quinta-feira, 21 de março de 2013


COMO É QUE É?
Liguei para "uma" escola de música a fim de informações sobre seu curso de canto popular, depois de pesquisar muitas na Internet... Fui atendido por uma recepcionista que passou o telefone para um de seus professores. Ele foi educado e utilizou uma linguagem jovem e despojada, me convidando para uma entrevista de seleção, já que ele não estava autorizado a dar informações sobre valores por telefone. Achei aquilo muito estranho, visto que era uma escola de música particular, e este não é um procedimento "normal" no mercado. Nossa conversa foi breve, mas e eu fiquei com a pulga atrás da orelha. A noite comentei com a minha esposa, que aquilo estava me incomodando, e que me parecia ser uma escola voltada para fins "religiosos"... Ou fundada por religiosos...
Bem, o curso era próximo e eu me prontifiquei a ir a entrevista, já que eu não tinha nada a perder... Meu orgulho foi malvado, como sempre e eu fui pra ter certeza de que ia encontrar o que previa. Cheguei ao local no horário marcado, e enquanto aguardava na recepção, pude observar uma reunião no mezanino, todo envolto de vidro, que ali só havia pessoas de terno e gravata... O homem que palestrava, segurava uma bíblia na mão esquerda e batia com ela na mesa, enquanto falava. Não consegui ouvir o que diziam, mas, eu já sabia o que esperar... Alguns minutos depois o professor que me atendera ao telefone veio ao meu encontro. Ele me cumprimentou, pediu que eu me dirigisse a uma das salas de aula. Ligou o Ar condicionado e começou a me fazer perguntas sobre música, mudando sorrateiramente para uma arguição sobre minha vida pessoal e posicionamentos sociais. Ele estava muito bem vestido, asseado e trazia também, uma Bíblia na mão, ou era uma agenda? Não saberemos jamais... Tinha toda aquela "conversa de vendedor" bem preparado, bem instruído para lidar com as diversidades, mas não me encantou nem durante um segundo de nossa prosa. Depois de saber que eu toco e componho desde criança, citou alguns compositores de MPB para me deixar mais a vontade e, não obtendo o sucesso desejado, ligou um amplificador e me deu uma guitarra vermelha, de má qualidade para que eu tocasse... Eu não toquei. Disse que se ele tinha ligado tudo, é porque talvez tivesse a fim de tocar, mas eu não. Desligou o amplificador e pôs a guitarra no pedestal. Bem, Já sabendo o que ia encontrar, fui de bermuda xadrez, tênis vermelho, e camisa
sem mangas a fim de deixar bem a mostra, minhas tatuagens... Sem falar na barba por fazer e no cabelo sem corte, que eu não penteio mais, desde que meu filho disse, que essa prática está ultrapassada... Eu sempre gostei de provocar as pessoas. Acho isso bacana! Gosto que tenham a impressão certa. Ele ficou me analisando, me olhando de cima em baixo e disse que me viu da janela, enquanto eu entrava, e sabia que eu era músico, só de olhar pra mim. Disse-lhe que estava enganado, que eu só tinha pinta de músico, mas era técnico em processamento de dados. Perguntou do meu trabalho, dos meus horários, da minha luta e demonstrou estar impressionado. Disse-lhe que não era maior do que a de ninguém, a minha luta, eu era um brasileiro, como os outros. O Homem me falou das instalações da escola, do seu conhecimento musical, se sua técnica, do nível interessante dos professores, me mostrou vídeo aulas, mas nada de falar dos valores. Ele me mostrou o material didático e muito feliz da vida, achava que estava me impressionando, mas pra mim, estava muito claro o seu desapego a minha pessoa, por eu não ser religioso e não me vestir do jeito que ele aprovaria, visto que não tirava os olhos das minhas tatuagens. Eu ria por dentro. Queria que isso acontecesse! Sim, ele Olhava desconfiado para minhas tatuagens, para minha roupa, para minha cara sorridente. Sim, eu estava com aquele sorriso amarelo que você que me conhece, sabe que não estou rindo pra você, e sim, de você. Fiz o jogo. Deixei-o cansar de falar e de vender o seu produto. Sorrindo sempre, eu as vezes falava alguma coisa, mas com um sorriso largo  e amarelo no rosto.
Bem, eu me cansei antes dele e perguntei quanto custava aquela "maravilha" toda. Ele desconversou, me mostrou mais um vídeo no seu tabletm de um ex-professor que fora estudar nos EUA, e saiu da sala. Perguntou-me muitas vezes se queria uma água ou um café. Acho que ele estava nervoso... Voltou com um café na mão, e por fim disse que gostava muito de chorinho, de Jacó do Bandolim e de Pixinguinha, a pesar de ser evangélico.
Eu lhe disse que música não podia fazer mal a ninguém, com um "né?" no final da frase e voltei a perguntar os valores. Ele desconversou novamente e voltou a falar do material didático.
Eu disse: Sim, já vi que é bacana, e perguntei quanto custava aquela  produção toda.
Muito sem jeito, ele me respondeu: R$ 380,00 a mensalidade + R$ 380,00 de matrícula + 10 x de R$ 95,00 pelo material didático. Eu disse que era interessante, mas estava muito acima do que meu orçamento podia pagar, e já fui me levantando...
Ele: Você quer estudar realmente, Alexandre?
Eu: Claro, a final, eu vim até aqui.
Ele: Bem, então eu tenho uma proposta. Eu posso te incluir num grupo de estudantes religiosos que fechou um pacote ontem, como se você fosse um deles, e aí você pagará apenas R$ 250,00 de matrícula + R$ 250,00 de mensalidade e as 10X de R$ 95,00 do material didático.
Eu: Não, ainda está acima do meu orçamento, obrigado! Não estou dizendo que não valha
este preço. Estou dizendo que eu não posso pagá-lo. Tenho filhos para alimentar, Obrigado!
Ele disse que eu podia pensar melhor e ligar para ele no dia seguinte. Eu não tinha o que pensar, sabia que não queria estudar ali, e muito menos ainda, pagar aquele valor absurdo por essas aulas, só porque eu não sou evangélico. Ele se levantou, apertou minha mão, muito sem graça, abaixou a cabeça uma vez, disse que havia gostado de mim, abaixou a cabeça novamente, deflagrando que era mentira, claro, e saiu da sala. Eu não disse nada. Apenas saí e dei boa tarde para as meninas simpáticas da recepção. Conforme o combinado, no dia seguinte, eu liguei para a escola e perguntei por "ele". Fui informado que não estava na escola naquele horário, como eu previa. Pedi a recepcionista que lhe desse o recado, de que eu não podia aceitar a proposta dele. E fim de papo!!!
A final de contas, quem essas pessoas pensam que são?
É uma seleção, mesmo? Evangélicos pagam R$ 250,00 e "não evangélicos" pagam R$ 380,00 ?
Ou seria este um preço para que eu não aceitasse mesmo, porque eles não querem pessoas "não evangélicas" em sua escola?
Eles pensam que estão me fazendo um favor, deixando que eu esteja entre eles?
Ou será que são muito bonzinhos e pretendem fazer uma caridade para uma pessoa "do mundo", baixando o preço para R$ 250,00? (Obs. Este preço ainda está acima do mercado, e as escolas de música não costumam cobrar uma matrícula no valor da mensalidade e muito menos, o valor de quase R$ 1.000,00 por cinco livros. Obs2.: Os livros da escola do meu filho, que cursa o nono ano, custaram R$ 800,00).
Bem, eu tenho resposta para cada uma dessas perguntas, mas não as darei... Cada um que encontre as suas, mas, Uma coisa certa, eu não gosto de estar perto de pessoas que agem dessa maneira!
Não, eu não estou ressentido e nem frustrado. Já sabia o que ia encontrar e que não estudaria ali, somente por ter falado com o rapaz por três minutos. Fui lá apenas para satisfazer a minha curiosidade e o meu ego travesso! É, os seres humanos são TODOS assim, mesmo os religiosos, não se enganem!!!

Um forte abraço e “Paz de Cristo para todos” !!!
Ou seria melhor dizer: Patacuri Ogun!!!
Rio de Janeiro, 21 de Março de 2013.
 
Alexandre de Roure.

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