domingo, 3 de fevereiro de 2013

CARTA AO IRMÃO QUERIDO

Que sorte tê-lo morando aqui dentro. Logo aqui dentro. Pertinho.
Grande, parrudo, espalhado...
Pulsando,  inspirado, e respirando tanto....
Ainda assim tenho saudade. Uma bobagem de saudade do que não vejo...
Não vejo, mas sinto vivo.
Um orgulho bacana, sereno... Orgulho da sua língua, da sua voz, do teu dizer.
Orgulho da tua cara, do teu sorriso doce, da tua direção... Da tua vida inteira...
Quisera eu, dar continuidade aos bilhetes, poemas, retratos, discos e dicas sobre a prancheta do
quarto da casa da vovó... A gente ali no "barco de rodas" desbravando o mundo, procurando tudo...
Sim, era isso que eu queria... Sempre quis. E acho que só isso, talvez. Bem, não sei se só isso bastaria.
Quando entrava na casa da vovó, corria pra ver se tinha uma mensagem tua na "prancheta de entrada"
(a nossa primeira IN BOX).
Era o nosso correio eletrônico, quando ainda não se falava nisso, quando ninguém sabia o quanto se pode amar alguém a dez minutos de sua chegada ou de sua saída.
Acho que nós inventamos essa coisa de e-mail! (Ninguém sabe disso também, nem nós!)
Era feliz cada notinha escrita ali, ainda que fosse triste e arrastado um poema ou outro. No fim, era feliz, porque você assinava.: "Rodrigo!" Eu via você ali, no traço da sua grafia e no jeito esquisito que punha data nas coisas... Fazia o nome e puxava uma cruzinha onde escrevia a data. Eu gostava.
Ainda hoje não perdi o costume de te procurar, de querer saber onde está sua alma hoje, ou come esteve ontem o teu humor. Entro no facebook pra ver se você escreveu alguma coisa,
pra saber das suas boas novas, das suas piadas, o que você deixou... Se um mosquito zzzzzzzzzzzzz pimft! Quais as suas pegadas do dia... Para seguir o seu rastro, seu cheiro, sua maneira única de dizer o mundo, que eu amo tanto... Não o mundo, e sim o jeito que você o diz. Bem, eu também amo muito o mundo, mesmo que você não tenha o dito todo, é verdade.
A nossa prancheta era bem mais interessante, não posso negar. Nossos recursos eram, o papel, muitas vezes já rabiscado, e uma caneta ou lápis de qualquer cor. Nesse tempo, uma cor tinha tantas cores... As cores dos sonhos... Era bonito o preto no branco, e vívido como um arco íris, lembra? Bem, ainda o é!
Mas antes não tinha boi na linha, nem mensagem interrompida ou mal rimada. Não tinha tinha bug, queda de internet ou palavra mal tratada. Não tinha chatice,  nem poesia que não valesse uma canção... E assim se fizeram algumas... E outras desistiram só pra dar lugar a novas histórias... As histórias sempre nos foram tão bem vindas, meu irmão... Mesmo as que não mereciam atenção, tornaram-se boas. Bom é o contador. É isso que vale. É o que interessa, sabe? Um bom contador de histórias...
E assim nos apresentamos, nos atualizamos, nos refizemos e nos construimos um pro outro e para o mundo, eu acho.
Assim, querido irmão, mesmo que hoje eu não vá tantas vezes até a prancheta, ainda espero uma canção,
uma frase, um poema, um folheto, uma foto, uma fatia de palavras bem "dizidas"...
E como estou aqui, sem o violão, ofereço-lhe esta carta como um beijo!

Rio de Janeiro, 02 de Fevereiro de 2013.
Alexandre de Roure.

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