Sentada a beira da escada – Apanhando sol. Um sol morno, muito claro, era de manhã.
Estica as pernas, aperta os olhos, torce o pescoço para trás...Muito calmamente, quase num espreguiçar manhoso. Estufa o peito e suspira lentamente, quase que sonhando ainda... Escorre a vista nos degraus de baixo de seus pés e se dá conta da sujeira do quintal. Folhas secas trazidas pela vento forte que deu ontem, uma folha de jornal com notícias tardias e inúteis, um saco de mercado sujo de óleo diesel. Era como se não visse... E se não via, não existiam. Só havia o que se queria ver, o que se queria fazer existir...
Essa manhã de inverno tão somente clara, lhe comeu a única e tímida intenção de sorriso. Pegou-a para si, como um palhaço guarda na memória a gargalhada de sua salvação... Como quem não tem mesmo porque sorrir, e não se zanga por isso.
Era de sonho e de melancolia a brisa que alisava suas coxas, seus braços livres, quase que desprendidos do corpo, levemente amolecidos pelo mesmo sol morno, e postos sobre as quinas dos degraus...
Depois deitou-se mesmo ali em cima, e mesmo sem abrir os olhos, sabia do azul perfeito do céu daquele dia. Mesmo que chovesse ela o saberia, ainda estaria ali, sorrindo e azul. Todo aquele imenso céu no mesmo tom de azul. Um azul mais escuro, encorpado e sem texturas, sem nuances, sem frescuras, sem contornos de outra imaginação. Apenas a grande tela azul e uníssona do universo a seu dispor. Tela de fundo para esse sonho vivo, tela de fundo para um novo amor. Um amor tardio, sem calores fortes, sem ilusões, sem criancices... Um amor maduro que se alimente do silêncio, das ruas vazias, dos animais quietos, sem latir, sem correr, sem crianças por perto... Quase que um amor morto de tão velho e completamente perfeito para se ler num romance belissimamente bem escrito. Um amor desses que nunca existiu entre os seres que gostam de sonhar... E com aquele azul de fundo, ali, fazendo a vida realçar-se a cada gesto, cada olhar, cada passo, como se ainda, Soraia fosse vista em câmera lenta... Como se não fosse preciso viver com urgência! E acho mesmo que urgência não havia naquele dia brejeiro... Havia um mundo sim, acontecendo, mas não estava ali naquela fotografia de Soraia deitada na escada, como quem deita numa rede, como fosse ela, a musa pintada a séculos atrás, num quadro de, nem sei quem a pintaria assim, e as escadas fossem uma bela plantação de milho e o mesmo céu azul da fotografia, estivesse agora na pintura inventada e no romance velho, e belamente escrito para acalmar os seres que amam loucamente.
O pássaro que sobrevoa a cena, e também sem pressa, a filma em preto e branco, embora que de longe, e uma lágrima miúda que escorre, por pouco não escapa aos olhos do autor, que devia estar atento, mas entorpeceu-se no trânsito da ideia e no vôo do pássaro, e quase que sentindo o mesmo sol na face; Quase que sentindo um degrau lhe machucar as costas, quase que sabendo da realidade da imagem a espreita de sua janela de ilusão... Quase que não sabendo mais o que é real, e o que é puro; o que é vida, e o que é morte; o que é sonho, e o que é arte. Não apenas, um poeta ou um fotógrafo a espreita, para registrar a calma desse dia. Não apenas, um céu azul servindo ao fundo de moldura calma, e cedendo ao que transcorria nesses ares de sonho, de brisa, de saudade... Não apenas, umas palavras despretensiosas querendo-nos tirar os pés do chão, um pouco, para imaginar o que nem sonhamos ontem... Não apenas, uma vida inteira de observação e de serenidade, urgentemente necessária a recompor a consciência viva da contemplação.
Ela se levanta, abre a bica, molha os pulsos e a testa. Depois enxuga-se na barra do vestido e caminha... Caminha, caminha e caminha... E há aquela plantação de milho, e o mundo continua ali, tudo em volta intacto como sempre estivera, e ela apenas caminha, caminha e caminha... Caminha não querendo nada além de caminhar, não pensando nada além de um passo após o outro, lentamente... Soraia voa e suas asas estendidas batem também muito lentamente, ela paira naquele mesmo ar que ainda antes, havia suspirado, e meio que fora de foco, assiste a sua cena em preto branco como antes fizera o pássaro, e assiste sua lágrima magrinha derramar-se desatenta. Vê-se em sua pintura e em sua fotografia. Pensa-se como o mato, ou mesmo com uma daquelas folhas que um vento forte trouxera na tarde anterior. Pensa-se como não se pensa um sonhador. Avista-se, tão somente como parte do romance belamente ainda não escrito, pelas mãos de um sabido ancião, que ainda nem tão velho é. Pensar-se-ia se vivesse aqui na terra esta mesma Soraia, sorrateira, transcorrendo pelo vale agora solta, como sempre e como qualquer coisa que não precise de um caminho, só precise estar ali, completando a paisagem. Sem aflição por motivo algum, sem sonho, sem passado, sem futuro e sem palavras que descrevam esse simples existir. E contemplar a existência como se parte desse mundo não fizesse.
Rio de Janeiro, 08 de Agosto de 2011.
Alexandre de Roure.

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