SAI PRA LÁ SEU GILTO !!!
Sim, eram três ou quatro casas germinadas na vila. Havia um grande quintal gramado que os moradores todos utilizavam como garagem. Não tinha somente grama ali, mas outros tipos de mato e capim. Esta vila não tinha portão, então era aberta a qualquer um que quisesse entrar, inclusive vacas, cavalos e cachorros de rua. Esses sim, eram freqüentadores assíduos do nosso quintal. Todos os dias pela manhã ou no fim da tarde, alguns desses animais apareciam para pastar ali ou pleitear uma sobra de almoço, no caso dos vira-latas. Entre esses animais, havia um cavalo especial, forte, alto e marrom, como o “Pangaré”, o cavalo do “Pedrinho” da série de TV do Sítio do Pica-Pau Amarelo, adaptada da obra de Monteiro Lobato. Naquela época, qualquer guri queria ser o Pedrinho, inclusive nós três. Ficávamos pendurados na janela, atrás da tela contra mosquitos, admirando os animais ali comendo. O nosso Pangaré era o mais assíduo e por isso, criamos uma certa intimidade com ele. Vô Gilto, que não perdia uma única oportunidade de se exibir para os netos, foi logo até a cozinha e pegou um bico de pão duro para oferecer ao Pangaré. Partiu para o quintal e foi se chegando, se chegando, se chegando de mansinho, até ganhar a confiança do bicho. Pronto, posto ao lado do Pangaré, ficou parado com o bico de pão na mão e olhando para nós. Fazia sinal com o dedo indicador na frente da boca para fazermos silêncio. Quando o animal se sentiu seguro com a situação, ofereceu-lhe o bico de pão duro. Ficamos ali mesmo, atrás da tela, ansiosos pra ver o vovô fazer amizade com o nosso Pangaré, é, assim o chamávamos. Pangaré abocanhou o bico de pão e o ruminou por ligeiros minutos, desprezando a presença insignificante do vovô. Depois de engolir, voltou a pastar a grama como sempre fazia. Vô Gilto não ficou satisfeito, voltou na cozinha, pegou mais pedaços de pão duro e os ofereceu ao Pangaré, que não titubeou não... Abocanhou-os e degustou a sorte do paladar diferenciado de tudo que já comera até então. Vô Gilto foi ficando a vontade e acariciou a crina do cavalo, julgando já serem bons amigos. O Pangaré de boca cheia, e feliz, permitiu o carinho, e nós continuávamos lá na janela assistindo, enfeitiçados, as manobras de vovô para alimentar o gordo cavalo com miolo de pão duro... E assim, a cena se repetiu vários dias seguidos. Com o tempo, passamos a ir até do lado de fora da casa, ali, sentados no segundo degrau da entrada, assistir mais de perto os animais comendo, e pensávamos em talvez um dia, montar o nosso Pangaré, como fazia o Pedrinho, no Sitio de Pica-Pau Amarelo. Sentávamos no degrau da porta e vovô nos chamava pra mais perto a cada dia, mas ainda não tínhamos coragem para tanto. Estávamos longe mesmo de ser como o Pedrinho... Em fim, numa dessas tardes, estávamos lá, debruçados na janela, quando o Pangaré chegou, um pouco depois dos outros animais. Vô Gilto deixou a vaca que estava acariciando de lado, e se dirigiu ao velho amigo Pangaré, estendendo-lhe a mão servida de um bom pedaço de pão. O cavalo o recusou. Vô Gilto não ficou satisfeito e o ofereceu novamente. O Pangaré voltou a recusar o pão. Vovô insatisfeito com a recusa do bicho, pensou no que poderia ter ferido aquela “velha” amizade e ofereceu-lhe novamente o pão. O Pangaré virando-se de lado tentou acerta-lhe um coice, que pegou-lhe na perna, de raspão. Vô Gilto danou a correr pela vila até alcançar a porta de entrada da nossa sala, afobado, pela ameaça do cavalo segui-lo enfurecido. Correu pra dentro de casa e trancou a porta virando a chave, ofegante e dizendo esbaforido: ”_ Ah, vocês viram, ele não está pra conversa hoje, não? Eu tentei fazer-lhe um carinho e ele reclamou bem alto no meu ouvido! Vocês ouviram o que ele disse? Dissemos que não. Não? - Disse o Vovô... Não é possível, ele falou bem alto, assim, ó, Sai pra lá seu Gillllllllto!!! Sai pra lá seu Giiiiiillllllllto!!!” Vovô repetia a frase imitando uma voz de assombração, trêmula e grave e com os olhos arregalados por trás daqueles óculos grossos... Entreolhamos-nos interrogativamente, e é claro que não ouvimos nada, mas no Sítio do Pica Pau Amarelo havia o tal do burro falante, que por sinal era inteligentíssimo, então, porque é que o nosso pangaré não podia falar “Sai pra lá seu Giiiillllllttttoooo!!!” (???) Caímos todos numa boa gargalhada, inclusive o velho Gilto, e ainda hoje me lembro vividamente da corrida que Vovô levou, e de sua cara assustada, encostado atrás da porta da sala, respirando com dificuldade... É, o vovô também estava longe de ser como o Pedrinho...
Rio de Janeiro, 27 de Maio de 2008.
ICINHO O MIROLHA
Lá em Muriqui, um daqueles bois que sempre pastavam em nosso quintal, um boi preto, gordo, bonito e com olhar assustador, estava parado na entrada. Nós o chamávamos de Pretão. Isso Pretão, estava parado bem em frente à vila. Sim, ali já havia pasto para ele.
Icinho, meu primo Maurício, particularmente, era um exímio atirador de pedras. Era mesmo um mirolha, como costumávamos chamar esses que tinham vocação para a coisa. Maurício acertava pedras onde queria. Mirava e atirava, sem erros. No alvo.
Era costume de vovô e vovó, ir até o portão no fim da tarde cumprimentar os vizinhos e amigos que chegavam do trabalho. Vovó chamava isso, de “ir ver as modas”. Sim, Eles e Tia Sheila já estavam no portão, como faziam todas as tardes. Nós não nos interessávamos muito por isso, mas aquele boi parado ali, a três metros de vovô, era um bom motivo para forjar uma adesão ao habito dos velhos. É rapaz, aquele boi ali era um prato cheio pra qualquer moleque com vontade de aprontar uma arte... Fomos os três para a calçada da rua e nos sentamos junto ao poste de luz, encostados ao muro da casa do vizinho da direita. Ficamos sentados admirando o Pretão ruminando o seu capim. Maurício juntou umas pedrinhas pequeninas perto dos pés descalços, a uns 10 metros do danado do boi. Bem, como era de se esperar, disfarçou e atirou à primeira. Acertou próximo ao focinho. Pretão não se moveu. Maurício atirou a segunda pedrinha e o boi, sem parar de ruminar nos olhou fundo, com ares de reprovação. Maurício atirou a terceira pedra e o bicho demonstrou não estar gostando nem um pouco daquela brincadeira idiota e de mau gosto. A final, ele estava comendo, e animais não gostam de ser incomodados quando estão se alimentando, inclusive eu. Vô Gilto já havia notado o que estávamos fazendo, mas não me lembro de ele ter dito alguma coisa. Em fim, Meu querido primo Maurício, o mirolha, atirou outra pedra e acertou exatamente no focinho do Pretão. O animal ficou muito aborrecido, levantou a cabeça fitando meu primo como quem dizia, venha cá seu moleque sem vergonha que eu vou te dar uma surra, e saiu em disparada atrás do meu primo que desandou a correr feito um louco pela rua de terra levantando poeira com o Pretão na cola dele bufando de raiva... Eu e meu irmão Rodrigo permanecemos onde estávamos, só que de pé, como se assistíssemos uma partida de futebol, e o atacante estivesse prestes a marcar um gol... Pois sim, foi aí que vô Gilto se mostrou o avô mais veloz e corajoso de que se já tinha ouvido falar. Vô Gilto não estava certo de que Maurício ia conseguir escapar, a pesar de sua fama de bom corredor, então, partiu atrás dos dois em uma velocidade medonha e ultrapassou primeiro o boi, o Pretão, e em seguida agarrou meu primo pelo braço e o jogou de qualquer maneira dentro do quintal de uma vizinha de frente. Maurício ficou ali, agachado por um bom tempo, atrás do muro, na esperança de que o Pretão esquecesse de sua existência... O Boi parado de frente para o vô Gilto, entre o muro e os chifres afiados... O animal olhou vô Gilto bem de frente, dentro dos olhos. Vovô parado como uma estátua não mexia um músculo, não sei se de medo, de pavor ou de valentia... E nunca saberei... Mas ali ficou parado, paralisado, aguardando que o Pretão desistisse de dar uma lição em Icinho, o mirolha. Olha menino, aquilo não durou mais que um minuto, mas pareceu uma eternidade... Depois o Boi Pretão foi embora, desistiu de Icinho e foi pastar em outro lugar. Foi um “Graças a Deus” generalizado. Vô Gilto pegou Maurício pelo braço, o pôs no colo e nos levou a todos para dentro de casa. Deu-nos um sermão infinito e ficou muito zangado. Sim, zangado de um jeito que nós nunca soubemos que ele fosse capaz de ficar. Nunca mais atiramos pedras em animais. Pelo menos, não nos que nos ofereciam algum perigo... O Pretão nos deu duas lições. Uma, é que bois podem se tornar perigosos, e a outra, é que não se deve aborrecer o seu avô, seu melhor amigo.
É claro que Maurício, o mirolha, fez muitas outras vítimas com sua certeira pontaria tempos depois, mas nenhuma delas foi um boi com chifres tão afiados e cara de mau.
Rio de Janeiro, 28 de Maio de 2008.


Me lembro muito bem dessa história. Espero que o João Pedro não faça a metade das artes que fiz, senão estou ferrado.
ResponderExcluirFoi muito legal lembrar do da nossa infância tão querida e do nosso eterno vovô Gilto, que Deus o tenha. Sinto muita falta do nosso vovô querido e da nossa inesquecível infância. Me emocionei muito ao ler este texto tão bem escrito. Parabéns a sua brilhante memória. Do seu primo ausente, mas que muito te ama e admira. Abeaços ,Mauricio de Roure