quinta-feira, 7 de outubro de 2010

AMARGO QUE NEM JILÓ

Sabe guri, eu sempre achei que estava tudo errado nessa vida, digo, desde os 14 anos que eu penso que é tudo uma merda... Sabe como eu descobri que era tudo uma armação política sem fim? Não? Vou te dizer... Eu tocava numa banda de rock, quero dizer, nessa época eu nem sabia tocar direito, mas me achava o máximo e tinha alguns amigos que se sentiam da mesma maneira. Agente se juntava, fazia umas musiquinhas pra reclamar das coisas mal resolvidas na vida dos adolescentes, mas nós acabávamos falando da vida dos adultos, das coisas que nós não conhecíamos, de política, de guerra e paz, dessas coisas piegas de mundo melhor e de pássaros cantando, de homens desonestos que usam ternos e gravatas e essas coisas insuportáveis que perseguem a gente a cada página de um jornal. Em fim, a gente sabia que estava tudo errado, sabia que era tudo uma merda, mas não sabia por quê e nem como resolver nada. Mas, sabe como são os jovens né, eles têm a estranha mania de achar que tudo é fácil, e que mudar o mundo é só uma questão de gritar mais alto. Sim, os jovens acham que se disserem para o mundo o que está errado, as pessoas vão se conscientizar e modificar as suas condutas inescrupulosas, deixando para trás os seus egos travessos, suas conquistas financeiras, seus “status” sociais e suas manias egocêntricas. Ainda nessa época eu comecei a me interessar por história, filosofia, geografia, sociologia, antropologia, psicologia, religião e outras dessas coisas que acham que explicam tudo e que são capazes de solucionar todos os problemas do universo. Bem, eu sabia que estava tudo errado e queria mudar as coisas, então, eu tinha que conhecer os problemas, tinha que saber das teorias e soluções propostas... Fui em frente! A gente começa sempre pelas religiões, elas são sempre mais confortantes, mais sentimentais, mais esperançosas... Então um amigo me apresentou umas coisas da religião dele e eu achei que era bacana, que isso podia fazer bem pra muita gente e coisa e tal, mas não foi isso que me empolgou, e sim, o que me abriu as “portas da percepção, foi ele me ter dito que eu nunca, jamais, em hipótese nenhuma, deveria me interessar por Karl Marx, o materialista, como aprendera em sua igreja. Pois é, do contra como sou, pensei no que esses religiosos de meia tigela poderiam estar querendo me esconder, pois se o cara era tratado como o próprio Diabo... Pensei com meu coração crítico que, no mínimo, eu aprenderia com Karl Marx, o que não se devia fazer... Arranjei um livro chamado “O CAPITAL” e tentei desvendá-lo, mas certamente não tinha maturidade para entender o que ali estava escrito. Era difícil demais para um suburbano de 14 anos. Mas fui até o final e tentei entender aquele maluco... Nada... Muito mais tarde reli esse “livro proibido” e soube exatamente o que queria dizer, mas aí já era tarde e o comunismo havia caído por terra... Com certeza, eu ainda pratico algumas das coisas que li ali, mas o mundo é outro e temos que nos adaptar... Percebeu o que eu disse? ” Temos que nos adaptar!” Entende a crueldade dessa frase? Não? Mas você vai entender logo, logo, não se preocupe... Ou se preo cupê, pois é a pior coisa que alguém pode lhe dizer, quando você sabe que estão te passando para trás. O fato é que eu fui mais fundo e passei a me interessar por Nietzsche, Sigmund Freud, Lênin, e um monte de outros malucos mujito interessantes. Nesse momento desesperado da busca por soluções urgentes para o mundo, quem me acolheu foi a música, e inesperadamente, quem mais me ensinou, foi a música brasileira, com seus poetas deslumbrantes, suas histórias, esses compositores maravilhosos, questionando as formas, as cores, as palavras e principalmente a própria História. Cantando a beleza das cores do capim, a foto-síntese, falando das frutas, das árvores, do gado no pasto, falando de amor, falando da própria música. Moleque, tem músicas que falam sobre filmes do cinema, que falam sobre a história de alguém que existe, que falam da seca do nordeste, do barraco de madeira com telhado de zinco da favela e da beleza das praias do sul, falam das mulheres , dos homens, traçam suas personalidades, suas mazelas, seus encontros, falam de amizade, de esperança e até mesmo de revoluções. Mas sobre tudo, para mim, a musica veio como um canto de liberdade, como uma fibra de conexão com o universo de Deus, das pessoas e da Natureza. A música era o elo de ligação entre tudo e todos. Através dos nossos poetas eu vi e entendi o melhor do mundo, além é claro, de conhecer outras artes e outras maneiras de se contar uma mesma história, como o teatro, a literatura, o cinema, e outras coisas que foram aparecendo pelo caminho, pessoas e suas idéias, frases soltas... Acho que muito em breve você vai entender o que estou dizendo, é como ler machado de Assis com 15 anos, você não está pronto pra ele, mas se ler Capitães da Areia, do Jorge Amado, vai adorar. Então cara, você sabe que há um mundo paralelo correndo num trilho visível, mas a realidade dos trilhos urbanos da Central do Brasil, te puxam pra um história menos interessante, mas necessária a sobrevivência. Nesse momento é que você enlouquece porque você quer de qualquer maneira trazer a poesia da arte para o mundo real e você não consegue, porque são como mundos paralelos, um só existe para sustentar o outro e o outro existe para que você aprenda que o outro lado da arte é a vida. Não tem esse lance de que um imita o outro, nós, poetas sonhadores é que gostaríamos de viver no mundo que a arte pinta, pois é muito mais bacana. Quando Cartola falava do barracão com telhado de Zinco no morro da mangueira, era bonito demais de ouvir, mas se você morar num barracão desses, vai querer e mudar e ser feliz em outro lugar, mas não fui eu quem inventou essa frase, o Celso Atayde já disse isso em público... O que torna tudo ainda mais bonito, é saber que alguém que mora num desses barracos, consegue olhar a vida com ternura e plantar numa simples canção, a esperança de sensibilizar uma nação inteira para coisas mais importantes. Ele mora no barraco mas está com o amor da sua vida a seu lado... Faz a gente sentir vergonha, e parar para refletir melhor sobre o quê estamos reclamando, mas ao mesmo tempo, nivela por baixo e passa a idéia de que é bom morar lá, e que ter uma vida com um pouco mais de conforto é desnecessário, enquanto alguém está gastando sem pudor toda a riqueza que devia dividir com todos. É preciso entender logo que essas coisas só são possíveis no coração de um poeta, mas as pessoas “comuns” não são capazes de ver essa beleza. Elas se emocionam apenas porque alguém conseguiu encontrar formosura onde só havia miséria. Isso é poesia para quem não é poeta, pois pra quem o é, é uma coisa comum e corriqueira. O Poeta pode não se impressionar em andar num elevador ou numa escada rolante pela primeira vez, mas certamente observará o sorriso do ascensorista, o perfume da madame, o calor daquele momento, o que é a vida ali, o que poderia ser percebido por todos para que a vida fosse mais bela. É aí que você pira de vez, você quer o sorriso do ascensorista, mas ele esta de mal humor esta manhã, brigou com a mulher ou está preocupado com um filho doente, então ele não sorri. Você se cala logo após dizer bom dia, e pensa na música, em como ela é mais bonita do que a vida aqui fora, mas a beleza está ali, talvez hoje não esteja no ascensorista, mas no perfume da madame com o cachorro no colo atrás de você. A poesia da vida só está disponível para quem quer vê-la, e é por isso que estou aqui as 02:00h da manhã do meu único dia de folga dessa semana, escrevendo essa droga! Porque eu continuo vendo a beleza de uma folha cair da árvore, a delícia de abrir a janela e sentir o sol morno da esperança de um novo dia no rosto, no sorriso de sua irmã, nos seus passos determinados e na sua argumentação, na sua energia de vencer seus desafios e querê-los mais ainda no outro dia, no ronronar de sua mãe enquanto dorme leve, no olhar dos cães quando chego cansado do trabalho... E da tortura que é saber que tudo isso existe e querer dividir com um mundo de pessoas que estão interessadas no carro novo, no poder de decidir inescrupulosamente que ordem darão hoje ao chegar no trabalho, para reafirmarem a sua posição de comando e só e simplesmente isso! Não há nada por que lutar ou que se queira resolver, apenas a necessidade de ter um poder esdrúxulo, insólito, e inútil. É nessa hora que me sinto mais excluído, porque eu só penso o tempo todo que não precisava ser assim, que há mais beleza na formiga carregando o alimento para o formigueiro do que na firmeza passageira dos seios da modelo famosa, até porque, esses seios não são reais e não ficarão lá pra sempre, e ainda que o fossem, não há nada mais fugas e controlável do que o tesão. As formigas sim, continuarão com seus trabalhos, sua união, seu cooperativismo natural e instintivo, coloridas, caminhando em trilhas perfiladas pelo mesmo motivo, cada qual com a sua tarefa peculiar e indispensável.
Toda a malícia, o fingimento, o pensamento sínico do corporativismo, a falsidade ideológica dos novos capitalistas e a falta de sensibilidade crítica dos antigos comunistas, a irresponsabilidade do jornalismo , a falta de amor por ser, pelo ser, para ser...
Não questione pelo lado religioso só porque isso parece ser a ponta de um iceberg cristão, pois mesmo que essa doutrina esteja, infelizmente distorcidamente impregnada nas nossas entranhas, eu estou falando da naturalidade, de instintos harmônicos, estou falando de comunicação, da verdadeira política, a qual perde o significado exato da palavra a cada dia em que o mesmo sol morno devia vir trazer esperança ao novo dia. A vida é a prática da política, mas isso se tornou tão hipócrita, tão fingido, tão banal e necessário a sobrevivência, que a mentira é uma coisa essencialmente necessária a convivência, a manutenção do emprego, ao relacionamento com os vizinhos, ao casamento, a puta que o pariu, que seja... E aí o velho rabuja volta para o início da questão e pergunta se é ou não é melhor estar dentro de uma canção de Gilberto Gil desmistificando todos os sentidos da palavra Rebento, ou ouvir alguém que está dizendo apenas o que acha que deve ser dito, porque ficou implícito que é assim que deve se agir para assegurar uma posição palpável e de status na sociedade. Um status que a terra há de comer, não é nada como a lembrança de um brilho nos olhos quando se ganhou um presente que se queria, não é nada como a sensação de ter lido um livro de Garcia Marquez, não é nada, nem de longe parecido com assistir a um filho fazer os seus primeiros acordes na guitarra. Nada que eles acreditam tem valor pra mim!!! Sacou o tamanho da merda, filho? É por essas e outras que eu vivo de saco cheio, que eu vivo amargo que nem jiló, e você ainda não sabe, mas logo saberá que na vida, o que não é político é vício cíclico, e cria dependência, e você que não gostava do amargo dessa vida, é obrigado a prová-lo e a se alimentar dele e aí você não sabe mais fazer outra coisa se não, provar do amargo todos os dias, por que é como uma droga emocional... Você pensa que está lutando contra ela, mas não quer viver sem tê-la, pois ela é o seu alimento, você respira essa porcaria e se fascina, orgulhoso que é, pelo prazer de ser do contra, até se acha envaidecidamente, arrogantemente, melhor do que os outros, mas na verdade, você criou uma doença auto imune, e ela está te envenenando e você não liga porque sabe que ela passou a ser a sua vida e isso é o que é ser infeliz de verdade para toda e qualquer pessoa que você conheça, mas você acha que não, que você está certo, que está acima do bem e do mau, porque a sua verdade é só sua, e verdade é uma coisa que só você sabe o que é, porque se eu te contar uma boa mentira, acreditando no que digo, você vai achar o máximo, assim como o meu avô acendia a Lua pra mim, assim como se diz no mundo corporativo que ninguém é insubstituível, mas você sabe que não, sabe que é único e que o outro também é, pois Deus deu uma impressão digital diferente para cada ser humano da face dessa terra e que cada passo que você deu nunca será seguido a risca por ninguém e é assim que é, e é assim que se sabe que será, mas vivemos aceitando as verdades de outros como sendo nossas só porque queremos o carro novo, queremos pagar a prestação da casa, queremos que nossos filhos tenham um plano de saúde, porque a saúde pública é uma vergonha, porque o governo é uma bosta e é uma bosta mesmo porque nós o escolhemos errado, porque elegemos o Tiririca só pra poder reclamar mais 4 anos que eles não fazem nada direito, e roubam e enganam e prometem e nunca cumprem, porque o fácil dessa mesma vida,filho, é colocar a culpa em outro, em vez de assumir a sua loucura e ser amargo que nem jiló, porque ser amargo é chato, é inconveniente, e ninguém quer falar de cosas chatas, porque ninguém quer assumir nem isso, pois que se danem os pobres eu estou feliz com o meu novo telefone celular de R$ 3.000,00, e daqui a 5 anos eu acabo de pagar o meu carro zero, mas isso se eu o pegar, porque talvez seja melhor deixar de pagá-lo pra comprar um outro que está mais na moda...
O fato é que pra ser feliz nessa vida guri, é que há que se ser um completo ignorante, ou um verdadeiro anarquista, que consegue rir até da própria desgraça, ou que se escolha a amargura do jiló e se chore de alegria quando o Luciano Huck realizar o sonho de algum mortal fingido como você.


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