_Dr. Por favor, veja o que pode fazer. Disse Dona Aurora sentada à beira da banheira, com a cabeça da morta no colo.
_Claro senhora, é o meu trabalho.
O enfermeiro pôs a maca no canto da parede do banheiro e aproveitou a oportunidade de estar diante daquele grande espelho para consertar o penteado. Ajeitou a franja. Dr. Moreira pegou no pulso de Clarice para contar os batimentos cardíacos. Não tinha nenhum. Pegou no outro pulso, que antes estava dentro da água, e nada... Estava mesmo morta! Verificou as pupilas dos olhos com uma pequena lanterna, a boca e a coloração da professora. Virou o corpo um pouco para um lado e depois para o outro. Não havia marcas ou hematomas. Estava morta. Ponto.
Dona Aurora pediu que Ana Carolina fosse para seu quarto, mas o máximo de obediência que conseguiu da guria foi que ela saísse do banheiro e se sentasse no primeiro degrau da escada. As duas ainda choravam, mas o susto inicial já havia passado.
_Era parenta sua, senhora? Disse Dr. Moreira apontando para a professora.
_Meu nome é Aurora. Não, Clarice não era da família.
_Era o quê então, para morrer na sua banheira?
_Minha secretária.
_Sua empregada?
_Mais do que isso doutor. Muito mais... Era a governanta da casa, professora de piano de minha filha, e amiga íntima.
_Que pena... Tão jovem! A senhora sabe se ela tinha algum problema de coração?
_Não tenho idéia. Estava conosco há pouco mais de dois anos.
_Mas não eram amigas íntimas? Nunca a viu tomando algum remédio?
_Dr. Moreira, vai demorar muito? Estou com fome. Disse o enfermeiro Sérgio, impaciente.
_Acalme-se, por favor. Disse Dr. Moreira ao enfermeiro.
_Esse seu enfermeiro não tem mesmo consideração com a dor dos outros...
_Ô minha senhora...
_Cale a boca Sérgio! Isso não é hora. A senhora me desculpe, Dona Aurora, é que passamos por isso muitas vezes por dia, e aí a senhora sabe... Torna-se comum. Infelizmente.
_Se não pode respeitar a minha dor, não posso entender a fome dele.
_Por favor, senhora, acalme-se. Vamos cuidar de tudo.
_Só se for o senhor, Dr. Moreira, porque eu vou almoçar. Disse o enfermeiro mal humorado.
_Sérgio, não piore as coisas para esta senhora, por favor!
_Está bem, Doutor. Ô minha senhora, ela tinha problema de coração ou não tinha?
_Acho que não tinha. Nunca falou no assunto e nunca a vi tomar remédios, a não ser pastilhas para a garganta. Bem, pelo menos que eu me lembre agora...
_O que vamos fazer doutor? Perguntou o enfermeiro.
_Ainda não sei. Preciso pensar um pouco...
_Então pense logo doutor, meu estômago está me matando!
_É que ele tem úlcera Dona Aurora, tem horário para a papinha. Cale-se Sérgio!
_Então o mande ir almoçar doutor, o médico aqui é o senhor. Minha amiga já se foi, então acho que não vamos precisar dele por aqui falando sem parar. Disse Dona Aurora já, no limite de sua paciência.
_Vá Sérgio, vá almoçar.
_E o carro?
_O motorista está na ambulância e vai continuar lá até que eu termine o serviço por aqui. Entendeu?
_Já que é assim, eu espero.
Dona Aurora chamou Ana Carolina e pediu que ela levasse o enfermeiro até a cozinha e lhe oferecesse alguma coisa para comer. A guria fez cara feia pra mostrar que não tinha gostado dele, mas obedeceu a ordem.
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