potência de sua voz e de suas interpretações é quase indescritível e certamente inigualável... Maluco que sou, ainda assim me arrisco a dizer que o Sr. Jessé, o Zeca pagodinho, é o maior artista desse país, de todos os tempos... E me desculpe o mestre Villa Lobos, e o Maior compositor do mundo, o Brasileiro Jobim. Quero explicar que eu não estou falando de uma característica apenas, como ser um compositor, ou um grande cantor e essas coisas. Eu estou falando do conjunto da obra. Ou seja, de todas as características que um artista possa reunir. O Zeca pagodinho entrou na minha vida e desde o início ensinando. Acho até, que o que ele faz de melhor é ensinar. O Maior artista dessa porcaria de país, é o exemplo perfeito do brasileiro, e mais especificamente do carioca. O Sujeito pobre, simples, honesto, honrado, digno, talentoso, esforçado, sortudo e de um carisma irretocável! Sem falar que o cara sempre fez uma música de excelente qualidade. O Sr. Jessé, “cavalo” do Zeca pagodinho, em primeiro lugar, redefiniu o meu conceito de música popular brasileira... É quando a madame coloca o samba pra tocar no seu loft. Não um samba de piano como os do Tom. Um samba de morro, de fundo de quintal de subúrbio, nobre como essa essência, para o brasileiro. Eu conhecia uma ou duas músicas do cara, e achava o máximo... Eis que o meu amigo Flávio Cachaça, com quem trabalhei nos anos 90, como auxiliar de escritório, começa a me mostrar umas outras coisas... Ele respeitava muito o Almir Guineto, mas não ouvia nenhuma outra música, que não fosse Zeca pagodinho. Era engraçado, quando ele dizia: “desculpa Alexandre, mas eu não quero ouvir mais nada, eu só gosto do Zeca” - Fui a um churrasco na sua casa, e o Flávio Cachaça me mostrou toda a sua coleção de vinis e K7’s do Zeca. Ouvimos alguns. Eu fiquei embevecido de como aquilo era real, de como era a crônica do que vivíamos no subúrbio, e não só isso, aquilo que esse artista fazia, e faz, era a história da vida do Flávio Cachaça, e também da minha. O Flávio chorava de enxugar as lágrimas quando ouvia certas músicas do Zeca. Eu saquei de imediato o quanto era importante o que ele estava cantando, já que todos nós já havíamos dado maus passos na vida e de como éramos agora, e do que queríamos ser logo ali na frente, e a resposta era única: Nós queríamos ser o Zeca, a gente queria dizer o que ele dizia, nós éramos aqueles caras, aqueles personagens de seus sambas... Bem, nessa época eu já não era mais um roqueiro, era um estudante de violão clássico e havia escutado tudo que é música do mundo inteiro que aparecia... Curioso gostar mais de Zeca Pagodinho do que de Leo Brower, né? Mas era assim... Claro que eu comecei a comprar, a gravar as músicas do Zeca, eu queria degustar aquilo, como havia feito com tantos outros compositores que eu achava importantes, como Wes Montgomery, ou Dave Brubeck. Eu precisava entender porque aquilo era tão vivo dentro de mim e me emocionava tanto. Está claro que é porque ele contava a minha história, e eu já sabia disso, mas eu achava que tinha cultura musical demais pra me apaixonar avassaladoramente, por uma música tão aparentemente simples. Meu professor de Violão Clássico era na época, diretor musical de um show da Dorina, e durante algumas aulas, vivia tocando uma música ou outra do Zeca... Putz, aquilo era o máximo... Ah, preciso dizer que o meu mestre, o Cosme Domingues, era amigo do Paulão Sete cordas também, acho que eram vizinhos e um vivia pegando o violão do outro emprestado... Eu fui estudar naquela escola de música porque o meu professor seria o Cosme, um negro, com formação acadêmica, do curso de composição da Uni Rio. Mas eu não me importava que ele fosse um músico formado, eu estava ali porque ele era negro, e os negros tinham algo fantástico, que eu jamais soubera da existência, enquanto era apenas um garoto roqueiro. Sim, eu queria sugar o swing, o balanço, o groove do cara... Era esse o meu interesse, e mesmo sabendo da sua formação erudita, e de que ele adorava Adrés Segóvia, e Leo Brower, e Bach e Villa Lobos, eu fiquei, fiquei esperando aparecerem as suas raízes, e elas vieram primeiro com as músicas do Djavan, e depois com um monte de outras coisas... Mas a minha maior surpresa foi vê-lo tocando Zeca pagodinho! E como tocava bem!!! Colocava um “segundo cadencial” nos partidos-altos e me mostrava como àquilo era interessante, mesmo sem perceber, porque a música jorrava dele... O Cosme é um homem música, ele é filho dela... Seus dedos, sua digitação perfeita, seus ritmos impecáveis, sua levadas inventadas... E ele ali, com todo aquele conhecimento, tocando Zeca Pagodinho. Foi aí que eu pensei: Quem você está pensando que é, Sr. Alexandre de Roure, pra não ter coragem de assumir o quanto você ama essa coisa toda de samba!!! Porque tocar um samba do Djavan, dava um certo status para um músico, mas um do Zeca? Hahaha, dava mais ainda, meu filho!!! Eu parava de estudar e ficava olhando o Cosme tocando; “... Provei pra você que eu não sou mais disso / Não perco mais o meu compromisso...” Era demais, bicho! Eu não parei por aí, descobri que esta porcaria de palavra “sofisticado” não era pra mim. Eu era ralé e gostava mais disso do que de tudo! Enquanto todas as pessoas que eu conhecia queriam soar ou parecer sofisticadas, eu queria ser ralé! Eu gostava de ser ralé, tinha maior orgulho disso! Eu não queria mais parecer Cult, e passei a abominar as pessoas que desdenhavam da cultura popular, porque não parecia Cult. Daí, passei a desconfiar de tudo o que era estigmatizado, politizado demais, ou coisas do gênero, mas certamente, eu não criei um preconceito ao contrário. Passei a ouvir apenas, e gostar ou não, sem paradigmas e exigência extras. Eu não tinha mais porque esconder que amava Jackson do Pandeiro, ou Luiz Gonzaga, duas das maiores aberrações para o mundo do roquenrou. Hoje eu penso: Pobres meninos de 14 anos... Não é verdade, o meu guri tem 12 e não tem preconceito nenhum, eu é que era um bobo...
Caramba, já escrevi quase três páginas e não disse quase nada do que eu havia planejado... Quem vai ler isso? Acho que ninguém, e desculpem-me, se alguém ler, pois não importa muito. Embora eu sempre quisesse que alguém lesse as coisas que escrevi, ou que escutassem as músicas que fiz, nunca, jamais, tentei impor isso a ninguém. Eu não sou daqueles caras que obrigam os filhos a ouvirem a música que eu acabei de fazer. Acho isso ridículo, porque está muito claro que as pessoas só escutam porque gostam de você. Eu não estou nessa, acho maior covardia com os ouvidos livres dos outros. Às vezes inicio uma canção minha e observo claramente o desinteresse, e não quero mesmo que finjam que estão interessados, mesmo que me amem profundamente. Neguinho sabe que eu escrevo umas porcarias e que faço umas músicas, se mostrarem interesse, curiosidade, eu vou em frente, se não mostrarem, os poupo do sorriso amarelo, e não se enganem, isso se chama semancol. Eu sou daqui do subúrbio, e sei que a maioria das pessoas só quer ouvir o que já é sucesso, sei que um jovem ator só terá valor aqui, depois de aparecer na novela, porque se isso não acontecer, ele será apenas um vagabundo que não gosta de trabalhar. E por falar em vagabundo, é nessa hora que retornamos ao Sr. Jessé. O chefe de família, o marido fiel, o pai, o avô, o amigo da galera, o cara generoso que dá moral, e sobre tudo, o homem que não tem frescuras e é sábio. Assisti a muitas entrevistas do Zeca no you tube, e no fim de semana passado, a uma especial, no fantástico. Toda vez que eu escuto esse cara falando, vou balançando a cabeça, vou concordando, e ultimamente, chorando... Pode parecer surreal um ex punk chorar ouvindo o Zeca Pagodinho cantando ou dando entrevistas, mas é muito simples. Ele é o maior exemplo de brasileiro que conheço, é o cara que realizou o sucesso do povo todo. Não há uma só pessoa que não queira ser o Zeca. Ele fala a nossa língua, e canta a nossa história, ele é sagaz, ele tem carisma, ele é ralé, é simples, é humilde e tem a perfeita noção de respeito pelo próximo, ele tem a porra da chave da comunicação. O Zeca tem uma generosidade quase bíblica e não faz a menor questão de ser quem não é. Ele conversa com mendigos, toma cachaça sem camisa no botequim, ele carrega as crianças no colo pra onde puder, é honestíssimo e não abre mão de ser honrado. Pô cara, se eu tivesse realmente chegado a ingressar na faculdade de sociologia, como pretendi um dia, certamente teria escrito uma tese de doutorado baseado na sua história. Pra falar a verdade, não sei como isso ainda não foi feito, ou se foi, não foi noticiado... É, talvez ainda estejamos pensando no crime da semana passada... Esse homem tem um profundo respeito pelas pessoas, ele na verdade, é a humanização mais bacana do artista popular. O Sr. Jessé não deixa a desejar em nenhum aspecto, é simplesmente um gênio, a tradução mais perfeita do que é ser um artista popular. É o cara que não perdeu o contato com suas origens, que não se vendeu ao mercado, ele simplesmente inventou um novo mercado, é o cara que não deixa furos, não abre mão de ser quem é. Ficou rico e não está nem aí pra isso, o dinheiro não o usa, apenas serve pra dar conforto a sua família... É o que há! Talvez o Sr. Jessé fique aborrecido com todos esses elogios, ele não gosta muito desse lance de rasgação de seda, o incomoda, e eu entendo que ele somente senta com os amigos toma umas e outras, faz um samba pra se divertir e come uma comida boa pra aliviar o goro, e se o resto do Brasil ama isso que ele faz, não é culpa dele, ele só está exercendo o que é, e quem é. Pra ele, certamente, não fez nada demais e conhece tanta gente igual a ele, que deve até se espantar com tanta babação de ovo, mas foi ele que foi escolhido pela arte, foi ele que foi escolhido pela música, e talvez até por Deus, pra nos dizer claramente, que o homem pode ser simples, pode ser rico, pode ser gente e pode ser genial Gente boa, da melhor qualidade, cantando samba bom, da melhor qualidade, desde o início, sem se perder, sem se deslumbrar. E aí eu me pergunto o que pode haver de roquenrou nisso? Ora, ora, ora, elementar meu caro Watson... Tudo nisso é roquenrou, é transgressor, tem atitude, tem malandragem, tem revolução, tem birita, verdade e sincronia com a vontade do povo!!! Eu poderia até arriscar a dizer mais uma loucura, absurda, talvez o Zeca Pagodinho pudesse ser um novo John Lennon, se quisesse!!! Mas não, isso iria o afastar de casa, das crianças, da esposa, dos amigos... Hehehehe, salve Zeca pagodinho, o cara que não tá nem aí pra essa porra toda de sucesso, grana e babação de ovo, e ainda assim, faz e canta o melhor samba do Brasil, no quintal, tomando umas e outras com seus amigos... Isso, meus amigos queridos, é um pouco mais que roquenrou, isso, é samba’n roll da melhor qualidade, meu cumpadi!
Rio, 15 de Agosto de 2011.
Alexandre de Roure.
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