quinta-feira, 26 de agosto de 2010

BANANEIRA DEGOLADA

A DEGOLA DA BANANEIRA DO VOVÔ

No quintal dos fundos do número 157 da Rua João Barbalho, no bairro de Quintino, meu avô plantava toda sorte de árvores frutíferas, como eu já devo ter dito em outro conto... Sim, mas o que vamos falar hoje é que meu tio-avô, Áureo, mais conhecido como o Barão, (porque era muito parecido com o Barão da nota de mil cruzeiros), irmão do velho Gilto, havia comprado uma casa de veraneio, em Rio das Ostras, na região dos lagos, estado do Rio, onde fomos algumas poucas vezes. Ficava próxima a Costa-azul, onde as praias eram encantadoras para meu avô. Sobre tudo, porque segundo ele, as ondas daquele lugar foram todas furadas por mim, que mergulhava contra elas sob o seu insentivo... Depois de tê-las furado e longe delas, eu as ficava imaginando, azuis e espumantes, com furos redondos da largura do meu corpo, se erguendo e estourando suavemente, como fazem as ondas serenas daquele lugar. Disse a meus filhos quando foram a Rio da Ostras com seus tios, que procurassem avistar por lá, ondas diferentes do resto do mundo todo, com enormes furos circulares que eu mesmo fiz quando tinha uns sete ou oito anos. A reação de Vinícius é silenciosa e seus olhinhos brilham de uma maneira que somente se comparam aos meus, quando vovô relembrava que eu havia furado todas aquelas ondas. Eu repito pro meu guri a frase do vovô Gilto, que as vezes lembrava das praias de Rio das Ostras, dos bons momentos que passamos lá, e é claro, “da única praia do mundo que teve quase todas as ondas furadas pelo seu neto Alexandre”. Ah, Sr. Gilto...
No quintal da casa do Tio Áureo, haviam algumas árvores frutíferas e muitas plantas ornamentais que eram regadas todos os dias pela cuidadosa e querida Tia Valquíria, e supervisionadas e protegidas por Belina, a Dálmata da família, que exibia um comportamento que somente as meninas de família rica poderiam ter. Belina não era só linda e educada, não era só um cão, ela era uma dama, uma princesa. Tinha o sua bolsa de madame e o seu sofá exclusivo na sala de estar para assistir as novelas na companhia de Tia Valquíria.
O Vizinho de Belina na casa de Rio das Ostras, um enorme e bem cuidado Pastor Alemão, não podia me ver passar que latia desesperadamente, de maneira que eu tinha medo, porque ele parecia me odiar. Eu atravessava a rua pensando que ele podia me morder, mesmo estando atrás do robusto portão de madeira. Vô Gilto fazia o que podia pra eu relaxar e não demonstrar todo aquele pavor. Dizia que os cães sentiam cheiro de medo e isso os estimulava mais a latirem para impor respeito. Numa das manhãs em que passávamos em frente ao portão do vizinho “Alemão” de Belina, vovô fez com que parássemos e ficássemos ali um pouco, pro cão matar sua curiosidade sobre mim, mas em um de seus saltos vorazes, o portão se abriu e infelizmente eu tive tempo de perceber que o Pastor era uns dois palmos mais alto que eu, quando ele pôs sobre os meus ombros as suas enormes patas negras e eu tive a sensação de estar sendo abraçado por um urso – Sua boca gigantesca, seus enormes dentes e seu bafo asfixiante, a alguns centímetros de mim... Foi como se eu tivesse desmaiado, ou morrido de susto por alguns instantes. Acordei deitado no chão de terra da rua com aquele “cavalo” sobre mim, com suas patas gigantescas sobre o meu peito, e seus dois palmos de língua lambendo a minha cara pálida de medo ou susto... Pude ver a imagem embaçada do Vô Gilto, com as mãos na cintura, se acabando numa rara gargalhada. Depois disse: _É, parece que você fez um bom amigo hoje, Alexandre!
Depois dessas e de outras pequenas aventuras, voltamos para o Rio de Janeiro, mas de Rio das Ostras como lembrança da casa de seu querido irmão, vô Gilto trouxe uma muda de bananeira. Comprou adubo e plantou-a em lugar estratégico, no meio do seu pomar, onde a maior árvore era uma goiabeira mediana, e nada impediria o sol de chegar a sua nova cria. Alguns anos se passaram e a bananeira permanecia lá, forte e dando frutos muito doces – Banana-maçã. Vovô nos servia delas e contava a vantagem: “_Banana doce como essa, só na Serra do Piloto, em Mangaratiba!”
Meu “super primo” Maurício, entre outras coisas, era um pipeiro nato. Vivia com suas pipas e rabiolas coloridas pela rua desde bem pequeno. Tudo comprado no armarinho do seu Jorge, ou no seu vizinho, o Sr. Carlos, um português grisalho que vendia pipas com cabrestos prontos, rabiolas e cerol para os guris que não tinham tempo a perder.
Mais que tudo, Maurício sempre fora um competidor, gostava de ganhar em tudo, ser o primeiro, o melhor, e era, e ganhava. Ao contrário de mim, que só pensava na diversão – Pouco me importava ganhar ou perder, desde que aquilo que estivéssemos fazendo me divertisse. Assim como meu filho Vinícius o é hoje. Por esse e outros motivos, meu primo nunca soltava pipas sem antes, passar cerol na linha. Ele não se contentava em tentear e debicar os piões, ele sentia a necessidade quase incontrolável de cortar outras pipas e essa era a sua maior diversão.
Amarrava a ponta da linha numa das pilastras da caixa-d’água no quintal, lá em baixo, e caminhava para o quintal lá em cima, no pomar, onde contornava em alguma árvore que estivesse mais ou menos na direção da pilastra, retornava e descia. Fazia isso algumas vezes, tendo uma boa parte de sua linha com cerol. Bem, nesse dia, escolheu a valiosa bananeira do vovô, pra fazer a tal manobra. Fez lá todo o circuito, cinco ou seis voltas de linha esticada, punha a mão em concha, despejou ali uma porção de cerol (vidro moído peneirado numa meia calça velha da vovó e cola de madeira derretida), e passava a mão por toda a linha, e a linha passava pela dobra da mão, absorvendo a quela mistura poderosa, e refazendo o circuito. Depois esperava alguns minutos para que secasse e era só recolher a linha. Nessa hora, ia enrolando a linha, mantendo-a esticada, refazendo o circuito novamente, umas cinco ou seis caminhadas da pilastra a bananeira, pra linha não arrastar no chão. Curiosamente, teve preguiça de fazer a última volta, simplesmente arrebentou o nó final da pilastra e achou que podia ir enrolando os últimos metros de linha, distrído, observando outras pipas no céu, e pensando qual ele ia querer cortar, quando colocasse a sua no alto... Alguém gritou: “_Madeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiira!” Bananeira ao chão, Maurício pegou sua pipa e o rolo de linha e correu pra rua assustado.
O que aconteceu quando vô Gilto viu sua bananeira de estimação deitada, no pomar, como se tivesse sido cerrada ao meio, não é difícil de imaginar... Ninguém levou palmadas ou ficou de castigo por isso, mas era pior assistir os traços de profunda tristeza nos olhos do vovô, que qualquer outra bronca...

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